O primeiro ano na faculdade era a realização de um sonho, sempre quis fazer comércio exterior nesta faculdade, quando recebi o resultado do vestibular eu fiquei em êxtase, claro eu teria que sair da cidade onde morava, meus pais estavam dispostos a pagar por tudo mas eu queria ser independente, recusei o apartamento na capital e insisti em morar numa pensão para meninas, aleguei que era mais próximo da faculdade e dessa forma faria amizades.
Minha mãe não gostou muito, e a forma de agradá-la foi deixar que ao menos o custo deste aluguel fosse por conta deles. Mesmo assim, uma vez matriculada e com o horário das minhas aulas organizados busquei emprego de meio período até conseguir um estágio.
Foi neste período de estágio que conheci a Amanda, ela era coordenadora em um banco que comecei a trabalhar, logo no primeiro encontro a presença dela me chamou a atenção, muito alta linda com seus cabelos muito negros num corte curto e moderno, ficava linda de tailleur com saia e sempre de salto fino, e o mais impressionante, mesmo sabendo que era bonita ela não tinha noção da atenção que ganhava por onde passava. Comecei a cultivar ali uma paixão platônica, apesar de trabalharmos na mesma empresa, nossos serviços não nos aproximavam com frequência.
Certo dia, cheguei mais cedo na faculdade tinha dúvidas para tirar com o professor de economia e encontro com ela sentada à mesa do professor, nos reconhecemos de imediato e começamos a conversar, eu provavelmente a constrangendo com o meu olhar adolescente de jovem apaixonada, sei disso porque ela me encarava com intensidade, ficava vermelha e desviava o olhar quando eu devolvia a encarada.
Com o tempo, toda vez que chegava mais cedo para falar com este professor encontrava com ela, era quase um encontro marcado não declarado.
-- Você de novo Bárbara, começo a pensar que você não entende muito o Marcos. - era o professor.
-- Na verdade não vou entender ele nunca, mais nem quero, preciso entender a matéria são muitos cálculos e eu preciso ir bem nesta matéria, vou precisar de reforço, preciso que ele me indique um tutor.
-- Não precisa, quero dizer eu sou ótima com números e posso te ajudar. O Marcos vai gostar ele diz que você é uma aluna muito aplicada.
-- Ele diz? Em que momento? Você trabalha com ele também? Ok, três perguntas em uma, mas é que ela falava dele com tanta i********e.
-- Ah não, pensei que você soubesse. Estamos namorando, eu venho aqui para poder vê-lo as vezes, nossas agendas nos separam então nos vemos nos intervalos.
Essa informação não foi legal, então a minha musa, era hétero e o pior namorava o meu professor, eu ouvi os caquinhos do meu coração quebrado caindo, mas sorri para ela sem dizer nada. Me levantei pegando os meus livros e ia saindo com um aceno de cabeça.
-- Então, quando começamos as aulas? - Me perguntou ela tocando meu braço, o choque que eu senti foi tão forte que retornou para ela, eu pude ver a reação de surpresa na sua respiração. Fui firme.
-- Bemmm. - Eu voltei pra responder. - Eu só tenho a noite para aulas extras, estudo de manhã e faço o estágio a tarde né. Não acho justo fazer você ter trabalho extra fora dos seus horários.
-- Eu ofereci a ajuda, então não será um trabalho, será um prazer. Começamos amanhã, me dê o seu telefone.
Então eu dei, nos despedimos e eu fui embora, meio com o coração quebrado, mas com uma esperança de que teria ela por perto, mesmo que fosse só amizade.
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“- Estou saindo agora, quer uma carona?” - Era uma mensagem da Amanda. Fiquei feliz e comecei a arrumar a minha mesa. Já estava na hora de eu sair. Achei legal ela oferecer a carona, aceitei e a aguardava no estacionamento.
-- Legal, você me esperar eu poderia ir até a sua casa. - Tínhamos combinado que as aulas seriam na casa dela.
-- Eu sei o caminho e adivinha, estou indo para lá. Disse ela com um sorriso gostoso.
Quando chegamos fiquei impressionada, era uma senhora casa no butantã, bem cara para os padrões econômicos de uma coordenadora de banco, ela então falou que o banco era do pai dela e a função dela era aprender como ele funcionava cada setor, por que um dia ela seria administradora, foi assim que conheceu o Marcos, com quem deveria se casar já que o pai adorava ele.
Sim, senti ciúmes, a noite transcorria normalmente, fizemos lanches e encaramos os livros como se fosse a preparação para um concurso, essa rotina era mantida três vezes por semana, e por causa dela nossa amizade foi se fortalecendo, apesar da diferença clara de idade eu tinha dezessete e ela seis anos mais, parecíamos melhores amigas conversavamos sobre tudo, ela sempre querendo saber dos meus rolos, os quais eu quase não tinha o que contar e eu morrendo de ciúmes nas noites em que ela não estava comigo e eu sabia que estava com o namorado meu professor.
Certo dia liguei para ela da minha mesa para cancelar a aula, eu tinha um encontro e estava empolgada com isso, afinal eu precisava estar com uma pessoa que pudesse me distrair dos sentimentos que eu nutria por ela. m*l terminei a ligação ela entrou na minha sala tal qual um trovão.
-- Quem é? - Eu me virei assustada para a porta.
-- Que?
-- Você nunca me falou que estava interessada em alguém, quem é?
-- É uma garota da minha sala, combinamos um cinema hoje. - Respondi de forma natural, ela parecia incomodada.
-- Garota? Você é lésbica? Você nunca me disse que era.
-- Você perguntou se eu estava saindo com alguém, se eu gostava de alguém, mas nunca perguntou quem. Fiquei incomodada será que ela era homofóbica?
-- Não quis invadir, mas queria saber. - E foi se aproximando da minha mesa. Era uma mesa de canto numa sala que eu dividia com mais quatro pessoas que felizmente não estavam ali. Ela me encurralou e me roubou um beijo, foi possessivo e doce o toque dos lábios dela no meu era quente e cheio de vontade, para mim um sonho que se realizava mas, porquê agora?
Eu a afastei um pouco, olhei dentro dos olhos negros cheios de desejo e então a beijei com toda a vontade que eu reprimia desde a primeira vez que a vi.
Nos afastamos para recuperar o ar, e ela rápida me segura. -- Não sai com esta garota por favor. Ela pediu?
-- Como assim? Nós conversamos e ela é super legal e está virando algo mais.
-- É dela que você gosta, é dela que você fala quando diz ter sentimentos por alguém?
Eu não sabia o que falar, não sabia mentir, eu abaixei a cabeça. Ela bateu na mesa com muita força justo quando o Agnaldo entrava na sala, nos olhou assustado. Então ela se virou e saiu pela porta que ele deixou aberta.
-- O que foi isso? Ele perguntou ainda assustado.
- Eu ainda não sei. Abaixei a cabeça e voltei a trabalhar.
No fim da tarde, peguei a minha bolsa e ia saindo, passei por ela que me olhava com cara de poucos amigos eu disse tchau e ela me deu as costas. Eu não a estava entendendo, foi o beijo da minha vida, cheio de desejo, mas até onde eu sabia ela tinha um namorado e eu o conhecia.
No final o encontro não foi tão legal, eu estava desatenta, queria ligar e conversar com ela, não dei atenção para a garota nem me lembro do nome dela agora. Ela me deixou na pensão, me despedi com um beijo no rosto. E quando me viro para entrar dou de cara com uma Amanda assombrada, chorosa me encarando.
-- A noite foi boa então, você demorou e a gente precisa conversar.
-- Vamos, entre você não parece bem.