Noah
Não sei porque Verônica tinha que ter colocado caviar para servir na inauguração de um restaurante ao invés de uma comida mais simples. Eu sei que estávamos inaugurando um restaurante, que parte da alta sociedade capixaba estava lá. Mas custava pelo menos organizar o coquetel que tivesse mais haver com o dono, por mais que eu tivesse me tornado esse homem de negócios, jamais deixaria de ser aquele velho Noah, que veio de família humilde.
- Irmão, o restaurante ficou incrível! — exclamou Ana entusiasmada logo após se aproximar de mim.
- Sim... Ele realmente ficou muito bom do jeitinho que eu planejei. Falei para o Fred, o nosso arquiteto, e ele mandou a planta para o Christóvão. Na verdade, foi ele que ficou de frente na inauguração desse restaurante, já que eu tive que fazer aquela viagem para o México.
- É como foi lá na viagem? — Aninha perguntou sirvendo um pouco do seu drink que era de Blueberry
- Eu adorei passar uma temporada lá, foi muito bom ter conhecido um pouco da cultura mexicana, principalmente a comida que é uma infinidade de temperos dos quais eu amei.
- Mas a maioria das comidas de lá não são apimentadas? –– Perguntou fazendo uma leve careta.
- Sim, mas vale a pena experimentar, a Verônica que não é muito fã de pimenta adorou.
- Claro, ela é pior que uma. Aliás até hoje eu não consigo entender a burrada que você fez em ter se casado com ela. –– Ana revirou os olhos.
- Eu sei que a Verônica é uma pessoa difícil na maioria das vezes, mas no fundo ela é legal.
- Legal? Aquela mulher é intragável! Você tinha que ver o jeito que ela ficou me encarando, irmão, m*l falou comigo, e ainda por cima me encarou com cara de nojo, juro que eu só aturo essa mulher por sua causa, porque se não fosse isso eu nem pisaria no mesmo ambiente que ela.
No fundo eu entendia a bronca que a minha família tinha da Verônica, devido a uma vez eu tê-la levado no sítio dos meus pais para que eles pudessem conhecê-la. Mas na época Verônica falou coisas horrorosas para a minha família na hora em que estávamos almoçando, coisas das quais falava sobre a nossa antiga situação financeira e que se não fossem pelos seus pais, nós não teríamos nada do que temos hoje, e continuaríamos na miséria. Dito isso minha família tomou uma bronca enorme dela, principalmente Ana, que quase voou em seu pescoço, mas eu a impedi de que fizesse aquilo. Depois daquele almoço que a minha família fez para que todos pudessem conhecê-la, eles pararam de falar comigo quando soube que eu iria subir ao altar com ela.
- Amiga, foi você que fez o checklist? Ficou maravilhoso! –– Escutei Muriel, a amiga de Verônica, que era sua sócia em um escritório de advocacia falando com a própria assim que se aproximou de nós.
- Oi, meu lindinho! A Muri estava aqui comentando comigo, que eu mais uma vez arrasei no checklist, além de eu ser a melhor advogada, eu também sou uma maravilhosa organizadora de eventos. Você não acha? –– Se gabou enquanto pendurava no meu pescoço.
- Sim, ficou perfeito! –– Sorri com os lábios fechados, e em seguida lhe dei um selinho.
- Vê, eu vou dar mais uma volta por aí, ok? Depois nós conversamos mais. Tchau amiga! –– As duas se despediram com um beijo no rosto.
- Tchau Muri! Aproveita para dar mais uma olhada e babar no restaurante do meu maridinho. - Apertou minha bochecha de um jeito que eu odiava.
- Pode deixar amiga, ah, é parabéns pela inauguração! - Finalmente a sua amiga resolveu me cumprimentar.
- Obrigado! - Agradeci.
E em seguida olhei de relance para Ana, que estava com os braços cruzados na altura do peito, mostrando uma certa insatisfação ao estar ali.
- Ei! - Verônica chamou ela que estava olhando para o outro lado do restaurante.
- Irmão, eu vou lá falar com os nossos pais. - Ignorou a Verônica totalmente, e após me dar um beijo no rosto, virou as costas e saiu.
- Ô fofinha, você não escutou eu te chamar? - Ana virou de imediato, e a encarou com a cara fechada.
- Não! - Respondeu em um tom totalmente seco.
- Está vendo, Noah, como a sua irmãzinha me trata?
Respirei fundo soltando o ar pela boca, na tentativa de acalmar os meus nervos, pois já estava nervoso com o restaurante, agora vem a Verônica querendo brigar com a Ana, que também não era fácil.
- Vai começar, Verônica? - Apertei de leve o seu braço. - Pare por favor e me dê uma folga pelo menos hoje, que é a inauguração do meu restaurante.
–– Vai na cozinha e pede ao Pietro para servir os canapés. –– Ordenou a Ana, como se ela fosse uma de suas funcionárias, m*l dando ideia a mim.
- Não! - Ana foi curta e grossa. - Vai você porque eu não sou sua empregada. - Respondeu a ela com rispidez, e depois virou as costas caminhando até o outro lado do salão, onde estava os nossos pais.
Poderia até ter interferido no meio da discussão, mas eu resolvi ficar quieto, pois no fundo a minha irmã estava coberta de razão, já que a Verônica mais uma vez tinha passado de todos os limites.
- Viu o que ela fez comigo, Noah? A forma como me tratou.... Depois eu é que sou a bruxa da história. - Fez de vítima.
- Mas também viu o que você fez? Pelo amor de Deus, Verônica! Muda porque senão o nosso casamento vai acabar. - A adverti. - A sua expressão mudou de neutra para seria em questão de segundos.
- Você não está falando sério, né?
- Estou. E outra, a Ana não é funcionária sua para você ficar exigindo que ela te faça algo, e mesmo que fosse, jamais deveria tratá-la assim. Eu achei que o seu pai tivesse te ensinado algo, mas pelo visto não. - Encarei ela mais uma vez antes de me afastar.
- Noah, volte aqui agora! - Ordenou. - A nossa conversa ainda não terminou. - Ela foi me seguido pelo salão.
- Verônica, pare com isso, pelo amor de Deus! - Segurei em seu braço assim que ela se aproximou e a arrastei até um canto mais isolado.
- Me solta! - Tentou se desvencilhar dos meus braços. - Só quero que você saiba de uma só coisa, se não fosse pelos meus pais, você não teria inaugurado esse restaurante, aliás se não fosse por eles, você não seria o que é hoje.
Aquilo dela jogar as coisas na minha cara outra vez tinha sido o fim da picada.
— Você tem razão, Verônica, eu realmente não chegaria aqui onde eu estou se não fosse pelos seus pais, e é por isso que eu sou eternamente grato aos dois. - Respondi a ela totalmente na classe, já que eu não estava nem um pouco afim de entrar em uma discussão. - Agora se me der licença eu tenho mais o que fazer. E outra, não vem atrás de mim, por favor. - Virei as costas a deixando no corredor que dava acesso a despensa.
- E ai filhão, onde você estava? - O meu pai perguntou logo assim que eu acabei de me aproximar deles.
- Oi pai, benção? - Lhe dei um aperto de mãos e em seguida fiz o mesmo com a mãe.
- Deus te abençoe, meu meninão. - A mãe me abraçou dando uma leve batidinha nas minhas costas e depois se afastou.
- E aí mano, beleza? - Luan também me abraçou e em seguida se afastou.
- Filho, eu só não fui falar com você por causa da sua mulher. Mas é aí como estão as coisas? - Papai bateu de leve no meu ombro.
- Indo, sabe pai? - Fiz uma leve careta.
- Dá pra ver que você não está feliz nesse casamento.
- Infelizmente, pai. A cada dia que passa, está sendo muito difícil viver ao lado da Verônica, ao invés dela melhorar só piora com ela jogando o meu passado na minha cara, e fora as suas crises de ciúmes incontroláveis aonde eu não posso conversar com nenhuma mulher que seja o mínimo atraente que a própria acha que eu estou traindo, fora a sua arrogância a petulância, e esse seu vitimismo que eu odeio. Sinceramente pai, se as coisas continuarem desse jeito, eu vou me divorciar dela.
- Já passou da hora filho de você fazer isso, essa mulher é muito complicada, pra não dizer chave de cadeia.
Todos que estavam ali presentes começaram a rir, inclusive Bela, que deu uma de suas gargalhadas escandalosas.
- Fala aí, minha caçulinha. - Abracei ela de lado, e ela encostou a cabeça no meu ombro e em seguida me encarou. - O pai tem razão Noah, essa mulher é muito chata, você merece coisa melhor do que ela, uma mulher simpática, agradável, que goste da sua família.
- É mano, a mulher pode ser incrívelmente bonita com todo respeito, mas é o maior pé no saco, e se você se separar dela, mulher é que não irá lhe faltar. - Disse Luan.
- Ainda mais bonito, inteligente e educado como você. - Gabi completou me enchendo de elogios.
- Pra Gabi estar me enchendo de elogios, com certeza quer alguma coisa. Fala Gabi, o que você quer?
- Não quero nada, irmão, é sério, eu só estou falando a verdade. - Também abracei ela de lado, e fiquei no meio das minhas duas caçulinhas. E em seguida nos afastamos depois de eu ter dado um beijo no rosto de cada uma.
- Eu também concordo com vocês. - Depois de muito tempo calada, Ana resolveu pronunciar. - Essa mulher é muito nojenta, vocês tinham que ver gente como ela me tratou. Noah, fala pra mãe.
- É, realmente a Verônica ultrapassou de todos os limites, mas eu já chamei a sua atenção.
- Viu filho, agora você tem mais um motivo para se separar dela, ela destratou a Ana na sua frente, é com essa mulher que você quer ficar casado até o fim de sua vida? Pensa bem e reflita.
- Já estou pensando, e também a um passo para tomar uma decisão em relação a esse casamento.
- Só espero que seja a separação. - Ana acabou soltando de forma espontânea.
- Olá Sr Victor, boa tarde! Seja bem vindo a inauguração do nosso restaurante. - Christóvão se aproximou e cumprimentou o pai na maior educação e também cordialidade, isso era típico do meu amigo - sócio.
Christóvão foi o único dos meus amigos que me apoiou em abrir um restaurante e também expandir, e se não fosse por ele e também seu Antônio que me ajudou bastante no início, eu não teria conseguido.
- Olá rapaz, eu é que agradeço pelo convite e também pela hospedagem naquele hotel maravilhoso. Fala pra ele mulher, o quanto nós estamos aproveitando. - O pai cutucou a mãe que apenas concordou.
- Dona Alexandra, para mim é um prazer em ter os pais do Noah na inauguração de mais um restaurante nosso, e se der tudo certo nós iremos expandir para outros lugares. O Noah e eu andamos conversando sobre esse assunto, que se o restaurante aqui de Meaípe bombar, nós vamos abrir um no estado do Rio de Janeiro, provavelmente em uma cidade que tem no norte, Campos dos Goytacazes, epor ser a maior cidade do estado do Rio, eu tenho certeza que também vamos bombar lá.
-Vai, sim, se Deus quiser. - Mamãe o encorajou com a sua positividade. Positividade da qual eu tinha herdado dela.
- Sim, vai. - Desviei o olhar deles, e olhei para Silvina, uma cliente e amiguissima nossa que se aproximou de nós.
- Olá, boa tarde, Noah! Seu restaurante está um espetáculo, tenho certeza que vai ter bastante clientes.
- Assim esperamos, Silvina. - Eu disse logo após cumprimentá-la com um beijo e um abraço, e depois apresentei para ela, cada m****o da minha família.
- Família bonita. Parabéns! Agora eu sei de onde você herdou tanta beleza.
Silvina é a mesma moça que me ajudou no ônibus há alguns anos atrás, depois de quase um ano ajudando o seu Antônio no restaurante e também fazendo faculdade de administração, ela apareceu para almoçar lá com o seu namorado da época.
- Obrigada pelo elogio, Silvina, mas de todos eu sou o mais bonito, pode falar. - Me gabei e todos riram.
- Como esse cara aqui é convencido. - Luan entrou no meio da conversa. - Silvina eu sou o mais gato da família, só que infelizmente o meu maninho aqui não quer aceitar.
- Gostei da Silvina, irmão, ela dá de um milhão a zero naquela magricela horrorosa e antipática da sua esposa. - Ana não se limitou a dizer, só que infelizmente a Verônica tinha acabado de se aproximar e escutou tudo.
- O que você disse, garota? - Sussurrou baixo próximo ao ouvido de Ana.
- Que a Silvina dá de mil a zero em você, sua cobra.
De relance observei ela apertar o braço da minha irmã, enquanto lhe encarava com uma certa raiva.
- Você vai ver a cobra quando eu te colocar pra fora daqui. Agora sai da minha frente, garota! - Ordenou com um tom autoritário.
- Olá, querida! Tudo bem com você? Eu sou esposa do Noah, que por sinal é o meu marido.
Ela apoiou os braços no meu ombro, dando um dos seus típicos sorrisos falsos enquanto eu encarei a todos com uma certa vergonha pelo seu ciúme excessivo.
- Então Silvina como você já sabe, essa é Verônica, a minha esposa. - Sorri com os lábios fechados.
- Ah, eu nem sabia que você era casado, mas que bom que encontrou alguém, fico feliz por você.
- É querida, ele é casado, e muito bem casado comigo, e nós dois nos amamos muito, fomos feitos um pro outro. Fala pra ela, amor.
Mais uma vez Verônica me fez passar por outra situação embaraçosa, já que isso era típico dela, que fazia aquilo constantemente. O último coquetel que fomos em um restaurante no México que o diga, pois uma moça muito simpática e agradável veio me perguntar as horas, mas infelizmente Verônica fez um escândalo alegando que ela estava dando em cima de mim.
- Ela sabe disso, Verônica, agora pare por favor. Será que ao menos você pode respeitar a minha família?
- E eu estou fazendo alguma coisa para desrespeitá- los? Ao contrário, eles que estão sendo coniventes com essa situação. - Apontou descaradamente para Silvina, e esse foi o motivo para eu querer abrir um buraco no chão e enfiar a minha cara.
- Chega Verônica! Vou te levar embora daqui, e depois eu volto pra cá porque assim não dá. - Perdi completamente a paciência.
- Como assim me deixar em casa e voltar Noah? Então quer dizer que realmente você está de caso com essa v*******a? - Agora ela tinha ido longe demais.
- Silvina, mil desculpas, e a vocês também, família. - Depois de direcionar o meu olhar totalmente vergonhoso a eles, eu olhei novamente a causa e o motivo de tudo isso. - Vamos embora agora porque eu vou te levar em casa. - Segurei o seu braço arrastando até a saída.
- Para com isso, eu não vou embora daqui, e muito menos deixar você sozinho com aquela v*******a.
- p***a, Verônica! Eu já disse que eu não estou tendo caso com ela, e nem outra mulher. Nós somos apenas bons amigos. - Me alterei.
- O problema não é você, meu amor, e sim elas. Eu sei que você me ama, e que jamais iria me trair, mas essas vadias oferecidas se jogam pra cima de você.
- Você é doente, Verônica! Precisa se tratar, sabia? - Disparei o alarme do carro, assim que o manobrista tinha acabado de trazê-lo para mim. - Agora entre nesse carro e não fale nem mais uma palavra. - Ordenei.
- Está me mandando calar a boca?
- Sim. - Abri a porta do carro para entrar, e ela fez o mesmo.
(...)
Permanecemos em silêncio durante o caminho até o apartamento, mas quando eu parei o carro no sinal, ela resolveu pronunciar:
- Está mais calmo? –– Ela ainda teve a audácia de perguntar isso, depois de tudo o que fez.
- O que você acha? Sabe Verônica, pra mim já deu, eu estou de saco cheio de tudo isso. Lembra do que eu te falei se caso você fizesse outra cena igual a essa?
- Mas você não vai fazer isso, né Noah? - Arregalou os olhos demonstrando o quanto estava apavorada.
- Sim Verônica, acabou, eu não quero mais viver assim. Estou me separando de você. Lembre-se de que não foi por falta de aviso porque eu te avisei diversas vezes.
- Não, Noah, por favor, eu prometo que eu vou tentar me controlar. Não faça isso comigo, com nós dois... Um casamento de quase oito anos não pode acabar assim do nada, só por causa de mais uma briga boba.
- Pode, e se eu soubesse que tudo fosse resultar nisso que aconteceu hoje, eu já teria me separado há bastante tempo.
Ela fechou a cara na hora, e em seguida disse:
- Se você se atrever a se separar de mim, eu vou entrar com um processo contra você para lhe tirar tudo, e deixá-lo na miséria junto com a sua família, e se eu fosse você se preocupava porque eu sou advogada querido, e consigo tudo o que eu quero. - Sorriu com um certo cinismo, logo após me chantagear.