Relíquia também percebeu. O sorriso dele vacilou, os olhos estreitando-se ao captar a postura defensiva e territorial do chefe do morro. O clima mudou de repente, caindo de uma falsa normalidade para uma hostilidade silenciosa e cortante.
— Como está o ombro? — Matador perguntou. O tom de voz era educado demais, calmo demais. E quem conhecia o Matador sabia que a sua calmaria era muito mais perigosa do que os seus gritos.
— Já levei tiros piores em setores mais complicados — Relíquia respondeu, mantendo a coluna ereta para não demonstrar fraqueza.
— Imagino que sim — retorquiu Matador, a voz gélida.
Os dois homens encararam-se. Foi um confronto silencioso de egos e intenções ocultas, e eu não gostei daquilo. Nem um pouco. Porque aquela dinâmica não parecia uma conversa casual entre aliados que tinham acabado de sobreviver a uma emboscada; parecia uma disputa velada. Uma medição de forças por algo que estava além dos negócios do morro.
— Eu vou dormir — anunciei, levantando-me abruptamente do parapeito antes que a situação piorasse ali mesmo, e antes que eu fosse forçada a entender o real motivo de toda aquela tensão acumulada.
Dei dois passos em direção à porta de vidro, mas quando passei ao lado de Relíquia, ele estendeu a mão livre e segurou firmemente o meu braço. Foi por um segundo. Só um. O toque dele era quente, firme, uma clara tentativa de me reter por mais tempo.
— Boa noite, Raíssa — ele disse, olhando diretamente nos meus olhos com uma suavidade que não combinava com o ambiente.
Foi um gesto simples, pequeno, mas que pareceu amplificado pelo silêncio da noite. Soltei o meu braço com um puxão sutil e olhei de relance para Matador. Percebi imediatamente que ele tinha visto cada detalhe do movimento. E pela primeira vez em todos os anos em que trabalhei para ele, o chefe do morro não parecia apenas irritado com a quebra de hierarquia. Ele parecia incomodado. Profundamente incomodado. Um tipo de descontentamento pessoal que ele claramente não sabia como gerir.
Mais tarde, já por volta das três da madrugada, a música lá embaixo finalmente tinha cessado, dando lugar ao silêncio opressor da floresta. Eu estava deitada na cama sobressalente de um dos quartos do andar de cima, mas o meu cérebro recusava-se a apagar. O olhar misterioso de Relíquia e a reação de Matador continuavam a passar na minha mente como um filme em loop. Foi quando um som metálico e abafado vindo do andar de baixo quebrou a calmaria da madrugada.
O som vinha da direção da cozinha ou da sala de estar. Num reflexo moldado por anos de sobrevivência e treino, a minha mão deslizou para debaixo da almofada e agarrou a coronha fria da minha pistola de nove milímetros. Destravei a arma em silêncio absoluto, levantei-me da cama sem fazer o colchão ranger e aproximei-me da porta.
Desci as escadas de madeira apoiando o peso do corpo junto às paredes para evitar que os degraus estalassem. As luzes da casa estavam completamente apagadas, criando uma atmosfera de sombras distorcidas. O som repetiu-se: o arrastar suave de um fecho de correr.
O ruído vinha especificamente do canto esquerdo da sala de estar. Aproximei-me devagar, com a arma empunhada à altura dos olhos com as duas mãos, controlando minuciosamente a minha própria respiração para não denunciar a minha posição na escuridão.
Ajustei o foco visual e consegui distinguir uma silhueta agachada perto do sofá, movimentando-se de forma frenética e suspeita, revirando o interior de uma mochila de lona escura.
— Nem pensa em correr. Se você se mexer mais um centímetro, eu coloco uma bala na sua nuca — sussurrei com a voz fria como o aço da pistola.
A figura congelou instantaneamente. Os ombros ergueram-se sob o impacto da minha voz. Mantendo a arma apontada para o centro das costas da silhueta, estiquei o braço esquerdo e bati no interruptor da parede, acendendo a luz central da sala.
A claridade repentina feriu os meus olhos por um breve instante, mas o choque seguinte fez o meu coração disparar de forma descontrolada. A pessoa que começou a virar-se devagar, com as mãos levantadas à altura dos ombros, era alguém que eu jamais esperaria ver naquela situação.
Era o Caveira. Um dos homens de maior confiança da contenção do morro.
— Que p***a você pensa que está fazendo aqui a esta hora? — perguntei, a minha voz cortando o ar como uma lâmina.
Ele empalideceu na mesma hora, a pele outrora morena assumindo um tom acinzentado sob a luz fluorescente da lâmpada. Os olhos dele arregalaram-se ao encarar diretamente a boca do cano da minha pistola.
— Raíssa... Calma, não é o que você está pensando... — ele gaguejou, a voz trémula entregando o pânico que o dominava.
— Responde à minha pergunta, Caveira. Agora — ordenei, dando um passo em frente, estreitando a distância entre nós.
Desviei ligeiramente o foco dos meus olhos para inspecionar a mochila aberta no chão, mesmo ao lado dos pés dele. O conteúdo estava exposto: maços grossos de notas de cem reais amarrados com elásticos, dois passaportes falsos com fotos recentes e, deitado em cima dos papéis, um aparelho de celular preto, moderno, um modelo criptografado de alta tecnologia que eu sabia perfeitamente que ninguém no morro usava para a comunicação operacional comum. Um telefone que eu nunca tinha visto na vida.
O meu sangue gelou nas veias quando as peças do quebra-cabeça começaram a alinhar-se de forma assustadora na minha mente.
— De quem é esse celular, Caveira? — perguntei, a minha voz descendo um tom, tornando-se ainda mais perigosa.
O homem engoliu em seco, olhando desesperadamente de lado, procurando uma rota de fuga que ele sabia que não existia. Ele permaneceu de boca fechada, os lábios a tremer ligeiramente.
— Eu perguntei de quem é a p***a desse celular! — repeti, avançando mais um passo e pressionando a mira da arma quase contra a testa dele. — É com ele que você fala com os federais? Foi você quem entregou a rota do Matador hoje à tarde?
O silêncio absoluto dele diante da acusação direta foi a pior e mais devastadora resposta possível. Não houve negação imediata, não houve a indignação legítima de um homem inocente. Apenas o silêncio culpado de quem tinha sido apanhado na armadilha. Porque naquele exato instante, enquanto o relógio da parede marcava os segundos com precisão torturante, pela primeira vez desde que a viatura da polícia cortou o nosso caminho, eu tinha um suspeito real na minha frente. Mas uma parte de mim sabia que o Caveira era apenas a ponta de um iceberg muito maior.