Perigoso, sensual... mas perigoso.

1734 Words
Ívyna O vento naquela noite era frio o bastante para fazer meu corpo se encolher dentro do vestido, mas não a ponto de dispersar o calor que vinha de dentro — aquele calor nervoso, inquieto, que me acompanhava desde o instante em que ele avisou que iríamos jantar juntos. Estava sendo obrigada... Não havia espaço para escolhas. O topo da mansão era quase outro mundo. O último andar se abria para um terraço cercado por colunas de mármore branco, e entre elas, cortinas leves balançavam como véus em uma dança silenciosa. Lá embaixo, Moscou era um mar de luzes douradas e frias. Lá em cima, apenas o som do vento e o brilho da lua. No centro, uma mesa para dois, coberta por um linho bege, velas altas e taças de cristal que refletiam as estrelas. Viktor sorriu ao meu lado, e eu esperava de coração que ele pagasse os responsáveis por isso muito bem. Ele parecia esculpido para aquele cenário, o terno preto perfeitamente ajustado, o cabelo loiro penteado para trás, os olhos de um azul que não pertencia à terra. Uma tatuagem escura escapava do colarinho da camisa e subia pelo pescoço, como uma assinatura perigosa de quem ele realmente é... Me trazendo a memória que meu noivo não é qualquer homem. — Espero que goste — disse ele, sem olhar. A voz era baixa, mas cortante como o ar da noite. — Aqui é... lindo. Visualmente, já me agradou — respondi, tentando manter o tom firme. — Fico feliz, alias... nosso primeiro jantar de muitos, a primeira impressão é a que fica — Só então virou o rosto, e o sorriso breve que deu foi suficiente para me fazer esquecer o motivo pelo qual eu o odiava. Sentei-me quando ele puxou a cadeira, e em seguida se sentou na minha frente. Um empregado apareceu, silencioso, trazendo pratos que exalavam aromas fortes — carne ao molho escuro, legumes grelhados, vinho tinto que parecia sangue sob a luz das velas. Viktor fez um gesto para dispensá-lo, e o homem desapareceu como um silêncio que não achei ser possível. Ficamos em silêncio por alguns instantes. Ele me observava, e eu fingia não perceber. Não queria dar ideia a ele, isso era o fato. O som distante de um piano vinha de algum lugar da mansão, e as cortinas balançavam com a brisa fresca da noite. Eu queria dizer algo, qualquer coisa, mas a língua parecia pesada. — Você está com medo? — ele perguntou de repente, inclinando a cabeça. — Não — menti. Claro que estava! Me casaria com ele amanhã... e tudo o que sei a respeito dele eram... horripilantes. Ele riu, um som curto e rouco. — Você mente m*l, dorogaya —eu o olhei com o cenho franzido —Quer dizer, querida em Russo. Senti o rosto queimar. — Não sou sua querida — retruquei, e ele arqueou a sobrancelha. — Ainda não. A tranquilidade com que disse isso me fez querer levantar e ir embora. Mas minhas pernas estavam presas ao chão. Ou talvez fosse o olhar dele que me prendia ali de alguma forma. Peguei o garfo apenas para ter algo com que ocupar as mãos. A carne estava macia, o vinho doce e quente, mas o gosto se misturava ao meu nervosismo, e eu jurava que a qualquer momento vomitaria de nervosismo. — Por que eu? — perguntei, antes que perdesse a coragem. — Havia outras formas de resolver a dívida do meu pai. Viktor apoiou o cotovelo na mesa e encostou o queixo na mão. — Outras formas, sim. Mas nenhuma tão… interessante. — Interessante? — Você é bonita, Ívyna. Inteligente. E não parece o tipo de mulher que se dobra fácil. — Ele inclinou-se um pouco, como quem examina uma obra de arte. — Gosto de coisas que resistem antes de ceder. Engoli em seco, tentando não desviar o olhar. — Isso é uma confissão ou um aviso? Ele sorriu, lento. — Talvez os dois. Silêncio. O vento soprou mais forte, fazendo as velas tremularem. Viktor ergueu a taça de vinho e a girou entre os dedos longos. — Sabe o que vejo quando me olha? — Bebeu um gole. — Vejo medo misturado com desprezo, e talvez um pouco de... desafio, e eu me pego pensando em quanto terei que me desdobrar pra te colocar na linha... Gosto disso. — Interessante como funciona a sua mente— retruquei. — Para mim você é só um homem doente, que usa tudo isso — olhei ao redor — para compensar o tamanho do que tem entre as pernas. Sim, estava ousada... Talvez assim ele me devolvesse para meu pai... Ou me mataria. Dessa vez, ele não riu. Apenas pousou a taça, observando-me com algo diferente nos olhos. — O que tenho entre as pernas, com toda a certeza vai ser motivo de muitos gemidos em nosso quarto, querida. — Sua voz era mais baixa agora, me acertando fundo e me deixando nervosa. — Não tento compensar nada, tenho exatamente o que mereço, e uso porque é do meu direito. — Difícil entender e acreditar nas palavras de alguém que compra uma esposa... Não evito retrucar mais uma vez. — E, no entanto, está aqui — disse ele, calmamente. — Jantando comigo. Vestida como se tivesse escolhido estar. Não consegui responder. Ainda mais porque a cabeça dele parece viver num mundo aleatório. Estou vestida do jeito que ele exigiu, e jantando com ele para não acabar sendo morta. O homem à minha frente era um mistério perigoso, e mesmo sabendo o risco, parte de mim queria decifrá-lo. Ele mudou de assunto com naturalidade, como se tivesse notado meu desconforto. — Gosta de vinho? — perguntou. — Não muito. — Então vai aprender. — Encheu novamente minha taça. — Casar comigo tem seus custos, mas também suas recompensas. — Recompensas? — ergui a sobrancelha. — Proteção. Luxo. Liberdade. Ri, amarga. — Liberdade? — Acredite, Ívyna, há liberdade aqui. Olhei para ele e vi que falava sério. Havia algo no tom, uma melancolia breve, escondida sob o controle. Talvez ele acreditasse mesmo nisso. Viktor se levantou e caminhou até a beira do terraço. A cidade se refletia nos olhos dele, e por um instante, parecia um homem comum, apenas cansado. Mas bastou virar-se de novo para que a impressão sumisse. — Amanhã tudo muda — disse. — Você se tornará minha esposa diante de todos. O que sente sobre isso? Fiquei muda por um instante. O vento brincava com meu cabelo, e o som do piano distante parecia vir de dentro do peito. — Não sei o que sinto — admiti, enfim. — Talvez medo. Talvez raiva. Ele assentiu lentamente. — Medo é bom. Mantém as pessoas vivas. — E você? O que sente? — arrisquei. — Curiosidade — respondeu, aproximando-se. — E um pouco de impaciência. Ele parou atrás de mim. Pude sentir sua presença antes mesmo de vê-lo, o perfume amadeirado, o calor que emanava do corpo dele. Meu coração batia alto demais. — Você não precisa me temer, Ívyna — murmurou próximo ao meu ouvido. — A menos que queira. Fechei os olhos por um instante, lutando contra o arrepio que subiu pela minha pele. Quando abri, ele já estava novamente sentado, tranquilo, como se nada tivesse acontecido. — Diga-me — retomou, casual —, o que você espera de mim? — Nada — respondi rápido demais. — Mentira — disse ele, sorrindo. — Todo mundo espera algo. Mesmo que seja o pior. Pegou o guardanapo e limpou os lábios, com um gesto calmo demais para a tensão que flutuava no ar. — Amanhã, quando disser “sim”, quero que olhe para mim — disse. — Não para o padre, nem para o chão. Para mim. Quero ver o que há nesses olhos quando perceber que o destino está selado. — Você gosta de controlar tudo, não é? — Gosto de saber onde piso. E de quem pisa ao meu lado. — E se eu fugir? — Vai me obrigar a ir atrás de você — respondeu sem hesitar. — E eu sempre encontro o que é meu. O jeito que disse meu fez meu estômago revirar — e não apenas de medo, tinha algo estranho e distorcido dentro de mim, e eu custava a entender. Desviei o olhar, tentando concentrar-me nas estrelas. Elas pareciam tão distantes, tão indiferentes às nossas vidas presas em acordos e promessas quebradas. Por um tempo, nenhum de nós falou. A música, o vento, o vinho… tudo formava uma quietude que beirava o feitiço. Então ele se inclinou e quebrou o silêncio: — Sabe o que é curioso, Ívyna? No início pensei em te fazer sofrer, só para atingir seu pai... Mas agora estou tentado em fazer você muito feliz. — Não vai fazer, Viktor, não tenho nada além de ódio por você. — Vamos ver até onde esse ódio vai. As palavras ficaram pairando no ar, como fumaça. Não soube se era ameaça, constatação ou confissão. Quando terminei o vinho, Viktor se levantou e veio até mim. Estendeu a mão — o gesto era firme, quase formal. — Venha. Quero te mostrar algo. Hesitei, mas coloquei a mão na dele. A pele era quente, os dedos marcados por cicatrizes finas, e a força contida naquele toque me fez esquecer de respirar. Ele me conduziu até a borda do terraço. Abaixo de nós, a cidade inteira pulsava. — Veja — disse ele. — Moscou. Toda a seus pés, é o preço de casar comigo. — Nem tudo vale o preço — murmurei. — Depende do comprador. — Olhou para mim, e seu olhar era tão intenso que precisei desviar. Ficamos ali por longos minutos, lado a lado, o vento nos envolvendo. E, pela primeira vez, vi algo quebrar na expressão dele. — Quero que durma bem essa noite — disse, enfim. — a próxima noite, não te deixarei dormir. Algo em mim se agitou. Ele levou minha mão aos lábios e beijou-a com delicadeza. Um gesto antigo, cavalheiresco — e, ao mesmo tempo, uma marca invisível. Quando ele se afastou, o lugar pareceu grande demais, silencioso demais. Olhei para a taça vazia, para o céu pontilhado de estrelas e percebi que, mesmo envolta pelo medo, algo em mim já começava a girar em torno dele. Não amor. Não ainda. Mas o prenúncio perigoso de algo que eu não sabia nomear.
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