Ao amor. Ao caos. Porque quando o coração chama, nem o medo, nem o pai dela, nem a polícia... conseguem segurar.
08h17 – São Paulo, pensão da Liberdade
Bruna olhava a mensagem no celular há mais de uma hora.
“Tô no topo. E agora só falta você.”
Assinada com o nome que só os dois entendiam: Amor da Guerra.
O peito dela batia descompassado. O sangue nas veias era adrenalina.
Ela fechou a mala pequena.
Um jeans, duas camisetas, um perfume que ele amava.
E a coragem.
Na rodoviária, bilhete só de ida pro Rio.
Enquanto o ônibus cruzava a Dutra, ela olhava pela janela.
Sabia que ao pisar de volta no Vidigal, não teria mais volta.
Era como entrar no inferno… mas com vontade de queimar junto.
No quartel da PMERJ – Sala do Coronel Álvaro
— "Localizamos ela. Comprou passagem hoje cedo. Tá voltando pro Rio."
O coronel respirou fundo. Engoliu o orgulho e a dor.
— "Coloquem viatura discreta na rodoviária. Mas nada de abordagem. Eu quero saber onde ela vai. E quem vai receber."
— "E se ela subir o morro, senhor?"
— "Então prepara a tropa. Porque se ela subir… a guerra desce."
16h45 – Entrada do Vidigal
Bruna desce do Uber. Reconhece o cheiro, a poeira, os olhares.
Um menino se aproxima.
— "Cê é a Bruna, né? O chefe mandou buscar."
Ela engole seco e segue. Cada passo é lembrança. Cada viela, um eco da história deles.
Fogos pipocam no céu.
R.P. tá esperando na laje central.
Quando ela chega… ele já a espera de braços cruzados, olhar firme, coração disparado.
Ela para na frente dele.
Silêncio.
E então…
— "Você não morreu."
— "Por você, nem a morte me segura."
Eles se abraçam. Forte. De alma. De carne.
Beijo quente. Pesado.
Desespero e alívio misturados.
Mas o rádio dos olheiros chia:
"Viatura civil no pé do morro. Parece que é ele... o coronel tá chegando."
R.P. se afasta, olha nos olhos dela.
— "Teu pai vem aí."
— "Ele vai tentar me levar."
— "Vai ter que me matar primeiro."
Ela segura a mão dele.
— "Então morre comigo, mas não me deixa."
O rádio continua:
"Helicóptero da polícia sobrevoando a área. Tropa se movimentando. Vai dar merda!"
Última cena:
No alto da laje, R.P. segura a mão de Bruna.
No céu, o barulho do helicóptero.
No chão, o Vidigal fervendo.
A guerra começou.
E o amor deles tá bem no meio do fogo cruzado.
A invasão começa. O céu rasga com helicóptero, o chão treme com tropa, e o amor de Bruna e R.P. entra na linha de tiro. É bala, é fuga, é escolha de vida ou morte.
18h03 – Vidigal, Zona Sul do Rio
O céu escurece antes do sol sumir.
Não é nuvem, é helicóptero.
Não é trovão, é rajada de fuzil.
Operação “Corredeira Noturna”.
Comando direto do Coronel Álvaro, chefe da PMERJ.
E pai da Bruna.
— "Alvo prioritário: Rodriguinho, o R.P. — chefe do tráfico do Vidigal. Autorizo ação letal se houver resistência."
No alto do morro, a comunidade corre.
Fogos avisam.
Olheiros gritam.
"É operação! A caveira tá subindo!"
R.P. segura Bruna pela mão e corre por vielas estreitas.
— "Se a gente se separar, tu corre pra laje da Dona Iraci. Lá tem túnel pros fundos. Tu vai sair viva."
— "Eu não vou sair sem você!"
— "Se ficar, tu morre."
— "Se eu morrer, morro te amando."
Tiro estoura perto.
Ela grita. Ele a puxa.
Pulam um muro. Caem num quintal.
Na laje de observação, o Coronel usa binóculo.
— "Alvo visualizado. Tá com ela. Filho da p**a tá com minha filha!"
— "Ordem, senhor?"
— "Cerca. Mas eu desço pra pegar com minha mão."
Enquanto isso…
Os soldados do morro se dividem.
Paulinho Bala lidera um grupo pra tentar segurar a entrada da favela.
— "Eles querem o R.P., mas pra chegar nele vão ter que pisar em mim primeiro!"
Fogo cruza o céu.
Moradores gritam. Criança chora.
A favela vira inferno.
Bruna e R.P. conseguem chegar à casa da Dona Iraci.
— "Vai, Bruna!" — ele grita, empurrando ela pra entrada do túnel.
— "Vem comigo!"
— "Não dá! Se eu for contigo, eles pegam nós dois! Eu te encontro do outro lado, juro por Deus!"
Ela chora. Beija ele como se fosse a última vez.
— "Se tu morrer... eu morro também."
Ele sorri, suado, olhos marejados.
— "Quem nasce no fogo… aprende a amar em brasa."
Ela desaparece no túnel.
Ele volta pro campo de batalha.
20h41 – Rádio da polícia informa:
"Contato perdido com unidade Alfa. Tiroteio intenso. Vários feridos."
No rádio dos traficantes:
"O chefe tá resistindo. Tá em combate. Sozinho."
Última cena:
Bruna, do outro lado do túnel, sai no mato, suja, chorando.
Ela escuta o eco dos tiros lá longe.
E reza.
Mas não por paz.
Por ele.
Porque onde o amor nasceu… o sangue agora molha o chão.
O morro sangra, o coração de Bruna grita, e o nome de R.P. corre na boca do povo como se fosse lenda… ou despedida. Mas em tempos de guerra, nem tudo que parece, é. E às vezes, o grito mais forte… é o do silêncio.
03h27 – Favela do Vidigal
A noite não dormiu.
Os tiros ainda ecoam. O cheiro de pólvora mistura com o de sangue fresco.
Corpos no chão. Gritos. Sirenes. Silêncio.
O rádio da PM chia.
— “Confirmado. Um dos baleados é o R.P.”
— “Confirma a morte?”
— “Ainda não. Mas tá sangrando muito. Foi arrastado por dois comparsas. Pode não resistir.”
No esconderijo de Paulinho Bala
Ele chega ofegante, carregando o corpo de R.P. nos ombros, ajudado por Nanda.
O sangue escorre pela escada.
Bruna ainda não sabe.
Na zona oeste, casa de apoio
Bruna morde as unhas, sentada na beirada do sofá.
Televisão ligada no noticiário.
“Violenta operação policial deixa ao menos nove mortos no Vidigal. Entre os feridos, suspeita-se que esteja Rodriguinho, conhecido como R.P., líder do tráfico local.”
Ela derruba o copo de água no chão.
— “Não… não… não!”
Pega o celular. Liga pra Nanda. Chamada não completada.
Mensagem não entrega.
O peito dela pesa como se tivesse levado o tiro também.
No quartel da PMERJ
Coronel Álvaro assiste o vídeo do helicóptero. Zoom no rosto de R.P., sendo levado ensanguentado.
Ele fecha os olhos.
— "Se tiver morrido, é menos um problema. Mas se tiver vivo... é só o começo."
Enquanto isso… no esconderijo
R.P. geme, inconsciente. Tiro na costela, outro de raspão no braço.
Paulinho pressiona o ferimento.
— "Acorda, irmão. Tu não vai cair agora, não. A favela é tua. Bruna é tua. A guerra ainda não acabou."
20h15 – No dia seguinte
As redes sociais explodem.
"R.P. tá morto?"
"Confirmado: enterraram ele hoje sem corpo."
"Ele sumiu. Só pode tá morto."
Bruna desce do carro. Cabelo preso, moletom preto, óculos escuros.
Ela vai até uma amiga da quebrada, uma antiga moradora do Vidigal.
— "Ele morreu?"
A menina olha pra ela, com pena.
— "Ninguém sabe. Dizem que morreu. Dizem que fugiu. Dizem que tá em Cuba."
Bruna aperta os olhos. As lágrimas não caem, mas queimam por dentro.
— "Se ele tiver vivo... ele vai me procurar. Se tiver morto… eu vou saber no coração."
Última cena:
Numa casa simples, no alto da serra, longe de tudo…
R.P. abre os olhos.
Fracos, mas vivos.
Sussurra, quase sem voz:
— "Bruna..."
Bruna começa a sentir a presença dele antes mesmo de ter certeza. Um amor como o deles não se cala fácil. Quando o coração fala mais alto que o mundo, até o silêncio tem voz.
08h10 – Zona Oeste, casa de apoio
Bruna tá na cozinha, mexendo o café com as mãos trêmulas. Desde ontem, ela não come direito, não dorme direito… só pensa.
“Se ele morreu, por que dói diferente? Por que parece que ele ainda tá aqui?”
Na porta da casa, alguém toca a campainha.
Ela se assusta. Olha pelo olho mágico:
Um motoboy, capacete espelhado, jaqueta preta.
Ela abre com cautela.
— "Bruna, né?"
— "Sou eu."
Ele entrega um envelope e um celular lacrado.
— "Mandaram entregar. Só isso. Fica com Deus."
Ela fecha a porta com o coração disparado.
Abre o envelope:
"Confie na dor. É ela que mostra que o amor ainda vive."
Assinado: Aquele que queimou contigo.
O celular vibra ao ligar. Uma única foto:
É ela, de costas, na praia de Ipanema. Recentemente.
Alguém tirou a foto escondido.
Do ângulo… só podia ser ele.
Ela cobre a boca com a mão, em choque.
— "Ele tá vivo..."
No esconderijo na serra
R.P. assiste vídeos dela salvos no celular.
Bruna rindo, dormindo, fazendo careta.
Nanda entra com uma mochila.
— "A gente tem 72 horas até descobrirem esse lugar. Depois, temos que sumir de novo."
Ele só responde:
— "Preciso ver ela. Nem que seja de longe. Nem que seja a última vez."
Enquanto isso, no quartel…
Coronel Álvaro recebe uma ligação anônima.
— "R.P. não morreu. Tão escondendo ele. E tão armando fuga pro exterior. Adivinha quem tá ajudando?"
— "Quem?"
— "A sua filha."
O coronel joga o celular na parede.
— "Ela vai afundar junto com esse desgraçado."
Última cena:
Bruna digita no celular novo. Sem saber se a mensagem vai chegar.
“Se você ainda respira… me encontra. Só uma vez. Eu preciso te ver. Nem que seja pra me despedir.”
Ela envia.
E o silêncio… começa a falar alto de novo.