Bruna tenta recomeçar — mas quando o passado tá vivo dentro da gente, fingir que ele morreu é impossível. E o sistema tá cada vez mais impiedoso. Agora não tem mais volta.
04h22.
R.P. acelerava como se pudesse atravessar o tempo. A estrada de terra virou um campo de emboscada. Na frente, um tronco atravessado. Atrás, dois carros fechando. Um helicóptero sobrevoava, mas sem holofote. Era caça silenciosa.
Ele freou com tudo, abriu a porta, correu pro mato.
Do rádio da viatura:
— "Rodriguinho evadiu. Tá a pé. Reforços na trilha três. Mandem os cães."
No mato molhado, o cheiro de terra misturado com sangue seco do corte antigo. R.P. respirava ofegante. Cada galho quebrado parecia um grito. Cada passo em falso, uma chance de morrer.
Mas ele seguia. Porque fugir não era só sobreviver. Era proteger Bruna.
Em algum ponto do interior de Minas...
Bruna usava outro nome: Gabriela Nunes. Vivendo em uma casa pequena, atrás de uma padaria, com documentos falsos e um novo corte de cabelo. O contato de R.P. havia conseguido tudo: identidade, aluguel, até um trabalho simples — ajudante de caixa.
Mas a rotina simples doía mais do que o caos.
Ela anotava os preços do pão, sorria pros clientes. Mas por dentro, era só silêncio. Toda noite dormia com o celular antigo debaixo do travesseiro. Aquele que só ligaria se fosse ele.
07h11.
No esconderijo de um parceiro, R.P. limpava o corpo cheio de arranhões. Caio apareceu na porta. Sem farda. Sem arma. Só com um olhar que misturava pena e respeito.
— "Você tá na beira, R.P. Mais um passo e é vala."
— "Se eu cair, caio com história. Você não entende, Caio… ela é a única coisa que me tirou do inferno."
Caio respirou fundo.
— "Você quer viver por amor, eu entendo. Mas o sistema não ama ninguém, irmão. Ele te engole."
R.P. levantou, com a camisa rasgada e o olhar firme.
— "Então que me engula. Mas ela não."
Caio jogou uma chave sobre a mesa.
— "Última ajuda que te dou. Uma casa segura perto de Juiz de Fora. Depois disso… cada um por si."
Enquanto isso…
Na sala da PM no Rio, Coronel Álvaro via uma foto em preto e branco da filha, ainda criança. Ao lado, os novos relatórios da inteligência apontando deslocamento de R.P. rumo a Minas.
Ele passou a mão no rosto, exausto.
— "Se ela aparecer, tragam viva. Mas se ele reagir… atirem pra matar."
22h03.
Bruna estava sentada na varanda da casa. A luz fraca, o rádio ligado numa estação sertaneja. O telefone tocou.
Um número desconhecido.
Ela atendeu com o coração disparado.
— "Gabriela?" — perguntou uma voz masculina.
— "Quem tá falando?"
— "Se quiser ver ele de novo, prepare-se. Mas saiba… essa história tem preço. E alguém vai ter que pagar."
Tu-tu-tu…
Ela largou o telefone no chão. Os olhos cheios de medo. E de amor.
Porque agora… ela sabia:
R.P. estava vindo.
A liberdade deles tem um preço — e alguém vai pagar. Com sangue, com perda, com tudo. Agora é matar ou morrer, amar ou perder pra sempre.
02h11 – Rodovia BR-040, interior de Minas
O carro velho rugia contra o asfalto. R.P. dirigia com a mão firme no volante e a outra no coldre. Os olhos não piscavam. Cada placa, cada farol ao longe podia ser uma armadilha.
O contato que ligou pra Bruna era um dos últimos fiéis a ele — Paulinho Bala, ex-bonde do Vidigal, agora envolvido com logística no interior. Paulinho devia a vida a R.P. e, por isso, topou ajudar.
Mas o que R.P. não sabia… é que alguém tinha vendido a informação da localização de Bruna pra polícia.
04h37 – Casa de Bruna
Ela não dormiu.
Na mochila, já separada: documentos falsos, dinheiro vivo, um casaco e o colar da filha de Tonhão, que ela nunca mais tirou do pescoço.
Ao longe, ela ouviu o som do motor. Um carro subindo a estradinha de terra. Correu pra janela.
Era ele.
R.P. desceu do carro suado, ferido, cansado. Mas vivo.
Ela abriu a porta antes mesmo de pensar.
E correu pra ele.
O abraço foi de dois sobreviventes. Um que fugiu do inferno. A outra que segurou as pontas sozinha no purgatório.
— "Eu não sabia se você ia conseguir..."
— "Nem eu. Mas eu sabia onde tinha que chegar."
Beijaram-se ali, no meio da estrada, com cheiro de terra molhada e a morte espiando da curva.
Mas o amor… ainda respirava.
06h10 – Nas redondezas
Quatro viaturas descaracterizadas se aproximavam em silêncio. No comando: Delegado Esteves, da inteligência da PM do Rio, enviado pessoalmente por Coronel Álvaro.
— "Nada de tiros se a filha do Coronel estiver presente. Mas o alvo principal é o traficante. Se ele reagir..." — ele fez um sinal com a mão — "finaliza."
06h33 – Casa de Bruna
Paulinho Bala apareceu na porta da casa. Mas antes que pudesse bater, R.P. já tinha sacado a arma.
— "Você tá sozinho?"
— "Tô, irmão. Só vim avisar… tem viatura vindo por trás. Tão cercando a região."
Bruna se encheu de pânico.
— "A gente tem que sair AGORA!"
R.P. pensou rápido. Pegou a chave do carro, jogou pra ela.
— "Vai por trás da casa. Pega a estrada secundária. Eu vou segurar eles."
— "NÃO!" — ela gritou. — "Se você ficar, eles te matam!"
— "E se eu for com você, a gente morre junto. Me escuta, Bruna. Eu amo você. Por isso… eu fico."
Ela chorava, sem força. Mas sabia que ele tava certo.
O último beijo foi com gosto de urgência.
De tudo que nunca ia caber em palavras.
06h45
Bruna fugiu pela trilha. Paulinho deu cobertura. R.P. ficou na frente da casa, com a arma em punho, o rosto exposto.
As viaturas chegaram. Portas se abriram. Homens com fuzil cercaram o terreno.
— "RODRIGUINHO! VOCÊ TÁ CERCADO! JOGA A ARMA NO CHÃO!"
Ele não jogou.
Ergueu os braços.
— "Ela não tá aqui. Deixa ela fora disso."
Um dos soldados se aproximou.
R.P. olhou nos olhos dele.
— "Se for me prender… prende logo. Mas se for matar… mira na testa."
Um segundo de silêncio.
Um tiro disparado.
Mas não foi da polícia.
Paulinho Bala, lá de cima da trilha, atirou num dos pneus das viaturas, gerando caos.
R.P. aproveitou e correu.
Os tiros começaram.
Gritos. Correria.
Bruna ouviu tudo do alto da estrada. Chorava, escondida, impotente.
Não sabia se ele tinha escapado…
Ou caído.