Abro os olhos minutos depois. Sinto como se me tivessem dado um soco ou uma surra. Dói-me todo o corpo e não me lembro absolutamente nada do que aconteceu nem onde estou. Só sei que estou no escritório de... Alex... recostada no sofá, mas estou completamente sozinha.
De repente, sinto a porta do escritório se abrir e o meu coração dispara. Alex atravessa a porta trazendo uma bandeja nas mãos. Sobre ela, observa-se uma xícara de chá com alguns biscoitos doces e noto algo no seu rosto... um olhar que nunca tinha visto antes: preocupação, talvez? Não acredito... com certeza o meu corpo colapsou por causa de tudo o que ele está me fazendo passar, junto com a tia e a prima dele.
— Sofia... que bom que você acordou. Ele diz. Embora ainda soe um pouco frio, pelo menos está tentando.
— Alex... O que estou fazendo aqui? Pergunto, desconcertada.
— Você desmaiou fora da sala de reuniões. Com certeza a sua glicose baixou, então trouxe isso para você se recuperar e depois vou te levar para casa descansar.
— Depois que você se meteu no meu trabalho, tenta me ajudar... Você se sente culpado por acaso? Olho nos olhos dele, acusando-o, desafiando-o.
— Ainda está com isso, Sofia? Jamais me intrometeria no trabalho de outra pessoa, muito menos jogaria sujo numa votação tão importante quanto esta.
— Não importa mais, vou te provar que se não foi você, foi sua querida prima que se meteu no meu trabalho e te garanto que isso não vai ficar assim. Estou muito chateada, não consigo disfarçar.
— Você consegue se acalmar? Você acabou de acordar de um desmaio. É que você nunca baixa a guarda nem um pouco? Não te cansa viver na defensiva? Ele pergunta, olhando-me nos olhos, e eu começo a rir cinicamente:
— Baixar a guarda? Quando existem pessoas como você, como a sua tia e a sua prima? Não, não posso fazer isso. Oh, vocês me fariam em pedaços... Confesso, vendo como o seu semblante fica tenso, enquanto procuro o meu celular por todos os lados. — Você tem o meu celular? Onde ele está?
— Aqui. Diz Alex, tirando o aparelho do bolso do terno. Mas naquele momento, no instante em que o celular é depositado na minha mão, as últimas imagens antes do desmaio retornam à minha cabeça e, rapidamente, desbloqueio o meu celular e busco o chat do w******p e... lá está... a imagem de uma menina dormindo numa cama de hospital, a mesma imagem que vi antes de perder a consciência e, aparentemente, estou prestes a desmaiar novamente, porque Alex me pega pelo braço e me obriga a sentar:
— Sofia... você está pálida de novo; precisa descansar...
— Descansar? Perguntou com uma risada zombeteira. — Se eu descansar apenas algumas horas, você é capaz de acabar com tudo o que eu tenho. Alex arregala os olhos, atônito.
— De verdade me odeia tanto assim? Ele exclama, acho que pela primeira vez.
— Sim, Alex, eu te odeio, te odeio com todas as minhas forças, então me deixe em paz. Tento levantar do sofá, mas as forças me abandonam e eu caio de novo.
— Este não é o momento para brigar, Sofia... você precisa descansar, vamos, vou te levar para casa. Num movimento rápido e sem que eu percebesse, ele me carrega nos seus braços.
— Me coloque no chão, por favor... estou muito pesada, consigo andar sozinha. Imploro.
— Você é muito magra. Eu levanto mais peso na academia, você deveria comer mais, por isso está exausta e sem forças.
Alex e eu, nos seus braços, saímos do seu escritório. Caminha em direção ao estacionamento, sob o olhar surpreso de todos os funcionários, incluindo o de Clara e Helena. Sem forças para lutar, decido me deixar levar. Já no veículo, ele me ajuda a subir e diz ao motorista para me levar para casa. Depois ele volta a olhar para mim e a me dizer que vai cuidar de algumas coisas e voltará para casa. Não respondo nem uma palavra. Não me importa a presença dele.
A única coisa que quero é silêncio. Estar longe de todos, inclusive de Alex. Preciso de espaço para pensar, para ordenar o turbilhão que sinto depois de ver aquela imagem no meu celular. Não posso desmoronar na frente dele, não agora.
Preciso ficar sozinha. Preciso processar o que acabou de acontecer... não pode ser... não pode ser que aquela menina seja minha filha. Lembro-me muito bem que, depois daquela noite, minha mãe a tirou dos meus braços. Ela m*al chorava. E minutos depois me disse que ela havia falecido e nem me deixaram me despedir dela. Nunca me disseram onde ela estava enterrada para eu levar uma flor e agora percebo por quê... a minha filha, uma menina... decidiram ficar com ela, porque sem dúvida ela lhes servia mais do que eu.
Deus... não consigo acreditar em tudo o que está acontecendo. As lágrimas começam a rolar pelas minhas bochechas. Preciso chorar, preciso tirar toda essa dor de dentro ou ela vai acabar me consumindo. Mas preciso fazer algo mais... preciso falar com eles, preciso saber onde minha filha está e tentar recuperá-la... mesmo que isso custe o meu casamento e toda a herança que Fernando me deixou.
Volto para casa. Já um pouco mais forte, entro sozinha, sem precisar que o motorista me ajude.
Sem perder muito tempo, caminho para o escritório de Fernando e me tranco lá com chave, para que ninguém possa me interromper. Aproximo-me da garrafa de vinho que Alex provavelmente abriu e tomo uma taça. Dois. Três. Preciso encontrar forças, mesmo que seja no álcool, para fazer o que vou fazer... falar com aquelas pessoas, depois de cinco anos.
As minhas mãos tremem. O meu estômago está revirando. Dói-me a têmpora e a garganta fecha. M*al consigo respirar... mas tenho que fazer isso, preciso saber sobre a minha filha.
Minutos depois, aparentemente o álcool está surtindo o efeito desejado, porque os tremores aos poucos começam a desaparecer e estou mais tranquila. Não sei se se poderia dizer mais tranquila, mas sim mais decidida... a pegar o telefone e discar aquele número que me enviou a imagem.
Durante mais de meia hora tento me comunicar, mas não há resposta. Eu os conheço... sei como eles agem... sabem que estou desesperada e só estão fazendo isso para me fazer sofrer. Não suportam que a mina de ouro, ou seja, eu, tenha escapado das suas mãos, tenha se casado com um milionário, tenha ficado viúva e esteja desfrutando os meus milhões sem compartilhá-los com eles... se soubessem que ainda não tenho um dólar dessa herança... tenho certeza de que a única coisa que querem é dinheiro... mas a menos que eu fale com o advogado de Fernando, não tenho como conseguir isso e isso significaria dar muitas explicações. Explicações que não posso nem estou preparada para dar.
Finalmente atendem a chamada. Ouço uma respiração do outro lado da linha. Só isso, nem uma palavra.
— Digam-me o que querem... Gritei desesperada. — Devolvam a minha filha... por favor.
— Um milhão, Emília, nada mais, nada menos. Diz a voz de uma mulher, que logo reconheço... a voz de Laura, minha mãe. A mulher que me trouxe ao mundo. A mulher que mais me machucou.
— Como você pode fazer isso comigo? Perguntei, sentindo-me capaz de tudo, não só pelo meu instinto materno que precisa saber sobre a minha filha, mas também pelo álcool correndo nas minhas veias. — Eu sou sua filha, sangue do seu sangue...
— Não sou tão sentimental quanto você... quero dinheiro, Emilia. Se você não tivesse ido embora daqui, neste momento estaria aproveitando a sua filha ou, pior ainda... vendo-a morrer num hospital.
— Morrer? Exclamei, levando a mão à boca. — O que ela tem? Diga-me mais, mamãe, por favor. Imploro com lágrimas nos olhos. Mas aquela mulher é cr*uel. A m*aldade rege a sua vida e, embora eu suplique e implore, sei que sem dinheiro não conseguirei tirar dela nem mais uma palavra.
— Um milhão, Emília... se quiser saber mais sobre ela... um milhão para amanhã, no máximo depois de amanhã, para que não diga que sou insensível.
— Não tenho esse dinheiro, mãe. Sinto que estou prestes a desmoronar de novo, mas preciso ser forte... preciso saber onde está a minha filha e recuperá-la.
— Não minta para mim, você se casou com aquele velho do Fernando Montenegro... ele te deixou nadando em dinheiro.
— Não é o que você pensa... ainda não posso dispor desse dinheiro...
— Se você quiser ver sua filha viva, consiga. Ela faz uma pausa. — E se apresse, ela não tem muito tempo.
— Mamãe, por favor. Grito inconsolada. De repente, sinto o som característico de uma chamada que acabou de terminar e caio de joelhos no chão... não sei o que vou fazer, preciso de um milhão de dólares para amanhã... preciso recuperar a minha filha e afastá-la daquelas pessoas.
Levanto-me do chão feita um feixe de nervos. Num acesso de fúria, esmago a taça de vinho contra a parede e tudo o que estava sobre a mesa de Fernando cai no chão. Enquanto levo as mãos à cabeça, tentando controlar a minha cólera.
De repente, um som na fechadura da porta chama a minha atenção. Alguém está tentando abrir a porta do outro lado. Segundos depois, Alex entra no escritório do pai, ficando de pedra diante do que vê: a sala destruída... e eu... bêbada e um desastre completo.
— O que acontece, Sofia? O que é tudo isso? Ele pergunta, olhando-me nos olhos. E pela primeira vez neles, vejo algo parecido com compaixão.