A casa estava cheia, transbordando uma energia barulhenta que eu não conseguia acompanhar. O som da música alta batia contra as paredes de madeira, misturando-se ao tilintar de copos, gargalhadas desafinadas e aos gritos de comemoração dos soldados do morro. Matador estava livre. Para aquela multidão que bebia e celebrava, essa era a única realidade que importava. Eles viam uma vitória absoluta, o retorno triunfal do chefe do morro após uma fuga milagrosa.
Mas eu não conseguia enxergar as coisas daquela forma. Enquanto todos relaxavam, os meus olhos varriam o ambiente em busca de anomalias. Eu enxergava o problema estrutural, a rachadura na base da nossa segurança. Alguém de dentro tinha entregado os detalhes da operação para a polícia. Alguém sabia a nossa rota, o nosso horário e o número exato de homens. E o pior de tudo: essa pessoa ainda estava viva, respirando o mesmo ar que nós, talvez até brindando na mesma sala.
Incapaz de suportar o barulho sufocante lá dentro, isolei-me na varanda dos fundos. A noite estava fria e o vento trazia o cheiro da mata úmida que cercava o esconderijo. Eu estava sentada no parapeito de madeira, perdida em meus próprios cálculos mentais, quando a porta rangeu e Matador apareceu.
Ele segurava um copo de whisky com algumas pedras de gelo já derretidas. Seu olhar, antes focado e perigoso durante o tiroteio, agora parecia distante, perdido na imensidão da escuridão que engolia as árvores ao redor da casa.
— Era para você estar lá dentro comemorando com o resto dos garotos — ele disse, quebrando o silêncio com aquela voz grave e arrastada. Ele caminhou devagar e sentou-se ao meu lado, mantendo uma distância curta, mas respeitosa.
— E você? Por que não está lá bebendo até cair? — devolvi a pergunta, sem olhá-lo de frente.
— Estou trabalhando — respondeu ele, levantando discretamente o copo em minha direção.
Matador soltou uma risada curta, um som raro que pareceu dissipar um pouco do peso acumulado nas suas costas durante as últimas semanas de isolamento.
— Você sempre está trabalhando, Raíssa. Não sabe desligar essa cabeça nem por uma hora?
— Alguém precisa continuar alerta aqui — respondi, finalmente virando o rosto para encará-lo. — Se todo mundo abaixar a guarda ao mesmo tempo, nós viramos alvos fáceis.
O silêncio voltou a cair entre nós. Mas não era um silêncio desconfortável ou tenso; era pesado com o histórico que compartilhávamos. Confortável, como sempre foi desde que comecei a operar ao seu lado. Ficámos assim por alguns minutos, observando as sombras das árvores balançarem sob a luz da lua, até que ele mudou o tom da voz, tornando-a mais baixa, quase íntima.
— Você salvou a minha vida hoje na avenida. Se você não tivesse atravessado aquela caminhonete e segurado o Relíquia, eu estaria trancado numa cela de segurança máxima a esta hora. Ou morto.
Olhei fixamente nos seus olhos, tentando manter a postura profissional que sempre me protegeu.
— Faz parte do meu trabalho. Eu disse que tiraria você de lá, e eu cumpro as minhas promessas.
— Não, não é só trabalho — ele balançou a cabeça negativamente, e o brilho do âmbar do whisky refletiu nos seus olhos escuros. — Você podia ter recuado quando a segunda viatura tática bloqueou o acesso. Qualquer um teria recuado para salvar a própria pele. Mas você avançou.
— Eu nunca deixaria você para trás — a frase saiu da minha boca antes que eu pudesse filtrá-lo. Foi instintivo.
Os olhos dele encontraram os meus com uma intensidade que me fez recuar mentalmente. Por um breve segundo, aquela máscara implacável de chefe do crime caiu, e eu vi algo completamente diferente através das frestas. Algo que ele passava a maior parte do tempo a tentar esconder com violência e autoridade: sentimento puro. Uma gratidão que beirava algo muito mais profundo e perigoso.
— No fundo, eu sabia que você viria — ele sussurrou.
O meu coração acelerou contra as minhas costelas, uma reação física involuntária que me deixou irritada comigo mesma. Droga. Eu não podia dar espaço para aquilo.
— Claro que eu viria — respondi de forma seca, desviando o olhar o mais rápido possível para cortar a eletricidade que começava a formar-se entre nós.
Para o meu alívio, e simultâneo sobressalto, o som de passos pesados ecoou na madeira velha da varanda. Era Relíquia. Ele aproximou-se devagar, segurando um saco plástico cheio de gelo contra o ombro esquerdo, onde o curativo improvisado já exibia uma pequena mancha escarlate.
— Vocês dois estão parecendo um casal de velhos ranzinzas aqui fora — Relíquia comentou, com um meio sorriso cínico desenhado nos lábios, tentando disfarçar a dor do ferimento.
Revirei os olhos de imediato, grata pela interrupção, mas já armada com a minha habitual grosseria defensiva.
— Vai dormir, Relíquia. Você tomou um tiro há menos de três horas e perdeu sangue. Devia estar deitado.
— Está vendo só? — Relíquia virou-se para Matador, o sorriso expandindo-se ligeiramente.
— Ela fala assim comigo o tempo todo. É o jeito dela de dizer que se importa.
Matador não sorriu. A sua expressão endureceu instantaneamente, transformando-se num bloco de gelo ao ver a i********e com que Relíquia se dirigia a mim. E eu percebi a mudança na mesma hora. O ar na varanda pareceu rarefeito.