Capítulo 17

473 Words
RAÍSSA O mundo ficou em silêncio. Por um segundo. Um único segundo. Mas foi o suficiente para eu esquecer dos tiros, da polícia, da fuga, de tudo. Só existia sangue. Muito sangue, escorrendo e manchando a roupa de Relíquia. — Não... — A palavra saiu como um sussurro. Quase uma oração. Quase um pedido. Relíquia piscou. Uma vez. Duas. Depois levou a mão até o ombro. Quando a olhou, estava coberta de vermelho. — Foi no ombro — a voz dele saiu rouca. Meu coração voltou a bater. Com força. Violento. Porque ele estava vivo. — Seu filho da mãe! — Empurrei-o, mais por alívio do que por raiva. — Achei que você tinha morrido! Ele riu. Mesmo ferido. Mesmo sangrando. — Ainda não. — ENTRA NO CARRO! — Matador gritou, atirando sem parar. Aquilo trouxe-me de volta para a realidade. Polícia. Tiros. Morte. Segurei Relíquia pelo braço. — Anda! Corremos os dois, enquanto Matador cobria a nossa retirada. Mais disparos. Mais gritos. Mais caos. Mas conseguimos. Entrámos na caminhonete e eu acelerei. Dessa vez ninguém olhou para trás, porque sabíamos que tínhamos vencido. Por pouco, mas vencido. Durante vários minutos ninguém falou. O único som era a respiração pesada e o sangue pingando do ombro de Relíquia. — Você tá bem? — perguntei, tentando parecer calma. — Já tive dias piores. Revirei os olhos. — Claro que teve. Matador soltou uma risada, a primeira em semanas. — Achei que ela ia matar você. Relíquia sorriu. — Eu também. Por alguns segundos o clima ficou leve. Quase normal. Até Matador ficar sério novamente. — Alguém entregou a operação. O silêncio voltou imediatamente. Meu sorriso desapareceu porque ele estava certo. A viatura extra. A equipe tática. O bloqueio. Tudo. Aquilo não foi azar. — Eu sei — respondi. Matador olhou para mim, depois para Relíquia. — O problema é descobrir quem. Relíquia desviou o olhar. E eu percebi. Foi rápido, muito rápido, mas percebi. Matador também. Os dois encararam-se por um segundo longo demais. Uma tensão estranha surgiu dentro do carro, uma tensão que não tinha nada a ver com polícia ou prisão. Tinha a ver com segredos. — O que foi? — perguntei. — Nada — Relíquia respondeu rápido demais. Mentira. E eu sabia, porque durante anos fui treinada para identificar mentirosos. E naquele momento... pela primeira vez... eu tive a sensação de que Relíquia estava escondendo alguma coisa. Horas depois chegámos ao esconderijo. Uma casa afastada, no meio do mato, longe da cidade, longe da polícia. Matador estava livre. A operação tinha dado certo. Era para eu estar feliz, mas não estava. Porque naquela noite, enquanto todos comemoravam a fuga, eu não conseguia parar de pensar em uma única coisa. Se alguém entregou a operação... então esse alguém sabia exatamente onde estaríamos agora. E isso significava que o perigo estava apenas começando.
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