Com os olhos abertos, sentindo os lábios de Dante devorarem os seus, Amanda congelou em choque, incapaz de se mover.
E ela nunca esperava por isso, não quando eles supostamente estavam no meio de um divórcio, e sentindo as mãos dele agarrando o seu corpo, decidido a não deixá-la escapar, ela voltou à realidade e cravou os dentes dele no seu lábio inferior, fazendo-o sangrar.
Sangrando tanto que o gosto alcalino permaneceu na sua boca.
— Amanda!
Sentindo a pressão do sangue bombeando contra o lábio e limpando qualquer vestígio dele, Dante simplesmente levou a mão à área afetada. Depois de encará-la com a testa franzida, ela respondeu: que esta seja a última vez que você encosta a mão em mim, Dante Hackett! É hora de me deixar em paz. Três anos atrás você partiu num piscar de olhos, agora volte por onde veio.
Irritada, mas com o coração abalado pelo beijo que a fez tremer, Amanda tentou sair do quarto e, perseguindo-a, Dante bloqueou o seu caminho antes que ela pudesse.
— Eu não quero! Não vou embora porque estou aqui por você. Voltei para te reconquistar.
Amanda imediatamente sorriu diante da ironia disso. Será que ela sofria de algum tipo de amnésia que o fazia esquecer o que tinha feito? E, estendendo a mão para ele, ela o empurrou para fora do caminho.
— Você não acha que eu tinha um bom motivo para te deixar?
Parando antes de sair, Amanda se virou e, balançando a cabeça, confessou.
— Não, você só foi embora para viver o seu amor com Erika. Ou esqueceu a carta que deixou?
Por um momento, Dante achou que tinha ouvido errado, já que não sabia do que ela estava falando. Mas quando viu que Amanda estava apertando as mãos ao lado do corpo, expressando o seu ódio por ele, soube que ela não estava brincando.
— Uma carta?
Perdendo o equilíbrio, Dante deu um passo à frente e, respirando fundo, reunindo coragem para falar, Amanda continuou.
— Você está esquecendo? Porque eu não estou. Erika não deveria ser a dona do seu coração? O amor da sua vida. O que aconteceu? O seu amor por ela acabou? O que eu sou? Uma substituta na sua vida?
Dante ainda não entendia o que ela queria dizer. Fora Erika, não ele, quem havia deixado a carta nas mãos da sua babá no passado, com o único propósito de separá-los.
Uma carta pela qual Amanda o acusava injustamente, e ela chorou com aquela carta nas mãos por dias.
— Eu nunca disse nada parecido, Amanda. Não sei de onde você tirou isso. Eu te amo...
Levantando a mão, Dante tentou tocar o rosto dela, senti-lo, e, movendo-a para o lado, ela se esquivou.
— Georgia me entregou a sua carta no mesmo dia em que você partiu... Então pare de fingir e me liberte.
Dante, percebendo como os olhos de Amanda se cristalizaram ao reviver o momento amargo, sentiu como se o seu coração estivesse se partindo ao ver a dor que lhe causara. Ele estendeu a mão para a barra da camisa do pijama dele e, assim que ela deu um passo para trás, ele tentou tirá-la, apenas para Amanda ver a cicatriz no seu peito, resultado do transplante.
Infelizmente, antes que ele pudesse fazê-lo, a porta do quarto se abriu e Nerio entrou, deixando Dante no meio do caminho, incapaz de revelar o verdadeiro motivo da sua partida.
— Amanda, linda. Você está bem?
Olhando na direção do homem mais velho, Amanda ignorou completamente Dante e o que ele pretendia lhe mostrar. Aproximando-se para cumprimentá-la, o patriarca a abraçou.
— Sim, eu estava prestes a ir embora. Eu só estava aqui para falar com Dante, mas terminei.
Comovida com o ocorrido, mas também confusa com o que sentira durante o beijo, Amanda lançou um último olhar ao marido antes de sair do quarto.
Ela estava tão desorientada que caminhou pela mansão, esbarrando em Atlas. Ele a deteve ao ver o seu estado.
— Amanda, o que aconteceu com você?
Os seus olhos vermelhos, os seus lábios inchados e o seu andar apressado provavam apenas uma coisa: que ela havia encontrado Dante. Então, colocando as mãos nos seus ombros, ele a sacudiu para que ela pudesse olhar nos seus olhos.
— Atlas... Me tire daqui.
Sentindo o nó na garganta lhe roubando o fôlego, Amanda focou o olhar no cunhado pela primeira vez. Assentindo, Atlas passou os braços em volta da cintura dela para levá-la embora.
— Diga ao vovô que eu preciso sair com urgência.
Encontrando o seu carro o mais rápido possível, Atlas anunciou isso a Georgia. Ajudando Amanda a entrar no seu carro. Eles saíram, sob o olhar atento de Dante, que os observava do seu quarto, imerso numa infinidade de perguntas.
***** ****
Alguns minutos depois, quando Atlas conseguiu afastar Amanda o suficiente da mansão Hackett para que ela se acalmasse, ele parou o veículo numa colina nos arredores da cidade, que tinha uma bela vista.
— Você gosta do que vê, Amanda? Costumo vir aqui quando estou estressado.
Saindo do veículo, Atlas caminhou um pouco mais para observar a vista e, seguindo-o enquanto ouvia as suas perguntas, Amanda ficou encantada com a cidade.
— Não vou perguntar o que aconteceu porque não preciso. Sei que é por causa do Dante... Só vou dizer que sempre estarei ao seu lado.
Observando-o enquanto ele respirava fundo, Amanda caminhou até o cunhado e, sorrindo para ele, ao se colocar ao lado dele, acrescentou: eu sei, e não consigo parar de me sentir m*al por isso. Você é irmão do Dante, irmão do homem que tanto me machucou.
Sentindo compaixão por Amanda, Atlas girou nos calcanhares, segurou-a pelos ombros e olhou-a nos olhos antes de continuar.
— Você não precisa se sentir m*al. Temos o mesmo sangue, mas somos tão diferentes... Amanda, deixe-me te amar, deixe-me mostrar que o que sinto por você é real.
Atlas se sentiu desesperado ao ver Amanda sofrer com o retorno de Dante. Tentando confortá-la, ele simplesmente a abraçou.
— Não sei mais o que fazer para que você acredite em mim, Amanda. Me mata ver você assim.
Por um momento, Atlas permaneceu em silêncio, olhando para a cidade e abraçando a cunhada, momento em que as memórias voltaram à tona.
Flashback Começa
Rindo alto depois de ver Cristian jogar o irmão na piscina no meio da comemoração do seu aniversário de 18 anos, Atlas se manteve afastado.
O garoto odiava a atenção que todos davam ao seu irmão, sendo o mais velho e o futuro herdeiro, então não perdeu a oportunidade de rir dele.
Saindo da piscina irritado, Dante saiu da festa para trocar de roupa. De repente, Erick Granfort apareceu, acompanhado por uma bela adolescente de cabelos loiros que chegavam à cintura. Atlas ficou parado ali, observando-a distraidamente.
— Quem é ela?
Chegando ao seu lado, ainda sorrindo da piada que fizera, Cristian percebeu a confusão do amigo e o motivo, então perguntou.
— Não sei, mas pretendo descobrir.
Aproximando-se de Granfort, que estava sendo recebido pelo avô, Atlas tentou descobrir o nome da garota. Após apresentá-los, alguns minutos depois, ele conheceu a mulher que havia roubado o seu coração.
— Esta é minha filha Amanda.
Sentindo a alegria invadir o seu corpo, Atlas estendeu a mão para se apresentar e, apertando-a, Amanda sorriu para ele pela primeira vez.
— Atlas Hackett. Ao seu dispor.
Fim do Flashback
Amanda se sentiu mais calma, percebendo que não podia mais fazer nada para mudar o passado, então, alguns segundos depois, se afastou de Atlas para lhe dizer: acho que é hora de voltar, Atlas. Amanhã teremos um dia agitado, já que as cópias já foram impressas, então devemos ir.
Um pouco sobrecarregado, sentindo que não tinha feito nada para ajudá-la, Atlas sorriu e, puxando a sua mão, Amanda o arrastou até o carro, onde trocaram algumas palavras antes de iniciar a viagem de volta.
— Obrigado, Atlas, por sempre estar ao meu lado. Sem você... eu não teria durado esses três anos.
Isso foi um elogio para ele, então ele criou coragem para se aproximar dela. Fingiu unir os seus lábios num beijo, mas ela moveu o rosto para o lado, rejeitando-o.
— Atlas... Eu não posso.
Por enquanto, o mais sensato era manter distância, continuar dividindo o escritório, mas partir daí para se envolver romanticamente com ele não era justo para nenhum dos dois, ou pelo menos era o que Amanda pensava.
Um pouco chateado com a rejeição, Atlas balançou a cabeça, aceitando que naquele momento precisava deixá-la em paz e, ligando o veículo, simplesmente disse: eu sei... Mesmo assim, você não vai me afastar de você.
O problema é que Atlas já estava começando a se cansar de ser apenas um lenço para lágrimas.