O morro tá em silêncio, mas não é paz: é luto disfarçado, é espera. R.P. sumiu. Bruna sente no corpo que algo aconteceu. E quando a polícia acha um corpo… tudo muda.
07h22 – Alto da Estrada Rural
Bruna andava rápido, com o corpo tremendo e os olhos lavados de choro. Ao lado dela, Paulinho Bala olhava pra frente, atento, arma na cintura e passos firmes.
— "A gente precisa sumir por uns dias. Depois eu dou um jeito de tu cruzar pra São Paulo. Tenho um esquema lá."
Bruna parou.
— "E ele? Cadê ele?"
Paulinho olhou pro chão.
— "A gente não volta de onde escapa do inferno, Bruna. E ele… ficou."
Ela se ajoelhou no mato e gritou. Mas não era um grito comum. Era um grito de alma rasgada. Era dor demais pra caber no corpo.
Enquanto isso… no local do confronto
Policiais isolaram a área. Sangue no chão, cápsulas espalhadas, rastros de fuga. Entre os arbustos, um corpo.
Mas estava carbonizado. Irreconhecível.
Delegado Esteves analisava a cena.
— "Sem identidade confirmada, mas pelas roupas… pode ser ele. Mandem pro IML."
Um soldado se aproximou.
— "E a garota?"
— "Nada. Sumiu. Mas vamos achar. E quando achar… ela vai contar onde ele tá. Viva ou morta."
No Vidigal
A favela sentia. Mesmo sem confirmação, o rádio falava:
"R.P. caiu. O bonde agora é silêncio."
Os olheiros ficaram calados. As bocas deram um tempo. A coroa de Dona Zuleide, mãe de R.P., acendeu uma vela em frente à laje.
— "Se você ainda respira, meu filho… volta pra tua mãe. Mas se caiu… que os anjos te levem em paz."
03 dias depois – São Paulo, bairro da Liberdade
Bruna agora vivia num quartinho de pensão, sob o nome de Isabela Ramos. Trabalhava como garçonete num restaurante japonês, quieta, quase muda. Toda noite, ela abria o celular e olhava a única foto que tinha dele: sorrindo, suado, com a camisa do Flamengo.
Ela chorava, mas em silêncio.
Como quem perdeu algo que nunca foi permitido amar.
No IML – Rio de Janeiro
A perícia concluiu:
"O corpo carbonizado não é de Rodriguinho. Impressões não batem. DNA inconclusivo. Possivelmente um morador usado como isca."
Delegado Esteves soltou um palavrão.
— "Então o desgraçado tá vivo."
Última cena
Num hospital clandestino, em algum ponto entre Minas e Rio, um homem está deitado. Curativos por todo o corpo. Respirando com dificuldade.
Os olhos se abrem lentamente.
É ele.
R.P. está vivo.
Mas...
Por quanto tempo?
é pura tensão e coração apertado. R.P. voltou dos mortos — mas o mundo que ele deixou pra trás já não é mais o mesmo. E no silêncio dos becos, o nome dele ecoa como lenda. Ou maldição.
04h11 – Hospital improvisado, periferia de Belo Horizonte
O quarto cheira a álcool, sangue seco e sobrevivência.
R.P. acorda, tossindo, a mão presa em soro, o corpo costurado por cicatrizes e lembranças.
Do lado de fora, uma mulher vigia a porta. Morena, magra, olhos atentos. É Nanda, irmã de um antigo parceiro do tráfico que morreu por ele. Agora, é quem cuida da fuga.
Ela entra e olha firme.
— "Tu devia ter morrido. Mas já que tá aqui… ou levanta ou eles te acham."
R.P. tenta falar, mas a garganta queima.
— "Bruna... ela tá...?"
— "Fugiu. Tá em São Paulo, escondida. Paulinho levou. Mas o cerco tá fechando. E tua cabeça tá valendo mais que ouro."
Ele tenta se sentar, com esforço.
— "Se encostarem nela... eu mato todo mundo."
Nanda ri, sem humor.
— "Você ainda não entendeu? Você já morreu. Agora é só sombra."
Enquanto isso… em São Paulo
Bruna anda pelas ruas movimentadas da Liberdade com uma blusa larga, boné e fone de ouvido. Mas ela não ouve música. Só escuta os próprios pensamentos.
Cada esquina parece ameaça. Cada passo é fuga.
Na cabeça dela, ele morreu.
No coração… ele ainda respira.
No Vidigal – Zona Sul do Rio
O morro tá dividido. A ausência de R.P. deixou o trono vazio. E onde tem espaço, tem disputa.
Playboy, ex-parceiro de R.P., agora tenta assumir.
— "Quem manda agora sou eu. E quem disser que o R.P. ainda vive… morre junto com a ilusão."
Mas no beco, nas vielas, nos olhares calados…
O povo cochicha:
"Dizem que ele sobreviveu."
"Vi ele no sonho da minha mãe."
"Fantasma não morre."
Na sala do Coronel Álvaro
Um relatório cai sobre a mesa. A foto de R.P., saindo do hospital, feita por um informante infiltrado.
O coronel soca a mesa.
— "Se ele tiver vivo... ela vai correr de novo. E da próxima vez, nem a farda me segura."
No hospital, na madrugada
R.P. veste roupas velhas, corta o cabelo, raspa a barba. No espelho, um novo rosto. Mais frio. Mais pronto.
— "Levo tiro, levo queda… mas não levo esquecimento. Se acham que eu sou fantasma, então vou assombrar geral."
Nanda entrega um celular.
— "Só uma ligação."
R.P. digita o número de Bruna.
Chamando…
Chamando…
Ela atende.
— "Alô…?"
— "Fui eu quem morreu por você. Mas agora… eu vivo pra te buscar."
Silêncio.
Lágrimas.
— "Rodrigo?"
— "Tô voltando, minha preta. E ninguém vai me parar."
Tu-tu-tu…
Bruna desaba.
Ele voltou.
Mas a guerra também.
chega pesado, denso, cheio de fumaça, sangue e saudade. R.P. voltou — e o Vidigal nunca mais vai ser o mesmo. Mas tomar de volta o que foi dele… vai custar mais do que ele pode pagar. E Bruna? Tá cada vez mais no olho do furacão.
02h00 – Favela do Vidigal
O morro tava quieto demais. Nem rádio tocava. Nem foguete subia.
Desde que Playboy assumiu, o clima era de tensão. As regras mudaram, o medo cresceu. O povo sussurrava:
"R.P. fazia melhor."
"Com ele, o bagulho era ordem. Agora é só violência."
Mas ninguém ousava dizer isso alto.
Playboy era imprevisível. E c***l.
Na laje central do morro, ele reunia o bonde novo.
— "Qualquer notícia do R.P., qualquer zé povinho falando que ele respira… quero morto. Aqui só tem um comando agora. E é o meu."
Enquanto isso…
Na estrada de volta pro Rio, R.P. dirigia um carro com placa fria e olhar fixo na cidade à distância.
No banco do carona, Nanda.
— "Você vai entrar no morro com dois pés e sem reforço? Tá maluco, R.P."
— "Não preciso de bonde. Preciso de verdade. O morro me conhece. O povo me deve respeito. E Playboy… esse vai cair no meu olho."
Nanda sorriu de canto.
— "Tu não é homem. Tu é fúria com sangue."
04h12 – Entrada do Vidigal
Um olheiro cochila. Acorda com o som do carro freando.
Quando vê quem desce…
Derruba o rádio no chão.
— "c*****o… é ele. É o R.P."
R.P. sobe as escadas devagar. De capuz, barba rala, cicatriz visível no pescoço.
A favela acorda como se o morro respirasse de novo.
Janelas se abrem. Mulheres choram. Crianças saem pra ver.
— "O rei voltou."
Na laje de Playboy
O rádio chia:
— "O R.P. tá aqui."
Playboy empalidece. Saca o fuzil.
— "Se for ele mesmo… quero frente a frente. Aqui não tem espaço pra dois reis."
05h10 – No alto da favela
O confronto tá armado. Os dois cercados por olheiros, parceiros, moradores espiando por trás das cortinas.
Playboy aponta o fuzil.
— "Tu devia ter morrido, Rodrigo. Mas como é teimoso, vai morrer agora."
R.P. caminha até o meio da laje. Sem arma. Só o olhar.
— "Quem manda aqui não é a bala. É o respeito. E tu nunca teve isso."
Um dos soldados de Playboy baixa a arma.
Depois outro.
Depois outro.
Até que ele se vê sozinho.
R.P. para na frente dele.
— "Pode puxar, Playboy. Mas se errar… nunca mais vai ter chance."
O silêncio pesa.
Playboy mira…
Mas hesita.
R.P. crava o olhar nos olhos dele.
— "Cai fora. Enquanto ainda respira."
Playboy larga a arma.
Corre.
O morro vibra.
Fogos sobem. Crianças gritam. A favela treme.
"O R.P. voltou, p***a!"
Na laje, ele ergue os braços. Mas os olhos… procuram ela.
Bruna.
No celular dela, uma notificação:
Mensagem de “Amor da Guerra”
“Tô no topo. E agora só falta você.”