POV: Alex
Nunca tinha visto uma pessoa num estado tão calamitoso. Muito menos imaginei encontrar Sofia. A mulher mais forte e desafiadora que conheço. Assim. Não sei se é compaixão o que sinto neste momento, mas algo dentro de mim dói ao vê-la assim. Caminho em direção a ela. Por onde passo, tudo está destruído: a garrafa de vinho e a taça com que eu estava bebendo, cacos de vidro por todo lado. A escrivaninha do papai também está uma bagunça. Até o porta-retratos dele está no chão. Felizmente, deve ser resistente porque não chegou a quebrar.
À medida que me aproximo, ela crava em mim os seus incríveis e belos olhos verdes, mas desta vez há algo diferente: não há o desafio constante, muito pelo contrário. Vejo tristeza e vulnerabilidade, como se carregasse algo muito pesado e não pudesse mais. Por alguma razão estranha, aquele instinto de proteção que nós homens temos em relação ao m*al chamado "se*xo fraco" me invade completamente. Sofia não é fraca. Ela é até mais forte do que eu. Suportar o desprezo que as pessoas sentem, e às vezes até o meu próprio, e não cair, é o suficiente para perceber que algo está acontecendo. Algo que ela não pode mais controlar.
— Diga-me o que está acontecendo, Sofia. Digo com voz suave, tentando não assustá-la.
— Vá embora, Alex. Deixe-me sozinha, por favor. Ela suplica. Em seus olhos vejo uma total falta de confiança. Não a culpo: eu a mereço.
— Deixe-me ajudá-la. Isso é um desastre, você pode se machucar. Acrescento, preocupado.
— Preocupado comigo, Alex Montenegro? Desde quando? E, apesar da dor e da vulnerabilidade, o olhar desafiador reaparece.
— Pare de fazer isso, Sofia.
— O que eu estou fazendo? Ela pergunta, confusa.
— Ter esse olhar desafiador e estar na defensiva continuamente. É exaustivo.
— Vá, deixe-me em paz. Ela repete mais uma vez. Mas por alguma razão decido ficar e me aproximar. A sua vulnerabilidade me desarma. Me faz baixar a guarda e me comportar como um verdadeiro id*iota. Talvez essa seja a maneira dela de conquistar os homens, e se for assim, ela está conseguindo.
— Nunca te vi nesse estado, nem mesmo quando meu pai morreu... Primeiro você desmaia na empresa e agora te encontro bêbada, com o lugar feito um desastre e você... arrasada. Diga-me o que está acontecendo. Sinto que essas palavras, vindas do meu interior, fazem Sofia desabar num choro dilacerante. Noto que as pernas dela estão bambas. Ela está prestes a cair no chão. Caminho mais alguns passos em direção a ela e a tomo nos meus braços com força, tentando consolá-la. Não para de chorar e isso me rasga a alma por dentro. Por que, po*rra? Por que sou tão vulnerável a mulheres fracas?
Passaram-se mais de dez minutos, que me pareceram eternos, até que Sofia parou de chorar aos poucos. De repente sinto que ela se afasta de mim, como se o meu contato a incomodasse, e vejo confusão e algo mais nos seus olhos que não consigo decifrar.
— Sinto muito, Alex, não devia ter feito isso. Ela parece mais forte. Talvez desabafar, sentir-se compreendida mesmo que por alguns minutos, tenha funcionado para que ela se sinta melhor.
— Não precisa me pedir perdão. Afinal, você é minha esposa. Ela também foi minha madrasta e é a viúva do meu pai. Não consigo esquecer isso. É a única maneira que encontro para não cair diante dela, para não entregar o meu coração novamente como daquela vez e que ela me devolva em pedaços.
— Você realmente quer me ajudar? Ela pergunta, olhando nos meus olhos, desta vez com mais decisão.
— Se estiver ao meu alcance, posso fazê-lo.
— Sem perguntas, nem explicações?
— Sofia, o que...?
— Preciso que você me empreste um milhão de dólares até que recebamos a herança do seu pai. Interrompe-me, deixando-me sem palavras.
Abro os olhos de par em par: confuso, surpreso e talvez um pouco decepcionado. Toda essa encenação era para que eu sentisse pena e concordasse em emprestar aquela imensa quantia de dinheiro para ela? Não posso acreditar. Como tudo caiu baixo e que idi*ota eu fui.
— Para que você precisa de tanto dinheiro?
— Sem perguntas, nem explicações, por favor.
— Você está enviando dinheiro para o Julian? Não pense que eu não ouvi aquele boato de que você e ele são amantes. Pergunto num acesso de ciúmes. — Com certeza é isso; senão, por que você ia querer tanto dinheiro?
— Ao Julian? Ela responde com um sorriso cínico. — De verdade, você é tão idi*ota quanto os outros... Eu te achava mais inteligente, Alex.
— Você está me chamando de idi*ota e ainda quer que eu te empreste dinheiro? Digo, irritado.
— Não vou te obrigar a fazer isso. De alguma forma vou conseguir. Lá está, me desafiando de novo. Eu a prefiro assim: forte e desafiadora. Vê-la chorando e desmoronada nos meus braços me desarma, mesmo que tudo tenha sido um show.
— Só me diga para que você precisa e talvez eu faça.
— Para quê? Ela pergunta. — Para correr e contar os meus problemas ao advogado e poder ser expulsa daqui sem um dólar? A desconfiança dela dói demais. Não sou um ogro como ela pensa, ou talvez como me mostro diante dela para não cair sob os seus encantos.
— Você me acha tão miserável assim?
— Ódio e ressentimento é a única coisa que você me demonstrou desde que nos conhecemos... Você nem teve piedade no velório do seu pai. O que posso acreditar em você? A sua confissão me incomoda.
— Para quando você precisa desse dinheiro? Pergunto, olhando-a nos olhos.
— Para amanhã mesmo. A sua resposta taxativa me desconcentra, mas decido não dizer nada.
— Vou ver o que posso fazer. Agora vá descansar. Deixe que as moças do serviço arrumem isso amanhã.
Sofia não responde. Só clava os olhos em mim e consigo ver um olhar de... agradecimento? Não sei. Gostaria de saber o que se passa neste momento na sua cabeça, para que precisa desse dinheiro com tanta urgência, mas sei que se continuar a perguntar só vou piorar as coisas entre nós. Preciso dar-lhe tempo. Talvez algum dia ela consiga confiar em mim.
De repente, noto que ela se abaixa e pega o porta-retratos do meu pai entre as mãos; ouço um "sinto muito" sair dos seus lábios. Ela se levanta e caminha em direção à porta, abraçando a moldura contra o peito. Antes de sair do escritório, ela se vira e me olha novamente com aqueles olhos carregados de vulnerabilidade que despertam em mim um instinto de proteção que vai além de uma certidão de casamento, até mesmo da própria herança.
— Obrigado, Alex. Com essas simples palavras, ela sai da saça, deixando-me completamente confuso e sem poder dizer nada.
Antes de sair do escritório do meu pai, observo o desastre pela última vez e então a vejo...
Uma carta no chão, entre documentos.
Uma carta que leva o meu nome.
Uma carta do papai.
Para meu querido filho, Alex.