Ívyna Baranov
O ar da tarde vinha morno, preguiçoso, com aquele cheiro de terra úmida e folhas recém-cortadas. O jardim da mansão parecia outro mundo, silencioso, cheio de sombras douradas e perfumes leves. Tínhamos acabado de almoçar, e acho que meu marido exagerava um pouco com a minha relação com o jardim. Eu amava passar o tempo ali, mas, todas as atividades eram ali agora, e a casa estava cheia de flores. Eu acho fofo. Mas estava sendo demais.
Viktor andava um passo à minha frente, as mãos dentro dos bolsos, vestido num conjunto de moleton cinza, ainda fazia um pouco de frio, e o olhar calmo, daquele tipo que parece estudar tudo, até o vento.
Eu não sei por que aceitei o convite. Andava aceitando todos os convites dele, e ele aceitou o primeiro que fiz... A noite passada, dormimos juntos, e foi bom acordar nos braços dele. Talvez isso me fez sair um pouco daquele clima denso da casa. Ou talvez fosse ele que era reconfortante demais para mim. Dormir foi tudo o que fizemos.
Reparava nele, e pedia a Deus para que ele não percebesse isso... Mas era só... Era irritante. E bonito ao mesmo tempo. A quem quero enganar? Viktor é um homem muito bonito. Me causava coisas...
— Estou me sentindo fuzilado — ele disse, olhando para uma das roseiras e sorriu, me deixando sem graça. — A Minha mãe passava horas plantando essas rosas quando estava viva. Dizem que o perfume delas muda de acordo com o humor de quem cuida...
Mudou de assunto, sem me dar a chance de dar alguma desculpa por estar olhando demais, porém, foi bom saber um pouco sobre ele.
— Por isso elas cheiram muito bem — soltei sem pensar.Ele riu. Eu pigarreei — porque sua mãe, deixou amor aqui... Por isso cheiram bem — tentei consertar o que disse.
Ele riu baixo, virando o rosto pra mim.
— Sinto que minha esposa acabou de flertar comigo.
Meu estômago gelou, eu quis negar, mas tudo o que consegui foi ficar calada.
— Ela passava horas aqui, e você, Ívyna, é a causa da minha reconexão com ela... Antes de você, eu evitava esse lugar. E agora... Bem, estou ressignificando.
Nesse momento eu fiquei, sem ar. Ele disse aquilo com tanto... tanto... Nossa... Foi sincero, e eu me senti feliz por ter feito algo bom e significativo para ele, mesmo sem querer.
Viktor se abaixou para pegar uma pétala caída. Os dedos longos, as veias marcadas, o cuidado no toque, tudo nele parecia calculado, mas sincero. Eu o observava sem querer, por mais uma vez. Havia algo em Viktor que me desarmava. Talvez fosse aquele contraste entre força e delicadeza, ou a paciência que estava tendo comigo. A paciência para entrar no meu coração.
— Você tem significado muitas coisas para mim, Ívyna... Mesmo em pouco tempo — ele quebrou o silêncio. — Eu me sinto mais... humano, mais próximo da realidade. Eu pensei em fazer seu pai perder, mas eu saí ganhando muito nisso tudo.
— Eu, não sei o que dizer... Acho que nunca me disseram coisas assim — a voz estava arrastada, estava tímida, ainda tentava entender esse turbilhão de coisas que se passavam dentro de mim.
Viktor levantou o olhar, e por um segundo, o ar entre nós ficou pesado.
— Não quero que tente dizer alguma coisa, seus olhos conversam comigo. É o suficiente.
A palavra saiu da boca dele lenta, como se arranhasse o espaço. Meu peito apertou.
Ele caminhou até uma das roseiras vermelhas, inclinando-se sobre ela. Cortou uma flor com os dedos, e antes que eu protestasse, veio até mim.
— Não precisa... — comecei, mas ele já estava perto demais.
Viktor afastou uma mecha do meu cabelo e prendeu a flor ali, bem atrás da orelha. O toque foi leve, mas meu corpo reagiu como se ele tivesse me incendiado.
— Você é a coisa mais preciosa que eu tenho — murmurou, a voz rouca, quase um sussurro. — estou dando o meu melhor para te fazer acreditar nisso.
Tentei responder, mas não consegui. O coração batia alto demais, como se denunciasse cada sentimento que eu tentava esconder.
— Não tem ideia do quanto estou me esforçando para acreditar em você — soltei de uma só vez, precisava dizer alguma coisa antes de buscar o ar.
— Está tudo bem, já vale de muita coisa.
Meu olhar encontrou o dele, e o tempo pareceu parar. Viktor me olhava com aquele tipo de atenção que pesa na pele. Nenhuma palavra, só um convite silencioso. Eu desviei o olhar primeiro, respirando fundo, tentando afastar a sensação de que, se continuasse ali, acabaria confessando coisas que nem eu entendia direito.
Caminhamos mais um pouco pelo jardim, em silêncio. O chão estava coberto de folhas secas, o sol escorria entre as árvores, tingindo o ar de cobre.
— Você devia sorrir mais — ele comentou, de repente. — Ainda não tive a chance de conhecer seu verdadeiro sorriso, mas acredito que seja lindo, como tudo em você.
— Vou me esforçar — respondi, meio rindo, meio séria — você, deveria parar de reparar tanto em mim.
— Mas é irresistível — disse. — Tem algo em você que parece pedir pra ser entendido, mesmo quando finge o contrário.
Ele não estava completamente errado. Fiquei em silêncio, observando um canteiro de lavandas à frente, tentando disfarçar o quanto aquela conversa mexia comigo, o quanto aos poucos ele conseguia adentrar nas minhas camadas, e isso me assusta.
Viktor, por outro lado, parecia tranquilo. Como se estivesse em casa dentro da minha confusão.
— Me diz uma coisa, Ívyna — ele parou e se virou pra mim. — Quando foi a última vez que você se permitiu sorrir de verdade?
A pergunta me pegou desprevenida, não existia motivos para sorrir na minha casa. Mamãe era sempre muito ríspida, grosseira... E papai trabalhava muito. Quase nunca estava por perto.
— Não sei... — murmurei. — Talvez nunca — tentava lembrar de algo que me fazia sorrir... ah, o piano...
Ele se aproximou um pouco mais, me tirando de meus devaneios.
— Vou te dar muitos motivos, minha querida.
O som do vento, o farfalhar das folhas, o perfume das flores… tudo desapareceu por um instante. Eu só conseguia pensar no quanto aquele homem parecia perigoso quando falava assim, tão perto, tão calmo. Meu corpo inteiro reagia à voz dele, ao calor que vinha de sua pele.
— Viktor... — chamei baixinho, sem nem saber o que ia dizer.
Ele sorriu, e de repente, sem aviso, me pegou pela cintura. Um gritinho escapou de mim antes que eu pudesse evitar, e ele riu — um riso leve, bonito, que fazia cócegas no ar. Rodopiou comigo no meio do jardim, as folhas girando em volta, o vento brincando com o meu cabelo.
— Me solta! — reclamei entre risos, tentando esconder que gostava daquilo, estava rindo — Deus... me solta, Viktor... estou ficando tonta.
— Só se prometer que vai sorrir assim mais vezes — respondeu, desacelerando o giro, mas sem me colocar no chão.
— Idiota... — murmurei, rindo ainda, e sem perceber, deixei a cabeça cair no ombro dele.
Foi ali que percebi o quanto o toque dele era seguro. Firme, mas nunca invasivo. Como se ele soubesse exatamente até onde podia ir. Por um momento senti que esse era o lar do qual queria ficar... Aqui com ele, aprendendo a agradar, aprendendo a ser uma boa esposa, já que ele estava sendo um ótimo marido.
O cheiro de Viktor me envolvia — uma mistura de madeira, fumaça e alguma nota doce, discreta, que grudava na memória olfativa.
Viktor me colocou no chão devagar, as mãos ainda na minha cintura, demoradas demais pra ser só gentileza.
Eu o encarei.
Ele não disse nada.
E o silêncio, de repente, pareceu gritar.
Viktor levou uma das mãos ao meu rosto, o polegar traçando uma linha invisível na minha pele.
— Estou apaixonado por você, não previ isso, me desculpa — ele sussurrou, e o timbre grave da voz quase me fez fechar os olhos.
— Não deveria dizer coisas assim... — respondi, mas minha voz saiu baixa, trêmula, mais um pedido do que uma proibição.
— O que? Dizer pra minha esposa como me sinto?
— Não — meneei a cabeça levemente — pedir desculpas por ter dito isso... você... tem o direito de dizer o que sente, e eu gosto de saber...
Ele se inclinou um pouco, o rosto a centímetros do meu. Podia sentir a respiração dele misturada à minha. Um segundo bastava pra tudo mudar. Bastava eu querer. E, pela primeira vez em muito tempo, eu queria algo de verdade! Eu escolhia algo.
Mas ao mesmo tempo… o medo ainda morava ali, pequeno e insistente.
— Eu não sei se... — tentei começar, mas ele balançou a cabeça, interrompendo.
— Não precisa dizer nada... eu sei ler o seu olhar, sei exatamente o que diz.
As palavras dele me desarmaram completamente. Fechei os olhos, estava entregue. Senti o toque leve dos lábios dele encostando nos meus, sem pressa, sem força. Um beijo quase casto, mas cheio de intenção.
Um convite. Um começo.
Meu corpo reagiu antes da mente. O coração acelerou, o chão pareceu longe. Viktor aprofundou o beijo devagar, a mão subindo até a nuca, me puxando só o suficiente pra que eu entendesse que ele estava ali, e que podia ser real. Acariciei o rosto, senti quando sorriu sob meus lábios. Gostava, era romântico... era... meu marido... perfeito!
Me odiava por ter sido uma imbe.cil com ele, por ter o julgado... Mesmo com todas as justificativas... Eu deveria ter sido doce, amável, dar a chance de o conhecer melhor. Mas sendo beijada dessa forma tive a certeza de que ele não ligava para esse início tortuoso, que para ele mais valia o que viria agora, a partir de agora.
Quando nos separamos, ele manteve a testa colada na minha.
— Me diz como ser boa para você, me ensina tudo sobre você, pois eu quero a cada dia ser tudo o que você sempre quis — murmurei, ainda sem fôlego.
— Tudo o que quiser, minha querida... tudo, e qualquer coisa — ele respondeu, sorrindo.
Abri os olhos e vi aquele sorriso de canto, insolente e terno, tudo ao mesmo tempo. Meu peito doía, mas era uma dor boa, viva.
Viktor não precisava dizer nada. O olhar dele já fazia promessas que eu não sabia se queria ou se podia acreditar.
Fiquei ali, com o perfume da rosa ainda preso no cabelo e o gosto dele na boca, tentando entender como, em tão pouco tempo, alguém podia bagunçar tanto o meu mundo.
Talvez o problema não fosse ele.
Talvez fosse eu, começando a gostar demais da ideia de me perder um pouco.