Senhora Baranov

1706 Words
Ívyna Laurent Tem dias que, acordar, é uma infelicidade total! Quando abri os olhos, a manhã já se derramava pelas cortinas do quarto como um véu dourado. Por um instante, esqueci onde estava. Depois, a lembrança veio com força, o jantar, o olhar dele, o toque que ainda queimava na pele. O lobo vestiu a capa de bom moço, mandou preparar um quarto para mim, e havia em cima da cama um buquê de flores... Não sabia se isso me aquecia, ou se me dava ânsia de vômito. Hoje eu me casaria com Viktor Baranov, me tornaria uma Baranov. As criadas entraram logo em seguida, movendo-se em silêncio, como se a casa inteira tivesse medo de quebrar o feitiço do grande acontecimento do ano. Trouxeram bacias de porcelana com água perfumada, toalhas bordadas e uma caixa longa de madeira. Dentro, descansava o vestido. A costureira abriu o tecido com cuidado. O som do cetim se espalhou pelo quarto como um suspiro leve. O vestido era de um branco quase prateado, pesado na barra e leve nos ombros, com mangas finas e rendas bordadas à mão. Pequenas pérolas se perdiam entre as flores costuradas no corpete. Parecia antigo, mas não velho, no entanto, muito chique, e me deixava com cara de mulher amadurecida... — Está pronto, milady — disse uma das mulheres em tom baixo, e eu apenas assenti. Sentei-me diante do espelho enquanto outra trançava meus cabelos em uma coroa simples, entrelaçando os fios ruivos. A maquiagem veio leve: um toque de pó nas bochechas, o delineado fino, os lábios tingidos de uma cor entre rosa e vinho. O reflexo me encarava com olhos que eu m*l reconhecia, não imaginava que me veria vestida desse jeito, principalmente tão cedo. Quando o véu foi colocado, senti o peso real do momento. O tecido caiu sobre mim como uma névoa. Era belo. E era prisão disfarçada de qualquer outra coisa. Meu pai entrou no quarto sem bater, seguido de minha mãe. O homem havia encolhido seus ombros, mas os olhos — cansados e cheios de culpa — ainda me viam como uma criança, me olhava como me olhava quando era uma menina com os joelhos ralados. Já a Senhora Laurent, parecia apenas me analisar e julgar em silêncio. — Está linda, filha — murmurou, por fim. Não respondi. Apenas sorri, pequeno, para que ele não desmoronasse na minha frente. Ele se aproximou, pegou minha mão e a apertou contra o peito. — Sei que não posso pedir perdão, não tenho esse direito... arruinei a sua vida — disse. — Mas quero acreditar que esse homem… cuidará de você, do meu bem mais precioso. Assenti sem olhar para ele. Não porque não o perdoava, mas porque não queria chorar. Não naquele momento. Mesmo sendo o momento mais amargo da minha vida, não gostaria de entrar naquela igreja arruinada. Não daria a ele esse gostinho. *** A limusine seguiu devagar pelas ruas antigas de Moscou. A cidade parecia em silêncio por respeito a esse dia. A neve começava a cair em flocos raros, pousando no vidro como bênçãos frágeis. Lá fora, o mundo parecia exatamente como a minha vida, como a minha felicidade — frio, distante... Quando descemos, os sinos começaram a tocar. A igreja era uma fortaleza dourada, com cúpulas em forma de chama e portas talhadas com cenas de santos. O cheiro de incenso escapava pelas fendas, misturando-se ao vento. Do lado de dentro, o ar era espesso de fumaça e velas. Mas algo me agradava, as flores que decoravam a igreja estavam lindas. Num branco tão puro... Me apeguei nisso para não desmoronar. O chão de mármore refletia a luz alaranjada. Os cânticos ecoavam, antigos, em uma língua que parecia vir de outro tempo. E lá, no fim do corredor, estava ele. Viktor. Usava um terno escuro, quase preto, com detalhes em veludo no colarinho. O cabelo loiro estava penteado para trás, e uma cruz de prata pendia discretamente sob a gravata. A tatuagem no pescoço escapava pela gola — linhas negras como raízes subindo pela pele clara. Seus olhos azuis me encontraram e, por um instante, tudo o que era barulho virou silêncio. Ele não sorriu. Mas algo naquele olhar dizia que esperava por mim. Que sempre esperou. Meu pai ofereceu o braço, e eu aceitei. A cada passo, o coração batia como um tambor. Tão diferente do ritmo do violino... As velas nas laterais lançavam sombras que se moviam devagar, como se observassem a cena toda. Assustador... Os convidados — poucos — nos seguiam com o olhar respeitoso, e ainda assim, senti-me exposta, como se cada um soubesse que aquele casamento era um acordo, não um sonho. Quando cheguei ao fim do corredor, o padre — um homem de barba branca e túnica dourada — fez um gesto, e meu pai colocou minha mão na de Viktor. O toque dele era firme. Quente. Irritantemente seguro. E, ainda assim, o calor me atravessou inteira. As palavras do padre começaram em um canto baixo, quase um murmúrio. Em russo antigo, ele falava de união, de fé, de renúncia. Enquanto isso, Viktor não tirava os olhos de mim. Senti como se cada sílaba dita lá na frente fosse dita apenas para nós dois. O padre trouxe duas coroas douradas. As alianças dos reis. Um dos padrinhos colocou a primeira sobre minha cabeça, outro sobre a dele. E por um instante, nossas testas quase se tocaram — coroas pesadas, o destino ainda mais. Depois, vieram as velas. Cada um segurou uma, e o padre uniu nossas mãos com uma fita vermelha. — Vocês caminharão juntos três vezes ao redor da mesa — disse, a voz grave ecoando. — Em nome da Trindade. No primeiro passo, pelo amor. No segundo, pela fé. No terceiro, pela eternidade. Dei o primeiro passo e senti o chão girar sob os pés. O perfume do incenso se misturava ao aroma amadeirado que vinha de Viktor, o som das vozes se tornava um canto distante. Viktor manteve a mão firme sobre a minha, guiando-me como se conhecesse o ritmo do meu coração. Quando completamos a terceira volta, o padre ergueu as mãos e declarou: — O que Deus une, homem algum separa. O silêncio que se seguiu foi quase solene demais. Até que Viktor se aproximou e beijou minha testa, lentamente, sem pressa. O gesto foi terno. Mas se olhasse bem, perceberia que foi fingido. E, ainda assim, senti o mesmo arrepio do jantar — aquela linha tênue entre proteção e posse. Do lado de fora, o vento havia parado. A neve caía mais intensa agora, cobrindo as escadas da igreja como um lençol branco. Os convidados jogavam pétalas vermelhas, e o contraste era quase simbólico: branco e sangue. Viktor segurou minha mão enquanto descíamos. Seu rosto, agora à luz natural, parecia mais humano — e, talvez por isso, mais perigoso. Estávamos casados, não tinha volta... — Foi lindo — ele disse em voz baixa. — Você está linda. — Não era necessário todo esse teatro. Ele olhou de lado, sorrindo. — Senhora Baranov. Sorria, é o nosso casamento, é para ser o momento mais lindo na vida de uma mulher. Um carro preto nos esperava. E eu não tive tempo de rebater o que ele disse, já que me puxou com delicadeza pela mão. Antes de entrar, virei-me por um instante e vi meu pai parado na porta da igreja. Havia lágrimas no rosto dele. E culpa. Mas, dentro de mim, algo mais estranho acontecia, talvez a aceitação rápida demais. Eu estava abraçando o meu destino. Talvez o destino fosse mesmo uma estrada sem volta. **** A recepção aconteceu na própria mansão. As luzes douradas, as taças tilintando, o murmúrio das conversas em russo. Eu m*l sentia os pés no chão, como se ainda estivesse girando ao redor daquela mesa sagrada. Viktor ficou ao meu lado o tempo todo. Não falava muito. Mas observava tudo. Cada vez que alguém se aproximava demais, ele pousava a mão no encosto da minha cadeira — um gesto sutil, mas que expressava posse. Quando o champanhe foi servido, ele ergueu a taça. — À nova Sra. Baranov— disse, e a sala inteira repetiu. Senti o nome pesar. Como uma coroa invisível sobre a cabeça. Após os brindes, uma banda começou a tocar algo suave. Viktor estendeu a mão. — Será que a moça mais linda do salão, aceita dançar? — Eu não danço! —respondi polida. — Uma bailarina que não dança... Bem, eu posso te obrigar... Aceitei. O salão parecia suspenso no tempo, só havia o som distante das notas e o calor das pessoas presentes. Os dedos dele tocaram os meus, e tudo dentro de mim se contraiu. Ele me guiava com precisão, como se a dança fosse apenas mais uma negociação que sabia vencer. Mas, de algum modo, aquele movimento — lento, compassado, quase terno — começou a mudar o ritmo do ar. Mexendo comigo de um jeito que eu não entendia muito bem. — Ainda tem medo? — perguntou. — Devia? — Talvez. — Um leve sorriso. — Mas, essa noite... não queria minha esposa com medo de mim... acho que o certo seria, olhar em seus olhos e enxergar...desejo. —Impossível! —Sorri com desdém. A música cessou. Por um instante, ficamos imóveis. Ele parecia digerir a minha resposta. Viktor me parece muito gostar de desafios. Os convidados começaram a se dispersar, o barulho das taças e das risadas se misturavam. Viktor se aproximou e sussurrou, próximo ao meu ouvido: — Amanhã começa a verdadeira vida, Ívyna. Esta noite… apenas selamos o destino. O nosso destino... juntos. Olhei para ele, e o azul dos olhos pareceu mais profundo que o céu. Assenti sem dizer nada. Talvez porque, naquele instante, compreendi o que ele quis dizer na véspera — sobre liberdade atrás das grades. Saí do salão com o coração acelerado, a aliança pesando alguns quilos no meu dedo. O símbolo da fé, do amor, dos votos... Ou da prisão. Dependeria apenas de como eu aprenderia a caminhar ao lado do homem que agora chamavam de meu marido. Meu marido... Mal dava para acreditar em toda essa Parafernalha... Como vim parar aqui? Esse é literalmente, o preço que pago pelo pecado dos outros.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD