Ívyna Baranov
O quarto era grande demais. Frio demais. Bonito demais pra uma noite que nunca pedi... Não me confortava em nada, me deixava nervosa na verdade.
O vestido pesava nos ombros, e o tecido, mesmo leve, parecia grudar na pele como se o próprio ar quisesse me lembrar que agora nada mais era meu, não que em algum momento eu tivesse tido uma vida... mas ainda tinha o piano para tocar, fugir..
Caminhei devagar, observava cada canto do lugar, lugar esse que agora dormiria, ao lado do que deveria ser meu marido, quer dizer, no papel ele é... Mas aos meus olhos, era um inimigo.
Havia flores. Lírios brancos nos vasos, guardanapos rendados sobre a cômoda, cortinas translúcidas deixando a luz da lua entrar em feixes que riscaram o chão. Tudo era belo, calculado, caro. E completamente vazio. Era isso, vazio, pois nada significava para mim.
Eu parei no centro do quarto e olhei ao redor, havia um espelho grande, e ele refletia uma mulher que eu quase não reconhecia. Cabelos presos com grampos de ouro, a maquiagem ainda intacta, o colar pesado no pescoço. E o olhar… o olhar parecia o de alguém que assiste o próprio destino de fora, como se nada daquilo fosse real. Eu assistia minha vida desmoronar.
Nunca beijaria aquele homem.
Nunca tocaria nele... não o deixaria me tocar... não, e não. Nunca e nunca! Não guardei meus lábios e meu corpo para um casamento torto e sem amor...
Essa certeza me atravessava como ferro quente. Ele podia ter me dado seu sobrenome — assim como fez com todas as coisas caras que possui, mas isso não significava que eu deveria me entregar... Não... isso não se compra, não de verdade.
Apertei o colar entre os dedos. As pedras frias pareciam zombar de mim, cintilando com o reflexo das velas. Sentei-me à penteadeira. A superfície de mármore era gelada, o suficiente pra me fazer arrepiar quando apoiei os antebraços.
A primeira joia que tirei foram os brincos. Caíram sobre o tampo com um som seco. Depois, o anel. O colar ficou por último, pesado, sufocante, como se cada pedra tivesse um olho.
Suspirei, tentando puxar o fecho, mas ele parecia travado. Tentei de novo, os dedos escorregando pela corrente.
Foi nesse instante que ouvi a porta se abrir. O som leve, a trava girando, o estalar quase inaudível. O coração bateu tão forte que senti o sangue subir.
Viktor entrou, o perfume já se fazendo presente enquanto se aproximava. Ele fechou a porta atrás de si, e o clique da maçaneta pareceu definitivo demais.
— Me deixe te ajudar. — a voz dele veio calma, suave, quase afetuosa, podendo enganar, não a mim! Imaginei que jogaria sujo, pareceria um bom moço para ter o que quer.
Minhas mãos pararam no ar. O espelho me devolveu a imagem dele se aproximando, e eu não me movi. Não porque queria ficar parada, mas porque não sabia se conseguiria respirar se tentasse, e se ele permitiria também.
Viktor veio até mim devagar, o reflexo dos olhos dele se fixando nos meus pelo espelho. Parou atrás da cadeira, tão perto que senti o calor da mão dele antes que me tocasse.
— Não canso de te olhar, acho que escolhi muito bem a minha esposa... Você agrada os meus olhos, Ívyna — disse baixo, e a frase, embora dita com cuidado, soou como uma forma de poder — Espero que me agrade de todos os jeitos, não penso em fazer diferente. Emobar os motivos do casamento não tenham sido... convencional, quero ser um bom marido.
Senti quando os dedos dele tocaram os grampos do meu cabelo. Movimentos lentos, precisos. Um a um, os prendedores foram se soltando, e a cada toque, uma mecha de meus cabelos caía sobre meus ombros. O gesto dele era cuidadoso, quase reverente. Mas aquilo não o tornava gentil. Tornava-o muito mais perigoso.
Ele continuou desfazendo o penteado, e eu observava no espelho, imóvel, cada fio de cabelo descendo, cada respiração dele perto do meu ouvido. Quando terminou, afastou os fios para o lado e olhou o colar.
— Posso? — perguntou.
Assenti, e o fecho finalmente se abriu entre os dedos dele. As pedras deslizaram pela minha pele até repousarem em suas mãos. Ele as observou por um momento, depois as deixou sobre a penteadeira.
— Você deve estar cansada. — disse, quase num sussurro.
Não respondi. Só o olhei pelo espelho. Ele se afastou um passo, e por um segundo achei que fosse desmaiar ali na cadeira, finalmente soltei o ar que nem percebi ter prendido. Viktor tocou meu ombro e fez um leve gesto com a cabeça.
— Vem comigo. Tenho algo para você.
Levantei. O chão estava frio sob meus pés quando tirei o sapato. A mão dele pousou nas minhas costas, guiando-me até a porta lateral do quarto. O corredor curto levava ao banheiro, e quando entrei, o ar mudou. O vapor leve subia da banheira já cheia. Havia pétalas de rosas boiando na água quente, e velas acesas. A luz tremulava, dançando nas paredes. O aroma de champanhe e flor invadia o ar. A cena era linda, não passava de um teatro. Ele queria uma forma de adentrar no meu psicológico, e eu tinha que me segurar para não cair nisso. Principalmente por não ter tido tanto afeto durante a vida, e isso poderia ser uma fraqueza minha... Ser ganha por simples gestos carinhosos.
Viktor parou atrás de mim. Eu olhava a banheira, o reflexo das chamas nos azulejos, e tentei ignorar a sensação de que poderia ser fraca e cair nesse jogo... Mas e se caísse, o que perderia? Eu já perdi, certo? Perdi minha vida, liberdade...
O toque veio de leve — me tirando de meus pensamentos — as mãos dele alcançando o fecho do vestido. O som do zíper descendo devagar, o tecido cedendo. A pele arrepiou sob o toque do ar.
Os lábios dele tocaram meu ombro. Um beijo só. Suave. E gelado. Por um instante, o tempo pareceu parar. E eu quis estar em qualquer outro lugar. Viktor manteve o rosto perto, a respiração batendo na minha nuca.
— Não quero apressar nada. — murmurou. — Apenas quero que relaxe.
As palavras caíram como água morna, e talvez por isso fossem tão perigosas. O tom dele era de quem fala a verdade, mas eu sabia que havia uma armadilha na calmaria, e ainda precisava juntar forças para não cair... Lá no fundo desejava ser tratada como uma princesa, ser amada... me sentir segura... E isso tudo o que ele fazia, confundia a minha mente, pois me fazia sentir essas coisas, pouco a pouco.
Ele deu um passo ao lado, contornou-me até ficar de frente.
— Vista isso. — disse, apontando para um biquíni de tecido branco dobrado sobre uma cadeira. — Quero que se sinta confortável, não quero fazer nada contra a sua vontade, não farei nada que te deixe desconfortável... Eu vou esperar lá fora, vou te dar uns minutos.
Ele roçou o meu rosto com as costas da mão, me olhou como se olhasse algo muito precioso, sorriu e se afastou. A porta se fechou devagar.
Fiquei parada por um tempo, ouvindo o som das próprias batidas do coração. O silêncio era tão denso que parecia um som em si.
Aproximei-me da banheira. O vapor subia como um véu, e o cheiro das pétalas era doce demais. Tirei toda a roupa, dobrando com cuidado, e fiquei ali, nua, por um instante, sentindo o frio e o calor brigarem sobre a minha pele.
Olhei o biquíni.
A peça parecia inocente, mas nada nela era simples. Era parte do jogo. Parte da imagem que ele queria construir — de homem paciente, sofisticado, que sabe esperar o momento de possuir o que já considera dele. e eu já não sabia até onde conseguiria ir nisso tudo.
Vesti.
O tecido molhou um pouco quando o vapor tocou. Olhei-me no espelho do banheiro: os olhos estavam fundos, o rosto pálido, os lábios tremendo de leve. Sentei na beira da banheira. Toquei a água com a ponta dos dedos. Estava quente. Quente demais.
Entrei devagar, deixando que o calor me cobrisse aos poucos, como um manto pesado. As pétalas grudaram na pele, e o cheiro das flores ficou mais forte. Encostei a cabeça na borda, tentando não pensar em nada. Mas era impossível não pensar. Fiquei assim por alguns minutos, aproveitando a água.
A porta se abriu outra vez. Viktor voltou, sem pressa. Deixou a garrafa e as taças sobre a mesinha e se aproximou. Ele vestia apenas a camisa branca aberta no peito. A luz das velas tocava o rosto dele, e o brilho dourado dos olhos parecia mais quente do que o fogo.
— Posso? — perguntou de novo, e o modo como ele perguntou me desconcertou.
Não porque soava gentil, mas porque, por um instante, quase acreditei que fosse. Assenti com a cabeça, sem dizer palavra.
Ele se agachou ao lado da banheira. A mão dele tocou a água, como se testasse a temperatura. Depois pegou a taça, serviu champanhe e me estendeu.
— A noite é nossa, Ívyna. — disse, baixo. — E prometo... nada que você não queira...
Olhei para a taça, depois para ele. E naquele instante, o que me assustou não foi a promessa — foi o fato de que talvez ele acreditasse nela.
Bebi um gole. O gosto era doce. As bolhas estouravam devagar na língua. Viktor passou a mão pelos meus cabelos, afastando os fios do meu rosto. O toque era leve, respeitoso, e mesmo assim, cada dedo dele parecia um grilhão. Ele não disse mais nada. Ficou ali, em silêncio, apenas olhando. E eu também olhei. Havia um abismo, quieto, entre nós. Eu sabia que ele poderia cruzar aquele espaço quando quisesse.
Mas, por algum motivo, ele não o fez.
E esse talvez tenha sido o gesto mais perigoso de todos.