Capítulo 15

1511 Words
O despertador nem precisou tocar; eu já estava acordada. Na verdade, acho que sequer consegui pregar os olhos. Fiquei a noite inteira em claro, encarando o teto escuro do quarto e repassando mentalmente cada pequeno detalhe do plano. Cada rota de fuga, cada homem posicionado, cada possibilidade de erro. Porque naquele dia, sabíamos muito bem que qualquer falha custaria as nossas vidas. Às sete horas da manhã, o morro já pulsava em um movimento silencioso e coreografado. Homens fortemente armados ocupavam posições estratégicas nos becos, carros com placas clonadas aguardavam escondidos nas saídas e os rádios transmissores chiavam sem parar na frequência codificada. A tensão era palpável, tão forte que dava para sentir o peso no ar denso da manhã. — Tá pronta? — a voz de Relíquia me despertou do transe. Olhei para ele. Ele vestia um colete balístico por baixo da camisa escura, ostentava a pistola tática na cintura e mantinha uma expressão rígida, completamente séria. — Sempre — respondi, sustentando o olhar. — Mentira deslavada. Eu sorri de canto. — Talvez um pouco. O nosso veículo de fuga era uma caminhonete preta de grande porte, totalmente blindada, rápida e com o motor modificado. Perfeita para o que viria. Passei a mão espalmada pelo couro do volante, sentindo o atrito. Aquele era o meu lugar, a minha função e a minha inteira responsabilidade. — Quando a confusão começar e o bloqueio se estabelecer, você avança e tira ele dali o mais rápido possível — Relíquia repassou a ordem essencial. Assenti com a cabeça firme. — E quanto a vocês? — Nós vamos segurar o revide da polícia e dar cobertura para vocês sumirem do mapa. Meu coração apertou por um breve instante. Eu sabia o significado oculto por trás daquela frase curta: alguém ali corria o risco real de não voltar para casa. Às oito horas e cinquenta minutos, o primeiro alerta estratégico acendeu na tela do celular. “Comboio oficial saiu do complexo.” Senti o sangue gelar nas veias. Não dava mais para voltar atrás. Era a hora da verdade. Os minutos seguintes arrastaram-se como se fossem longas horas de agonia. O silêncio dentro da caminhonete era interrompido apenas pela minha respiração compassada, até que o rádio comunicador finalmente voltou a chiar na minha mão. — Visual — a voz do batedor ecoou, quebrando a estática. Meu coração disparou instantaneamente. Ajustei o corpo no banco, olhei pelo espelho retrovisor e vi as luzes distantes apontando na rodovia. O grande transporte prisional e as viaturas da escolta avançavam pelo asfalto. Tudo parecia correr exatamente como havíamos planejado na mesa da sede. Ou quase tudo. — Espera aí... — a voz de Caveira cortou a frequência do rádio. Soava tensa, estranha e carregada de urgência. Franzi a testa, sentindo um gosto amargo na boca. — O que foi, Caveira? — Tem uma viatura extra na retaguarda. Uma que não constava no nosso relatório de inteligência. Merda. Aquilo quebrava a nossa contagem exata de homens. — Continua acompanhando — ordenei. — E tem mais uma coisa, Raíssa. — Fala de uma vez! O silêncio que se seguiu durou apenas dois segundos, mas pareceu uma eternidade torturante. — Não é escolta padrão. Tem uma equipe de forças táticas pesadas junto com eles. Meu estômago afundou por completo no banco. Eles sabiam. Aquilo não era um imprevisto da rotina prisional; era a confirmação de uma armadilha armada meticulosamente para nós. — Eles sabiam de tudo — a voz de Relíquia invadiu o rádio, sombria e gélida. — Alguém entregou a nossa operação de bandeja. Meu sangue ferveu de raiva, espantando o choque inicial. Prendi os dedos com força absurda contra o couro do volante. — Não importa agora — decretei. — Raíssa, o poder de fogo deles é... — Não importa! — cortei, gritando contra o aparelho. — Hoje o chefe vai sair daquela porcaria de carro, nem que eu tenha que derrubar aquela estrada inteira para passar por cima! A explosão inicial aconteceu escassos segundos depois. Um estrondo ensurdecedor ecoou pela mata lateral. BOOOOM! O caminhão de carga que havíamos preparado para o bloqueio atravessou violentamente a pista, colidindo e travando a frente do comboio estatal. Os pneus dos blindados gritaram no asfalto quente, as viaturas derraparam em zigue-zague e o verdadeiro inferno se estabeleceu na rodovia de uma vez por todas. Tiros de grosso calibre começaram a ecoar, misturando-se a gritos distantes, vidros estilhaçados e o som agudo das sirenes de emergência que continuavam ligadas. A frequência do rádio transformou-se em um caos absoluto de ordens, xingamentos e fúria. — Avança com a linha! — alguém gritava ao fundo, em meio aos disparos. — Cobertura no flanco esquerdo! — Atira na fresta do motor! Meu peito subia e descia, o coração parecia querer rasgar a carne da caixa torácica, mas as minhas mãos permaneciam assustadoramente firmes na direção da caminhonete. Através da fumaça densa e preta das explosões, eu consegui avistar a silhueta de Relíquia. Ele corria a passos largos direto para a lateral do transporte prisional, avançando sob uma chuva impiedosa de projéteis, agindo como um completo louco desprovido de qualquer senso de autopreservação. — Filho da mãe corajoso... — murmurei entre dentes. Mais detonações sacudiram o terreno, acompanhadas pelo som metálico de ferramentas pesadas arrombando as travas externas. Até que a pesada porta traseira do blindado foi violentamente forçada para fora, e uma figura imponente emergiu do meio da fuligem. Matador. Meu peito deu um salto violento. Pela primeira vez em semanas de pura angústia e investigação às escuras, eu o estava vendo livre das amarras do Estado. — RAÍSSA! — o grito dele rasgou o barulho ensurdecedor dos disparos. Ele corria desesperadamente na minha direção, com as roupas parcialmente rasgadas e o corpo coberto de respingos de sangue. Eu não fazia ideia se o sangue pertencia a ele ou aos agentes tombados no chão durante a colisão, mas ele estava se movendo. Estava perfeitamente vivo. Afundei o pé direito no acelerador com toda a força que tinha nas pernas. Os pneus traseiros da caminhonete blindada cantaram alto, derrapando de lado na terra e parando em um ângulo perfeito de proteção bem ao lado dele. Empurrei a porta do carona com o braço. — ENTRA LOGO! — berrei. Matador saltou para dentro do veículo sem hesitar. No exato milésimo de segundo em que ele bateu a porta metálica, um projétil de fuzil atingiu em cheio o vidro lateral. CRACK! A blindagem especial segurou o impacto, trincando a superfície em uma teia esbranquiçada e opaca. — VAI, VAI, VAI! — ele ordenou, escorando-se no painel para recuperar o fôlego. Nem precisava pedir duas vezes. Girei o volante com força e afundei o pé novamente no pedal. O motor modificado rugiu de forma brutal e a caminhonete disparou em linha reta, cortando o acostunamento e deixando a rodovia para trás. Para trás, envoltos na fumaça cinzenta que subia aos céus, ficaram o som decrescente dos tiros, as viaturas totalmente avariadas, o caos da emboscada e os nossos soldados. Ficou o Relíquia. Eu alternava os olhos entre a estrada sinuosa à frente e o espelho retrovisor central, procurando desesperadamente por qualquer sinal de fumaça de pneu ou dos nossos carros de apoio. Até que finalmente consegui localizá-lo ao longe: Relíquia corria em direção ao segundo veículo de fuga perfeitamente camuflado sob a copa das árvores. Ele estava se movendo por conta própria. Vivo. Graças a Deus, ele estava vivo. — Você conseguiu, garota — a voz grossa e cansada ao meu lado quebrou o transe da direção. Olhei rapidamente para o lado. Matador estava me encarando com o peito subindo e descendo pela respiração pesada, os olhos ainda assimilando o choque e a adrenalina da liberdade repentina. — Eu não disse que ia dar um jeito, chefe? — respondi, tentando manter a pose inabalável enquanto o suor frio descia pela minha testa. Um sorriso genuíno e orgulhoso desenhou-se nos lábios dele, suavizando o rosto marcado pela prisão. — Você é completamente maluca, Raíssa. — Já é a segunda vez que me dizem isso só no dia de hoje. Não é novidade. Mas antes que o alívio pudesse se consolidar dentro daquela cabine blindada e antes que qualquer um de nós pudesse de fato esboçar uma comemoração, o rádio comunicador jogado sobre o console central chiou de forma estridente, estourando nos alto-falantes. A voz de Caveira invadiu o espaço, mas não tinha mais a adrenalina cega do combate urbano. Estava completamente trêmula, despedaçada e desesperada. — Raíssa! Pelo amor de Deus, me escuta! Meu coração travou uma batida, congelando o sangue diretamente no peito. — O que foi, Caveira? Fala! — Deu r**m. Nós temos um problema gigantesco aqui atrás. A rota caiu. — Que problema? O que aconteceu com a equipe da retaguarda? O silêncio do outro lado da linha durou apenas um maldito segundo, mas carregou o peso de uma sentença de morte irremediável. — Cercaram o carro dele... Pegaram o Relíquia. A equipe tática pegou ele. Ele rodou. O mundo ao meu redor simplesmente parou de girar.
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