O silêncio

1375 Words
O morro tá em silêncio, mas não é paz: é luto disfarçado, é espera. R.P. sumiu. Bruna sente no corpo que algo aconteceu. E quando a polícia acha um corpo… tudo muda. 07h22 – Alto da Estrada Rural Bruna andava rápido, com o corpo tremendo e os olhos lavados de choro. Ao lado dela, Paulinho Bala olhava pra frente, atento, arma na cintura e passos firmes. — "A gente precisa sumir por uns dias. Depois eu dou um jeito de tu cruzar pra São Paulo. Tenho um esquema lá." Bruna parou. — "E ele? Cadê ele?" Paulinho olhou pro chão. — "A gente não volta de onde escapa do inferno, Bruna. E ele… ficou." Ela se ajoelhou no mato e gritou. Mas não era um grito comum. Era um grito de alma rasgada. Era dor demais pra caber no corpo. Enquanto isso… no local do confronto Policiais isolaram a área. Sangue no chão, cápsulas espalhadas, rastros de fuga. Entre os arbustos, um corpo. Mas estava carbonizado. Irreconhecível. Delegado Esteves analisava a cena. — "Sem identidade confirmada, mas pelas roupas… pode ser ele. Mandem pro IML." Um soldado se aproximou. — "E a garota?" — "Nada. Sumiu. Mas vamos achar. E quando achar… ela vai contar onde ele tá. Viva ou morta." No Vidigal A favela sentia. Mesmo sem confirmação, o rádio falava: "R.P. caiu. O bonde agora é silêncio." Os olheiros ficaram calados. As bocas deram um tempo. A coroa de Dona Zuleide, mãe de R.P., acendeu uma vela em frente à laje. — "Se você ainda respira, meu filho… volta pra tua mãe. Mas se caiu… que os anjos te levem em paz." 03 dias depois – São Paulo, bairro da Liberdade Bruna agora vivia num quartinho de pensão, sob o nome de Isabela Ramos. Trabalhava como garçonete num restaurante japonês, quieta, quase muda. Toda noite, ela abria o celular e olhava a única foto que tinha dele: sorrindo, suado, com a camisa do Flamengo. Ela chorava, mas em silêncio. Como quem perdeu algo que nunca foi permitido amar. No IML – Rio de Janeiro A perícia concluiu: "O corpo carbonizado não é de Rodriguinho. Impressões não batem. DNA inconclusivo. Possivelmente um morador usado como isca." Delegado Esteves soltou um palavrão. — "Então o desgraçado tá vivo." Última cena Num hospital clandestino, em algum ponto entre Minas e Rio, um homem está deitado. Curativos por todo o corpo. Respirando com dificuldade. Os olhos se abrem lentamente. É ele. R.P. está vivo. Mas... Por quanto tempo? é pura tensão e coração apertado. R.P. voltou dos mortos — mas o mundo que ele deixou pra trás já não é mais o mesmo. E no silêncio dos becos, o nome dele ecoa como lenda. Ou maldição. 04h11 – Hospital improvisado, periferia de Belo Horizonte O quarto cheira a álcool, sangue seco e sobrevivência. R.P. acorda, tossindo, a mão presa em soro, o corpo costurado por cicatrizes e lembranças. Do lado de fora, uma mulher vigia a porta. Morena, magra, olhos atentos. É Nanda, irmã de um antigo parceiro do tráfico que morreu por ele. Agora, é quem cuida da fuga. Ela entra e olha firme. — "Tu devia ter morrido. Mas já que tá aqui… ou levanta ou eles te acham." R.P. tenta falar, mas a garganta queima. — "Bruna... ela tá...?" — "Fugiu. Tá em São Paulo, escondida. Paulinho levou. Mas o cerco tá fechando. E tua cabeça tá valendo mais que ouro." Ele tenta se sentar, com esforço. — "Se encostarem nela... eu mato todo mundo." Nanda ri, sem humor. — "Você ainda não entendeu? Você já morreu. Agora é só sombra." Enquanto isso… em São Paulo Bruna anda pelas ruas movimentadas da Liberdade com uma blusa larga, boné e fone de ouvido. Mas ela não ouve música. Só escuta os próprios pensamentos. Cada esquina parece ameaça. Cada passo é fuga. Na cabeça dela, ele morreu. No coração… ele ainda respira. No Vidigal – Zona Sul do Rio O morro tá dividido. A ausência de R.P. deixou o trono vazio. E onde tem espaço, tem disputa. Playboy, ex-parceiro de R.P., agora tenta assumir. — "Quem manda agora sou eu. E quem disser que o R.P. ainda vive… morre junto com a ilusão." Mas no beco, nas vielas, nos olhares calados… O povo cochicha: "Dizem que ele sobreviveu." "Vi ele no sonho da minha mãe." "Fantasma não morre." Na sala do Coronel Álvaro Um relatório cai sobre a mesa. A foto de R.P., saindo do hospital, feita por um informante infiltrado. O coronel soca a mesa. — "Se ele tiver vivo... ela vai correr de novo. E da próxima vez, nem a farda me segura." No hospital, na madrugada R.P. veste roupas velhas, corta o cabelo, raspa a barba. No espelho, um novo rosto. Mais frio. Mais pronto. — "Levo tiro, levo queda… mas não levo esquecimento. Se acham que eu sou fantasma, então vou assombrar geral." Nanda entrega um celular. — "Só uma ligação." R.P. digita o número de Bruna. Chamando… Chamando… Ela atende. — "Alô…?" — "Fui eu quem morreu por você. Mas agora… eu vivo pra te buscar." Silêncio. Lágrimas. — "Rodrigo?" — "Tô voltando, minha preta. E ninguém vai me parar." Tu-tu-tu… Bruna desaba. Ele voltou. Mas a guerra também. chega pesado, denso, cheio de fumaça, sangue e saudade. R.P. voltou — e o Vidigal nunca mais vai ser o mesmo. Mas tomar de volta o que foi dele… vai custar mais do que ele pode pagar. E Bruna? Tá cada vez mais no olho do furacão. 02h00 – Favela do Vidigal O morro tava quieto demais. Nem rádio tocava. Nem foguete subia. Desde que Playboy assumiu, o clima era de tensão. As regras mudaram, o medo cresceu. O povo sussurrava: "R.P. fazia melhor." "Com ele, o bagulho era ordem. Agora é só violência." Mas ninguém ousava dizer isso alto. Playboy era imprevisível. E c***l. Na laje central do morro, ele reunia o bonde novo. — "Qualquer notícia do R.P., qualquer zé povinho falando que ele respira… quero morto. Aqui só tem um comando agora. E é o meu." Enquanto isso… Na estrada de volta pro Rio, R.P. dirigia um carro com placa fria e olhar fixo na cidade à distância. No banco do carona, Nanda. — "Você vai entrar no morro com dois pés e sem reforço? Tá maluco, R.P." — "Não preciso de bonde. Preciso de verdade. O morro me conhece. O povo me deve respeito. E Playboy… esse vai cair no meu olho." Nanda sorriu de canto. — "Tu não é homem. Tu é fúria com sangue." 04h12 – Entrada do Vidigal Um olheiro cochila. Acorda com o som do carro freando. Quando vê quem desce… Derruba o rádio no chão. — "c*****o… é ele. É o R.P." R.P. sobe as escadas devagar. De capuz, barba rala, cicatriz visível no pescoço. A favela acorda como se o morro respirasse de novo. Janelas se abrem. Mulheres choram. Crianças saem pra ver. — "O rei voltou." Na laje de Playboy O rádio chia: — "O R.P. tá aqui." Playboy empalidece. Saca o fuzil. — "Se for ele mesmo… quero frente a frente. Aqui não tem espaço pra dois reis." 05h10 – No alto da favela O confronto tá armado. Os dois cercados por olheiros, parceiros, moradores espiando por trás das cortinas. Playboy aponta o fuzil. — "Tu devia ter morrido, Rodrigo. Mas como é teimoso, vai morrer agora." R.P. caminha até o meio da laje. Sem arma. Só o olhar. — "Quem manda aqui não é a bala. É o respeito. E tu nunca teve isso." Um dos soldados de Playboy baixa a arma. Depois outro. Depois outro. Até que ele se vê sozinho. R.P. para na frente dele. — "Pode puxar, Playboy. Mas se errar… nunca mais vai ter chance." O silêncio pesa. Playboy mira… Mas hesita. R.P. crava o olhar nos olhos dele. — "Cai fora. Enquanto ainda respira." Playboy larga a arma. Corre. O morro vibra. Fogos sobem. Crianças gritam. A favela treme. "O R.P. voltou, p***a!" Na laje, ele ergue os braços. Mas os olhos… procuram ela. Bruna. No celular dela, uma notificação: Mensagem de “Amor da Guerra”  “Tô no topo. E agora só falta você.”
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