Ívyna
O vento naquela noite era frio o bastante para fazer meu corpo se encolher dentro do vestido, mas não a ponto de dispersar o calor que vinha de dentro — aquele calor nervoso, inquieto, que me acompanhava desde o instante em que ele avisou que iríamos jantar juntos.
Estava sendo obrigada... Não havia espaço para escolhas.
O topo da mansão era quase outro mundo.
O último andar se abria para um terraço cercado por colunas de mármore branco, e entre elas, cortinas leves balançavam como véus em uma dança silenciosa.
Lá embaixo, Moscou era um mar de luzes douradas e frias. Lá em cima, apenas o som do vento e o brilho da lua.
No centro, uma mesa para dois, coberta por um linho bege, velas altas e taças de cristal que refletiam as estrelas.
Viktor sorriu ao meu lado, e eu esperava de coração que ele pagasse os responsáveis por isso muito bem.
Ele parecia esculpido para aquele cenário, o terno preto perfeitamente ajustado, o cabelo loiro penteado para trás, os olhos de um azul que não pertencia à terra. Uma tatuagem escura escapava do colarinho da camisa e subia pelo pescoço, como uma assinatura perigosa de quem ele realmente é... Me trazendo a memória que meu noivo não é qualquer homem.
— Espero que goste — disse ele, sem olhar. A voz era baixa, mas cortante como o ar da noite.
— Aqui é... lindo. Visualmente, já me agradou — respondi, tentando manter o tom firme.
— Fico feliz, alias... nosso primeiro jantar de muitos, a primeira impressão é a que fica — Só então virou o rosto, e o sorriso breve que deu foi suficiente para me fazer esquecer o motivo pelo qual eu o odiava.
Sentei-me quando ele puxou a cadeira, e em seguida se sentou na minha frente. Um empregado apareceu, silencioso, trazendo pratos que exalavam aromas fortes — carne ao molho escuro, legumes grelhados, vinho tinto que parecia sangue sob a luz das velas. Viktor fez um gesto para dispensá-lo, e o homem desapareceu como um silêncio que não achei ser possível.
Ficamos em silêncio por alguns instantes. Ele me observava, e eu fingia não perceber. Não queria dar ideia a ele, isso era o fato.
O som distante de um piano vinha de algum lugar da mansão, e as cortinas balançavam com a brisa fresca da noite.
Eu queria dizer algo, qualquer coisa, mas a língua parecia pesada.
— Você está com medo? — ele perguntou de repente, inclinando a cabeça.
— Não — menti. Claro que estava! Me casaria com ele amanhã... e tudo o que sei a respeito dele eram... horripilantes.
Ele riu, um som curto e rouco.
— Você mente m*l, dorogaya —eu o olhei com o cenho franzido —Quer dizer, querida em Russo.
Senti o rosto queimar.
— Não sou sua querida — retruquei, e ele arqueou a sobrancelha.
— Ainda não.
A tranquilidade com que disse isso me fez querer levantar e ir embora. Mas minhas pernas estavam presas ao chão.
Ou talvez fosse o olhar dele que me prendia ali de alguma forma.
Peguei o garfo apenas para ter algo com que ocupar as mãos.
A carne estava macia, o vinho doce e quente, mas o gosto se misturava ao meu nervosismo, e eu jurava que a qualquer momento vomitaria de nervosismo.
— Por que eu? — perguntei, antes que perdesse a coragem. — Havia outras formas de resolver a dívida do meu pai.
Viktor apoiou o cotovelo na mesa e encostou o queixo na mão.
— Outras formas, sim. Mas nenhuma tão… interessante.
— Interessante?
— Você é bonita, Ívyna. Inteligente. E não parece o tipo de mulher que se dobra fácil. — Ele inclinou-se um pouco, como quem examina uma obra de arte. — Gosto de coisas que resistem antes de ceder.
Engoli em seco, tentando não desviar o olhar.
— Isso é uma confissão ou um aviso?
Ele sorriu, lento.
— Talvez os dois.
Silêncio. O vento soprou mais forte, fazendo as velas tremularem.
Viktor ergueu a taça de vinho e a girou entre os dedos longos.
— Sabe o que vejo quando me olha? — Bebeu um gole. — Vejo medo misturado com desprezo, e talvez um pouco de... desafio, e eu me pego pensando em quanto terei que me desdobrar pra te colocar na linha... Gosto disso.
— Interessante como funciona a sua mente— retruquei. — Para mim você é só um homem doente, que usa tudo isso — olhei ao redor — para compensar o tamanho do que tem entre as pernas.
Sim, estava ousada...
Talvez assim ele me devolvesse para meu pai...
Ou me mataria.
Dessa vez, ele não riu. Apenas pousou a taça, observando-me com algo diferente nos olhos.
— O que tenho entre as pernas, com toda a certeza vai ser motivo de muitos gemidos em nosso quarto, querida. — Sua voz era mais baixa agora, me acertando fundo e me deixando nervosa. — Não tento compensar nada, tenho exatamente o que mereço, e uso porque é do meu direito.
— Difícil entender e acreditar nas palavras de alguém que compra uma esposa...
Não evito retrucar mais uma vez.
— E, no entanto, está aqui — disse ele, calmamente. — Jantando comigo. Vestida como se tivesse escolhido estar.
Não consegui responder.
Ainda mais porque a cabeça dele parece viver num mundo aleatório. Estou vestida do jeito que ele exigiu, e jantando com ele para não acabar sendo morta.
O homem à minha frente era um mistério perigoso, e mesmo sabendo o risco, parte de mim queria decifrá-lo.
Ele mudou de assunto com naturalidade, como se tivesse notado meu desconforto.
— Gosta de vinho? — perguntou.
— Não muito.
— Então vai aprender. — Encheu novamente minha taça. — Casar comigo tem seus custos, mas também suas recompensas.
— Recompensas? — ergui a sobrancelha.
— Proteção. Luxo. Liberdade.
Ri, amarga.
— Liberdade?
— Acredite, Ívyna, há liberdade aqui.
Olhei para ele e vi que falava sério. Havia algo no tom, uma melancolia breve, escondida sob o controle. Talvez ele acreditasse mesmo nisso.
Viktor se levantou e caminhou até a beira do terraço.
A cidade se refletia nos olhos dele, e por um instante, parecia um homem comum, apenas cansado. Mas bastou virar-se de novo para que a impressão sumisse.
— Amanhã tudo muda — disse. — Você se tornará minha esposa diante de todos. O que sente sobre isso?
Fiquei muda por um instante.
O vento brincava com meu cabelo, e o som do piano distante parecia vir de dentro do peito.
— Não sei o que sinto — admiti, enfim. — Talvez medo. Talvez raiva.
Ele assentiu lentamente.
— Medo é bom. Mantém as pessoas vivas.
— E você? O que sente? — arrisquei.
— Curiosidade — respondeu, aproximando-se. — E um pouco de impaciência.
Ele parou atrás de mim.
Pude sentir sua presença antes mesmo de vê-lo, o perfume amadeirado, o calor que emanava do corpo dele.
Meu coração batia alto demais.
— Você não precisa me temer, Ívyna — murmurou próximo ao meu ouvido. — A menos que queira.
Fechei os olhos por um instante, lutando contra o arrepio que subiu pela minha pele.
Quando abri, ele já estava novamente sentado, tranquilo, como se nada tivesse acontecido.
— Diga-me — retomou, casual —, o que você espera de mim?
— Nada — respondi rápido demais.
— Mentira — disse ele, sorrindo. — Todo mundo espera algo. Mesmo que seja o pior.
Pegou o guardanapo e limpou os lábios, com um gesto calmo demais para a tensão que flutuava no ar.
— Amanhã, quando disser “sim”, quero que olhe para mim — disse. — Não para o padre, nem para o chão. Para mim. Quero ver o que há nesses olhos quando perceber que o destino está selado.
— Você gosta de controlar tudo, não é?
— Gosto de saber onde piso. E de quem pisa ao meu lado.
— E se eu fugir?
— Vai me obrigar a ir atrás de você — respondeu sem hesitar. — E eu sempre encontro o que é meu.
O jeito que disse meu fez meu estômago revirar — e não apenas de medo, tinha algo estranho e distorcido dentro de mim, e eu custava a entender.
Desviei o olhar, tentando concentrar-me nas estrelas. Elas pareciam tão distantes, tão indiferentes às nossas vidas presas em acordos e promessas quebradas.
Por um tempo, nenhum de nós falou.
A música, o vento, o vinho… tudo formava uma quietude que beirava o feitiço.
Então ele se inclinou e quebrou o silêncio:
— Sabe o que é curioso, Ívyna? No início pensei em te fazer sofrer, só para atingir seu pai... Mas agora estou tentado em fazer você muito feliz.
— Não vai fazer, Viktor, não tenho nada além de ódio por você.
— Vamos ver até onde esse ódio vai.
As palavras ficaram pairando no ar, como fumaça. Não soube se era ameaça, constatação ou confissão.
Quando terminei o vinho, Viktor se levantou e veio até mim.
Estendeu a mão — o gesto era firme, quase formal.
— Venha. Quero te mostrar algo.
Hesitei, mas coloquei a mão na dele. A pele era quente, os dedos marcados por cicatrizes finas, e a força contida naquele toque me fez esquecer de respirar.
Ele me conduziu até a borda do terraço.
Abaixo de nós, a cidade inteira pulsava.
— Veja — disse ele. — Moscou. Toda a seus pés, é o preço de casar comigo.
— Nem tudo vale o preço — murmurei.
— Depende do comprador. — Olhou para mim, e seu olhar era tão intenso que precisei desviar.
Ficamos ali por longos minutos, lado a lado, o vento nos envolvendo.
E, pela primeira vez, vi algo quebrar na expressão dele.
— Quero que durma bem essa noite — disse, enfim. — a próxima noite, não te deixarei dormir.
Algo em mim se agitou.
Ele levou minha mão aos lábios e beijou-a com delicadeza. Um gesto antigo, cavalheiresco — e, ao mesmo tempo, uma marca invisível.
Quando ele se afastou, o lugar pareceu grande demais, silencioso demais.
Olhei para a taça vazia, para o céu pontilhado de estrelas e percebi que, mesmo envolta pelo medo, algo em mim já começava a girar em torno dele.
Não amor.
Não ainda.
Mas o prenúncio perigoso de algo que eu não sabia nomear.