O jovem guerreiro forçou seu cavalo o máximo que pôde, o sorriso em seu rosto era esperançoso, trazia boas notícias. Assim que os vigias o viram, se questionaram:
— Aquele não é o jovem Abílio?
— Sim, por que está com tanta pressa?
— A questão é porque ele está sorrindo como uma moça?
Os dois vigias se entreolharam, suas expressões eram curiosas, tocaram o sinal de anúncio que um guerreiro estava chegando enquanto abriam os portões. Rose foi para a entrada da casa principal, esperando pela presença do marido e seus guerreiros, mas para sua surpresa se deparou com apenas um guerreiro descendo do cavalo apressado, seu sorriso demonstrava trazer boas notícias, aproximou-se da matriarca de seu clã, pegou suas mãos respeitosamente e anunciou:
— Nosso patriarca pediu que viesse na frente lhe dar a boa nova. Fomos agraciados com uma bênção, senhora.
— Bênção?
— Sim, os deuses ouviram as orações de nosso grande patriarca.
Rose franziu as sobrancelhas sem entender o que o Abílio dizia, ficou pensativa alguns instantes quando teve uma percepção, o maior desejo de seu marido era ter uma filha, apertou a mão sobre o peito. Ela pensava que aceitaria a menina independente de sua origem, mesmo que fosse uma bastarda a criaria com o mesmo amor que daria a uma criança nascida de seu ventre, imaginou como seria a criança.
As fanfarras dos vigias avisando da chegada do patriarca a tiraram de seus pensamentos. Dinís entrou primeiro, descendo de seu cavalo com a pequena nos braços, pegou o cesto com os dois felinos e aproximou-se de Rose, ela deu dois passos na direção dele. Recebendo o bebê em seus braços, chorou imediatamente ao analisar a menina, diferente do que ela imaginava a pequena em seu colo não se parecia com Dinís ou com os filhos deles. O bebê parecia ter saído de seu próprio ventre, os cabelos e os olhos eram negros como os dela, sua pele era bem mais morena do que a sua, mas com certeza ela era quase uma cópia perfeita da matriarca do clã.
Rose beijou a testa da pequena, percebendo no cesto os dois felinos pequenos, com pelo cheio de bonitas pintas escuras. Rose fez contato visual com Dinís que sorriu, ela agradeceu:
— Obrigada por trazer para casa a nossa filha. Entremos, ela deve estar com fome, precisamos vesti-la...
— Sim, minha senhora. Tragam uma tigela de leite para os felinos.
— O que significam?
— Subiremos, minha senhora, tenho muito a lhe dizer.
Ambos subiram para um quarto anexo ao deles, onde existia um berço para uma criança pequena. Assim que entraram, Rose sentou se em uma poltrona com a pequena em seus braços, a menina deitou sua cabeça sobre o peito da mulher, segurou-se com força no tecido de sua roupa e em seu longo cabelo n***o. Rose acariciava as costas do bebê em seu colo e, assim que Dinís colocou o cesto no chão, os dois pequenos felinos saíram, subindo também para a poltrona, aninhando-se aos lados das pernas da humana. Rose estranhou aquilo e questionou:
— O que precisa me dizer, meu senhor?
— Minha amada, essa criança em seu colo e seus pequenos companheiros, eram o que assustavam os aldeões que moram na beira do rio. Ela estava na gruta verde, eu apenas posso atribuir esse aparecimento a uma benção da Rainha Deusa, observe a cor do manto que os protegiam, jamais vi um tecido dessa cor em nossas terras, esses amuletos que os protegiam, jamais encontramos nas terras de nosso clã.
Rose colocou sobre a palma da mão o pingente que estava no pescoço da bebê e observou seu formato. Algo lhe dizia que aquela criança era um milagre, uma benção endereçada a ela, as servas trouxeram leite para os felinos, uma banheira e água morna para que a sua matriarca pudesse banhar a filha, trouxeram também leite de c***a para que a pequena pudesse se alimentar.
Rose em silêncio olhou para o marido questionando:
— Que nome devemos dar a nossa menina?
Dinís olhou para os dois felinos se alimentando, e a menina sendo preparada para ser banhada, observou sobre as costelas, parecia o perfil de uma fera com os dentes afiados à mostra, o patriarca sorriu.
Dinís lembrando-se de uma lenda muito antiga que seu clã contava sobre mulheres guerreiras que lutavam e montavam como homens, lembrou-se que seu avô se referia aquelas mulheres como Sauvage, eram as guerreiras consagradas a Rainha Deusa. O patriarca sorriu, dizendo:
— Sauvage.
A menina imediatamente olhou para ele como se estivesse respondendo ao ouvir seu nome sendo chamado, os olhos de seus pais adotivos brilhavam de orgulho, aquele brilho jamais se dissiparia dos olhos deles e de seu povo.
Muitos anos haviam se passado desde aquele dia, o clã de Dinís havia crescido muito graças a seus acordos comerciais e do casamento de seus quatro filhos mais velhos, que lhe renderam uma grande expansão nos domínios de seu clã. Rose era a mulher mais feliz que existia, tinha tudo que sempre desejou, estava com algumas servas indo até à biblioteca anexa da casa principal onde Sauvage passava suas manhãs estudando. Ela tomava sua primeira refeição naquele local quando viu a mãe entrar, se levantou e foi até ela, abraçando-a carinhosamente.
Naquela manhã em especial, Rose estava ainda mais feliz, fato que não passou despercebido por Sauvage. A jovem olhou para o rosto da mãe estreitando seus olhos questionando animada:
— Vejo que temos algo especial para acontecer.
— Como sabe, Sauvage?
— Minha mãe está sorrindo muito hoje. O que é?
— Minha criança, minha benção...
Disse Rose beijando-a na testa, dizendo-lhe com doçura:
— Hoje é seu décimo sétimo aniversário, minha jovem. Sabe o que isso significa?
— Que poderei treinar com o exército de meu pai?
— Não apenas isso, minha menina, mas poderá participar dos eventos junto aos adultos... Quem sabe conhecer um belo jovem para se tornar seu marido...
— Mãe... Ainda não estou preparada para ter um marido, ainda não sou digna para isso aos olhos da deusa, quando ela assim julgar que devo ter um marido, ela me mostrará o homem que deve estar ao meu lado.
Rose riu, fingindo estar contrariada e disse:
— Você está falando como seu pai, menina... Concordo com ambos, mas nada impede que seja vista e conheça os rapazes.
A jovem fechou um pergaminho que estava na sua frente na mesa e suspirou fundo passando a mão pelos pesados cabelos negros. Sorrindo, olhou para o rosto animado da mãe, não teve coragem de dizer o que realmente pensava. Sauvage não acreditava que um rapaz se interessaria por uma jovem com sua aparência, não que se achasse feia, mas não era delicada como as jovens de seu clã. Era muito alta, seu corpo devido aos treinamentos com o pai, os irmãos e os sobrinhos, era muito forte, não era frágil como as demais mulheres, não possuía aquela delicadeza das donzelas, sorriu para mãe, ouvindo-a dizer:
— Hoje teremos visitas para o almoço, será a primeira vez que almoçará com convidados, estou tão ansiosa para isso, minha pequena.
O rosto de Sauvage tomou uma expressão surpresa, estreitou os olhos e questionou a mãe:
— Qual o motivo?
— Seu pai tem um anúncio importante a fazer... Seu irmão Darlan ficará oficialmente noivo.
Sauvage sorriu animada com aquela notícia, aquele era o mais jovem dos irmãos e o último a se casar. Aquele evento estava sendo muito esperado no clã, segurou as mãos da mãe e questionou contente:
— Darlan está feliz com sua união?
— Bem, filha...
— Ele ainda não sabe que ficará noivo hoje, é isso?
O rosto de Rose assume uma expressão desconfortável, era o último dos filhos homens a assumir um compromisso, o que não deixava muita escolha a Darlan. Um dos únicos clãs que Dinís ainda possuía interesse em fazer uma união era o Clã Merverte, famosos por seus pomares e plantio de grãos, seriam um ótimo parceiro para Dinís e os demais clãs que faziam aliança com ele, os tornando fortes em comércio e poderio bélico. Sauvage sorriu sem julgar os pais, entendia a necessidade de boas alianças para o fortalecimento dos clãs de crenças semelhantes. Segurou as mãos de sua mãe e as beijou carinhosamente, dizendo-lhe:
— Não se preocupe, minha mãe. Darlan entenderá a necessidade de sua união para que nosso povo possa continuar vivendo em segurança.
Rose sorriu ao perceber que sua jovem filha entendia melhor que qualquer um de seus filhos a necessidade daquelas alianças para a sobrevivência de um clã. Teve certeza de que o homem que tivesse sua filha como esposa seria um grande líder, talvez um rei tendo uma esposa com a visão de responsabilidade que ela possuía.
Rose levantou-se sorrindo, ainda possuía muito a ser feito antes daquele almoço importante. Assim que se viu sozinha, Sauvage suspirou preocupada, a voz preguiçosa vinda de baixo da mesa, constatou:
— Seu irmão não irá gostar nada dessa novidade...
— Sei, Foncé... Darlan é o último de meus irmãos em idade de casar, mesmo ele dizendo que nosso pai não necessitaria que ele fizesse um casamento por conveniência, suponho que ele nunca acreditou realmente nisso.
Uma risada sarcástica a fez menear a cabeça, ouviu a voz masculina debochar:
— Seu pai e seu clã serão humilhados quando Darlan se negar a dormir com a noiva...
— Marrant, por favor...
— Sauvage, minha querida... Sejamos razoáveis. Darlan não se agrada das senhoritas.
— Prefiro acreditar na versão de meu irmão. Ele apenas ficou confuso por estar bêbado...
— Mas isso acontece diariamente...
— Marrant...
O macho onça se espreguiçou embaixo da mesa, encarado por sua irmã gêmea Foncé e pelos irritados olhos negros de Sauvage, ele bocejou andando languido até sentar-se na frente da porta, revirou os olhos apaziguando:
— Não estou julgando seu irmão, mas acredito que ele deveria ser sincero com o patriarca do clã. Com toda a certeza o senhor Dinís não o obrigaria a um matrimônio que fosse contra a sua natureza.
— Também acredito nisso, mas Darlan não acredita, diz que homens assim... Não são tão machos quanto os outros...
Foncé bufou revirando os olhos, estalando a língua:
— Como os humanos são estúpidos!
Sauvage olhou para a felina à sua esquerda, que lambia uma de suas patas dianteiras, a jovem concordava com a onça fêmea a seu lado, porém não poderia se intrometer nos assuntos de seu irmão. Como explicaria como sabia daqueles fatos e por mais que ele acreditasse que ela podia falar com os animais. Seu irmão não lhe permitiria opinar em sua vida íntima, mandaria ela ficar quieta e ainda passaria por alcoviteira, respirou fundo, levantando-se da cadeira, arrumou a mesa, dizendo ao par de onças-pintadas:
— Subamos e nos preparemos para o almoço.
— Orará para não ser um desastre?
Questiona Marrant, saindo na frente e sendo respondido por Foncé:
— Não acredito que dê tempo para um milagre...
Sauvage revirou os olhos, subindo com os dois grandes felinos para seu quarto, precisava ficar apresentável na primeira vez que poderia acompanhar sua família em um evento público e esperar que o irmão tivesse bom senso.