O limite do impossível

1218 Words
Capítulo 8 – O Limite do Impossível Marina passou os dias seguintes sem saber o que pensar, ou mesmo como se sentir. O mar, que sempre foi seu refúgio, agora parecia uma ameaça. Cada onda, cada brisa que tocava sua pele a fazia lembrar da tentativa desesperada de invocar Ethan, e do fracasso que ela sentiu como uma lâmina afiada em seu coração. O que acontecera com ele naquela noite? Ele realmente não podia voltar? E, se isso fosse verdade, o que mais ela poderia fazer? Era impossível negar a dor. Ela sentia a ausência dele a cada passo, como um peso sobre seus ombros. Não importava quantos livros ela lesse, quantas orações ela fizesse ou rituais ela tentasse, a verdade persistia: ele estava longe, em um lugar além de sua compreensão. Mas uma parte dela, uma parte que ela m*l reconhecia, não podia simplesmente se render àquela verdade. O vazio de perder Ethan era insuportável, mais do que ela jamais imaginara. E foi essa dor, esse sentimento de que a vida sem ele não fazia sentido, que a levou a uma nova ideia — uma ideia radical, perigosa, mas que parecia ser a única resposta viável. ⋅•⋅⊰⋅•⋅ Marina encontrou-se novamente na praia no dia seguinte, com o coração mais pesado do que nunca. Estava decidida a seguir um caminho diferente, um caminho que exigiria mais do que palavras, mais do que um simples ritual. Ela sentia que a conexão que compartilhava com Ethan era mais profunda do que qualquer lenda ou rito antigo. Algo que ela não compreendia completamente, mas que precisava explorar. Ela estava disposta a fazer algo que ninguém jamais faria — algo que a colocaria à beira do desconhecido, sem garantias ou promessas de sucesso. O livro antigo que ela havia encontrado falava sobre os limites da comunicação com o mar e mencionava algo chamado ritual da transgressão. Era uma prática que envolvia não apenas a oferta de sacrifícios, mas também uma interação física com os elementos, com o oceano, e com a força primordial que regia todas as coisas. “Mas isso…” Marina pensou, hesitando. “Isso não pode ser real. Não pode.” Mas a ideia, por mais absurda que fosse, se apossava dela com uma força avassaladora. Ela lembrou-se das palavras do livro: “A transgressão do limite é o preço da verdadeira convocação. O sacrifício necessário é mais do que o corpo — é a alma que se entrega àquilo que não pode ser controlado.” Isso significava que ela teria que ir além de qualquer coisa que imaginasse. Aquele algo mais que o livro mencionava poderia estar ligado à profundidade da conexão entre ela e Ethan. Mas o que isso significava exatamente? Com o coração batendo descontrolado, Marina decidiu que precisaria buscar respostas mais profundas, mais concretas. Na mesma tarde, ela começou a procurar novamente por qualquer vestígio de pessoas ou culturas que tivessem tentado algo similar — invocar, chamar, ou atravessar as barreiras entre os mundos. Sabia que não poderia ir para o mar sem entender os riscos. Mas a dor de perder Ethan a impelia a avançar. A pesquisa a levou a um velho templo, um local mencionado em um dos textos que ela havia lido: o Templo de Okeanos. Diziam que era um local sagrado, um ponto de intersecção entre o mundo humano e o oceano, onde se dizia que o mar e os deuses se encontravam. Sem pensar muito, Marina decidiu que precisava ir até lá. ⋅•⋅⊰⋅•⋅ O Templo de Okeanos ficava em uma ilha isolada, longe da costa principal. A jornada até lá não foi fácil, e Marina teve que recorrer a mapas antigos e a alguns pescadores locais para encontrar o ponto exato. A ilha era pequena, coberta por uma vegetação densa, e não havia muitas pessoas por ali — a maioria dos moradores locais acreditava que o templo estava amaldiçoado, e evitava a área. Mas Marina não estava disposta a acreditar em superstições. Ela tinha uma missão. Quando finalmente alcançou o templo, encontrou-o em ruínas. As colunas de pedra estavam cobertas por musgo, e o som do mar quebrando contra as rochas ao redor preenchia o ar. O local exalava uma energia única, como se estivesse imerso em mistérios há muito esquecidos. O lugar tinha algo de sagrado, mas ao mesmo tempo, era perturbador. Algo estava ali, esperando para ser desvendado. Ela podia sentir isso em cada respiração. Ela entrou no templo, andando cuidadosamente entre as pedras que estavam quebradas ou caídas. No centro do lugar, havia um altar, em forma de círculo, com inscrições antigas e símbolos gravados na superfície. Alguns deles eram familiares de suas pesquisas, outros completamente desconhecidos. Mas o que mais a intrigava era o brilho sutil que emanava de um ponto no altar. Algo parecia chamar sua atenção. Algo que ela sentia profundamente, como se estivesse sendo guiada. Marina se aproximou com cautela. Ela sentiu uma pressão crescente no peito, como se algo estivesse se aproximando — uma força invisível, mas palpável. Colocando as mãos sobre o altar, ela fechou os olhos e, pela primeira vez, se permitiu falar em voz alta. “Eu não posso viver sem ele. O mar o levou de mim, mas eu preciso dele de volta.” A voz dela tremia, mas as palavras saíam como uma oração, uma súplica ao próprio oceano. Nada aconteceu. O silêncio do templo era absoluto. Ela repetiu as palavras, mais uma vez, com mais firmeza: “Eu não posso viver sem ele. O mar o levou, mas eu o trago de volta. Eu não vou desistir.” De repente, uma onda de calor percorreu seu corpo. O altar embaixo de suas mãos começou a vibrar, e uma luz azulada se espalhou pela sala, como se o próprio oceano estivesse despertando ao redor dela. Marina sentiu uma força poderosa, que a envolvia e a conectava com algo muito maior do que ela poderia compreender. Era como se o mar estivesse ouvindo. Com os olhos ainda fechados, ela sentiu uma presença, algo que a observava. Sentiu, mais uma vez, a presença de Ethan. Não fisicamente, mas espiritualmente. Algo ainda o conectava a ela. E ela sabia, naquele momento, que não estava sozinha. “Ethan…” Ela sussurrou, e as palavras pareciam ser carregadas por uma corrente invisível, como se o próprio mar estivesse transmitindo seu chamado. A luz ao redor dela intensificou, e uma voz suave, quase um sussurro, ecoou pela sala. “Marina…” A voz era familiar, inconfundível. Ethan. Ela sabia que era ele. “Você me chamou, mas o que você pede está além do que pode ser dado.” Ela não podia acreditar. Ele estava lá, de alguma forma, alcançando-a através da barreira que os separava. “Eu farei o que for necessário,” ela respondeu, a determinação em sua voz mais forte do que nunca. “Traga-me de volta, Ethan. Eu não posso viver sem você.” A luz começou a brilhar com mais intensidade, e então, de repente, tudo se apagou. O calor desapareceu, o altar ficou silencioso, e Marina caiu de joelhos no chão, exausta. Mas ela sabia uma coisa com absoluta certeza: ela havia cruzado um limite. E algo dentro de seu ser dizia que as coisas estavam prestes a mudar.
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