Me Confunde

1860 Words
Ívyna Baranov O som da água era o único ruído que se ouvia por ali. Pequenas ondas batiam nas bordas da banheira, e o reflexo das velas tremulava na superfície, quebrando a imagem em fragmentos dourados. O vapor subia leve, como um véu. Eu me sentia dentro de um sonho — um daqueles que não são pesadelos, mas ainda assim tiram o sono. Desagradáveis. Viktor ainda estava ali. Observava-me com a calma perigosa de quem mede o tempo. A taça entre os dedos girava devagar, e o champanhe refletia a luz das velas em tons de âmbar. Então, de repente, ele começou a cantar. Era uma melodia baixa, em russo. As palavras, que eu não entendia, soavam como murmúrios carregados de... talvez saudade. Havia algo triste naquela voz, uma tristeza profunda, abafada, escondida sob camadas de orgulho. Isso me confunde. Fechei os olhos por um instante, sem querer. O timbre dele era denso, e parecia se espalhar pelo ambiente, misturando-se ao ar quente. Eu não queria gostar, mas havia beleza ali. Daquelas que machucam. Das que tocam profundo na alma. Abri os olhos e o vi olhando para mim enquanto cantava, o que fez o ar pesar de novo. O olhar dele não era o de um homem apaixonado, nem de um homem c***l. Era o de alguém que sabe o poder que tem sobre o silêncio do outro. Olhar de quem sabe exatamente o que está fazendo. Quando a canção terminou, ele pousou a taça sobre um aparador. — Uma velha canção que minha mãe costumava cantar para mim — disse, e a voz soou quase humana, por um momento. — Fala sobre o inverno e o mar. Sobre um homem que perde tudo, menos a vontade de viver, amar... Assenti sem saber o que responder. — É bonita — murmurei. Ele sorriu de leve. — Bonita... eu sei. O olhar dele desceu até a água, depois voltou para mim. Sem aviso, levantou-se. — O vapor está bom, convidativo — disse, com simplicidade. — Acho que vou me juntar a você. Meu corpo reagiu antes da mente. Um arrepio percorreu-me da nuca aos pés, e não soube se era medo ou nervosismo. Ele caminhou até o cabideiro, tirou a camisa, sem pressa. Cada gesto dele parecia ensaiado, preciso, quase teatral. Não havia luxúria. Havia domínio. Viktor sabia bem o que fazer, onde pisar, e o que falar. Isso me fazendo recordar que não era a toa ele ser chefe de uma organização criminosa. A luz das velas desenhava sombras no peito dele, e eu desviei o olhar. Quis olhar para qualquer outro lugar, mas o reflexo da água me traía, mostrava partes do que eu tentava não ver. — Não precisa se assustar, Ívyna — disse ele, firme, com unm riso anasalado ao fim da frase — Eu não sou um monstro. A frase ficou pairando no ar como a fumaça de um cigarro. Entrou na banheira com cuidado, o som da água se misturando à respiração contida que eu não conseguia controlar. Ele se acomodou do lado oposto, e o silêncio se fez de novo, grosso, quase palpável. Pegou a taça de champanhe e bebeu um gole. Depois, olhou-me com uma expressão branda — tão branda que me confundiu. — Posso? — perguntou, estendendo a mão em direção ao meu pé. Demorei a entender o que ele queria. Hesitei. Mas o olhar dele não era o de alguém pedindo, era o de quem espera que o outro aceite porque já decidiu. Assenti, num gesto pequeno. A água se moveu quando ele aproximou as mãos. Tocou o meu tornozelo com uma delicadeza quase impossível de associar àquele homem. O calor das mãos dele misturou-se ao da água, e então ele levou meu pé até os lábios e destribuiu beijos, meu estômago gelou, ele começou a massagear devagar, como se quisesse desfazer o medo que ele mesmo havia criado em mim. — Você está tremendo, acho que seu pai fez um ótimo trabalho ao falar de mim, conseguiu te deixar com medo— comentou, sem olhar para mim. — Estou entre gostar disso, e odiar... Te sentir tremer é bom, mas não queria que fosse por medo. Sorri de leve, sem humor. — Não sou um monstro, e estou cansando de repetir isso — retrucou apoiando meu pé em seu peitoral — Tinha que ter aprendido a ler as pessoas, Ívyna, saberia exatamente o que penso enquanto olho pra você — ele suspira, os olhos ainda em mim, a massagem leve no tornozelo, ficando em silêncio por um tempo — Sei que me casei com você por motivos errados — disse, finalmente. — Sei que parece imperdoável. Fiquei em silêncio, observando o reflexo das chamas sobre a superfície da banheira. — Por que diz isso agora? — perguntei. — Por culpa? — Por honestidade. — Ele levantou o olhar, fixando-o no meu. — O que eu tirei do seu pai foi poder, não amor. E o poder… sempre muda de dono. A frase era perigosa, mas o tom era manso. Ele deixou escapar um sorriso quase triste. — Eu não quero ser odiado, Ívyna. Pelo menos, não por você. Soltei um riso pequeno, sem vontade. — É tarde pra isso, não acha? — Talvez. — Ele inclinou a cabeça, como quem concorda com uma criança teimosa. — Sim, talvez não... As mãos dele continuavam no mesmo ritmo lento, e o toque já não doía. Era estranho, porque o corpo parecia esquecer por um momento o motivo da tensão. Só a mente lembrava — e se agarrava a isso como podia. — Eu não sou um homem bom — disse ele, após um tempo. — Mas também não sou um demônio. Faço o que precisa ser feito. — Às custas de quem? — perguntei, esquecendo que ele poderia apenas me eliminar se quisesse. — Às custas do mundo. — Ele sorriu, breve. — nunca será as suas custas, prometo. Olhei para ele, sem saber se tinha mais medo do que via ou do que sentia. Havia verdade em suas palavras, e talvez fosse isso que me assustava mais. — Então o que você quer de mim? — perguntei. — Ele pareceu pensar por um momento. — Quero que seja a minha esposa, que me veja como eu sou. Não como o homem que dizem que eu sou. — E quem é você, Viktor? Já que eu o vejo da forma que todos veêm... — Alguém que aprendeu a sobreviver. E, talvez, alguém que queira te ensinar o mesmo. O vapor subia entre nós como névoa. A voz dele soava distante, e ao mesmo tempo próxima demais. Eu o observava enquanto ele falava, tentando encontrar o limite entre a verdade e a mentira, mas em Viktor, as duas coisas pareciam morar no mesmo lugar. Ele soltou meu pé, devagar, como quem devolve algo valioso ao seu devido lugar. — Sabe o que mais gosto em você? — perguntou. Balancei a cabeça. — O silêncio. Você não fala para preencher o vazio. Você o escuta. E fala quando necessário... Só o necessário. E eu gosto, me dá paz. As palavras me atingiram de um jeito estranho. Talvez porque ninguém nunca tivesse notado isso. Ou talvez porque fosse mentira, dita com precisão suficiente pra parecer verdade. Ele voltou a beber o champanhe. — A vida é feita de alianças, Ívyna. Algumas nascem do amor, outras da necessidade. A nossa… ainda pode ser as duas coisas. O modo como ele disse “ainda” me arrepiou. Desviei o olhar, fingindo interesse nas pétalas que boiavam na água. — Você fala como se tudo fosse negociável, como se meu amor fosse negociável... — E não é? Pense, se eu esbarrace em você ao acaso por aí — isso me faz lembrar de Dmitri, nos esbarramos ao acaso — se tivesse me apresentado, perguntado seu nome, pego seu número — ele alarga um sorriso — se tivesse mandado mensagem, ligado a noite para jogar conversa fora. Se tivesse te chamado para sair, levasse flores... chocolates... Se eu fosse a uma apresentação sua, talvez duas... Te levado para jantar, te beijado com paixão, dito lindas palavras... você se entregaria a mim? Se entregaria a um príncipe que pinta seu mundo como um lugar perfeito e tranquilo? — ele se inclina levemente para frente e me olha com intensidade — Ainda discorda que o amor é negociável, Ívyna? Tudo é! O amor, o corpo, o coração, a alma... Até o ódio. O silêncio voltou, mas dessa vez não era o mesmo. Havia algo novo ali, uma trégua incômoda, quase íntima. Isso porque eu não discordava do que ele disse, ele estava certo, tudo vinha com condições, e condições são negociáveis. Viktor recostou-se na borda da banheira e fechou os olhos por um instante. A expressão dele suavizou, e, por um momento, vi um homem cansado, não o tirano. Talvez essa fosse a verdadeira manipulação, mostrar humanidade só o bastante para confundir. Me confunde! Quando ele abriu os olhos, voltou a me olhar. — Sabe o que eu pensei quando te vi pela primeira vez? — perguntou. Neguei com a cabeça. — Que eu seria capaz de fazer tudo isso, e ainda posso fazer... Eu percebi que você não pertencia a lugar nenhum. — Ele deu um meio sorriso. — E que eu poderia te oferecer um lugar. Mesmo com as coisas sendo desse jeito... — Uma prisão, isso que é — corrigi. — Um lar. — Ele não piscou. E a forma como disse “lar” fez a palavra doer. A vela mais próxima tremulou, e por um instante, pensei que o quarto inteiro pudesse se dissolver no vapor. Viktor pousou a taça, estendeu a mão e tocou meu rosto, só um toque, breve, sem pressão. — Quero que confie em mim, Ívyna. — Confiança não se exige. — Não estou exigindo. Estou pedindo. — ele sorri, e dessa vez me ilumina — estou aberto a negociar isso... A diferença entre as duas coisas parecia pequena demais. — Vou te dar espaço por hoje, até que confie em mim, até que me queira. Se inclinou mais uma vez em minha direção, só que dessa vez, se pôs entre as minhas pernas, e eu senti meu corpo queimar, a água ficando gelada em comparação ao calor entre nós dois. Suas mãos seguraram a borda da banheira, uma a cada lado de meu rosto. Os olhos fixos nos meus, ele se abaixou e por puro instinto engoli nada a seco e fechei os olhos, esperando sentir os lábios dele nos meus, como na cerimônia. Mas não veio. O beijo foi em minha testa, demorado... Quase terno. Ele se levantou da banheira e pegou uma toalha. A água escorreu pelos braços, pelas mãos, e pingou no chão. Antes de sair, virou-se de novo. — Durma bem. O café será servido às oito, uma das criadas vem lhe acordar. Nos vemos amanhã, minha querida. A porta se fechou. Fechei os olhos. O cheiro das rosas parecia mais forte, quase sufocante. Algo em mim se revirou, e eu já não entendia os motivos de não sentir ser o suficiente um beijo na testa.
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