RAÍSSA
O mundo ficou em silêncio. Por um segundo. Um único segundo. Mas foi o suficiente para eu esquecer dos tiros, da polícia, da fuga, de tudo.
Só existia sangue. Muito sangue, escorrendo e manchando a roupa de Relíquia.
— Não... — A palavra saiu como um sussurro.
Quase uma oração. Quase um pedido.
Relíquia piscou. Uma vez. Duas. Depois levou a mão até o ombro. Quando a olhou, estava coberta de vermelho.
— Foi no ombro — a voz dele saiu rouca.
Meu coração voltou a bater. Com força. Violento. Porque ele estava vivo.
— Seu filho da mãe! — Empurrei-o, mais por alívio do que por raiva. — Achei que você tinha morrido!
Ele riu. Mesmo ferido. Mesmo sangrando.
— Ainda não.
— ENTRA NO CARRO! — Matador gritou, atirando sem parar.
Aquilo trouxe-me de volta para a realidade. Polícia. Tiros. Morte. Segurei Relíquia pelo braço.
— Anda!
Corremos os dois, enquanto Matador cobria a nossa retirada. Mais disparos. Mais gritos. Mais caos. Mas conseguimos. Entrámos na caminhonete e eu acelerei. Dessa vez ninguém olhou para trás, porque sabíamos que tínhamos vencido. Por pouco, mas vencido.
Durante vários minutos ninguém falou. O único som era a respiração pesada e o sangue pingando do ombro de Relíquia.
— Você tá bem? — perguntei, tentando parecer calma.
— Já tive dias piores.
Revirei os olhos.
— Claro que teve.
Matador soltou uma risada, a primeira em semanas.
— Achei que ela ia matar você.
Relíquia sorriu.
— Eu também.
Por alguns segundos o clima ficou leve. Quase normal. Até Matador ficar sério novamente.
— Alguém entregou a operação.
O silêncio voltou imediatamente. Meu sorriso desapareceu porque ele estava certo. A viatura extra. A equipe tática. O bloqueio. Tudo. Aquilo não foi azar.
— Eu sei — respondi.
Matador olhou para mim, depois para Relíquia.
— O problema é descobrir quem.
Relíquia desviou o olhar. E eu percebi. Foi rápido, muito rápido, mas percebi. Matador também. Os dois encararam-se por um segundo longo demais. Uma tensão estranha surgiu dentro do carro, uma tensão que não tinha nada a ver com polícia ou prisão. Tinha a ver com segredos.
— O que foi? — perguntei.
— Nada — Relíquia respondeu rápido demais.
Mentira. E eu sabia, porque durante anos fui treinada para identificar mentirosos. E naquele momento... pela primeira vez... eu tive a sensação de que Relíquia estava escondendo alguma coisa.
Horas depois chegámos ao esconderijo. Uma casa afastada, no meio do mato, longe da cidade, longe da polícia. Matador estava livre. A operação tinha dado certo. Era para eu estar feliz, mas não estava.
Porque naquela noite, enquanto todos comemoravam a fuga, eu não conseguia parar de pensar em uma única coisa. Se alguém entregou a operação... então esse alguém sabia exatamente onde estaríamos agora.
E isso significava que o perigo estava apenas começando.