Capítulo 20

801 Words
Caveira estava pálido. Pálido demais. E aquilo me deixou ainda mais nervosa. Porque homem inocente fica confuso. Homem culpado fica assustado. — Responde. Minha voz saiu fria. Cortante. — De quem é esse telefone? Caveira passou a mão pelo rosto, tentando ganhar tiempo. Um erro grave. — Raíssa... — Não. Apontei o aparelho na direção dele. — Responde. Agora. O silêncio se arrastou pela sala, pesado e denso, como se o ar tivesse ficado mais espesso. Até que ele finalmente cedeu. — Não é meu. Eu quase ri. Quase. — Sério? — É a verdade. — Então por que ele estava escondido na sua mochila? Caveira engoliu seco, a garganta seca de repente. E aquilo foi suficiente para acender o alerta vermelho dentro de mim. Peguei o celular e liguei a tela. Sem senha. Sem bloqueio. Como se alguém tivesse deixado ele ali de propósito, querendo que fosse encontrado. Meu coração disparou no peito. Havia apenas uma conversa salva. Uma única. Abri o aplicativo e senti todo o sangue do meu corpo gelar nas veias. “Eles vão agir amanhã.” A mesma mensagem. Exatamente a mesma que tinha sido interceptada dias antes, horas antes da prisão e da fuga fracassada. Meu estômago afundou. — Meu Deus... Caveira fechou os olhos no momento em que eu li. Como alguém que já sabia exatamente o que eu iria encontrar. — Explica. — Não é o que parece. — Essa frase já me irritou profundamente. — Eu posso explicar, Raíssa. — Então explica. Agora. Ele respirou fundo. Tão fundo que parecia estar se preparando para pular de um penhasco. — Eu tava investigando. Revirei os olhos com força. — Claro que estava. — É verdade! — E eu sou freira. — Raíssa, pelo amor de Deus... — Você quer que eu acredite que encontrou o telefone do traidor, com a prova do crime, e resolveu guardar escondido na sua própria mochila ao invés de entregar pra nós? O silêncio foi a única resposta. E isso foi pior. Muito pior. Foi então que ouvi passos pesados se aproximando por trás de mim. Virei-me rapidamente. Matador. E logo atrás dele... Relíquia. Merda. Os dois pararam. Olharam primeiro para o meu rosto, depois para Caveira pálido e, por fim, para o celular na minha mão. — O que aconteceu aqui? — perguntou Matador, a voz baixa e perigosa. Olhei diretamente para ele. — Acho que finalmente encontramos o nosso traidor. O ambiente inteiro pareceu congelar. Ninguém respirou. Ninguém se moveu. Ninguém piscou. Até que Caveira deu um passo para trás, instintivamente, como se quisesse fugir da própria sombra. — Eu não entreguei ninguém. — Então por que tá recuando? — perguntou Relíquia, avançando um passo. — Porque vocês não vão me ouvir! — Tenta a sorte. Fala. Caveira começou a suar. Muito. A transpiração escorria pela sua testa, pingando no chão. E naquele instante, um detalhe me chamou atenção. O medo nos olhos dele. Não parecia medo de nós. Não parecia medo de ser julgado ou morto. Parecia medo de algo... ou de alguém muito maior. — Quem tá te ameaçando, Caveira? — perguntei, mudando o tom de voz. Ele levantou os olhos para mim. E pela primeira vez naquela noite, eu vi desespero de verdade. Um desespero profundo, sem saída. — Vocês não entendem... — Então faz a gente entender — cortou Matador. Sua voz era firme, autoritária, a mesma voz que comandava o morro inteiro e fazia homens se ajoelharem. Mas Caveira apenas balançou a cabeça lentamente, num movimento sem esperança. — É tarde demais. Meu coração disparou de novo. — Tarde demais pra quê?! Antes que ele pudesse responder... Um estampido alto e seco ecoou do lado de fora da casa. PÁ! Imediatamente a janela ao lado explodiu. O vidro estilhaçou em mil pedaços brilhantes que voaram pela sala. Alguém do lado de fora havia começado a atirar contra a casa. — ABAIXA! — gritou Matador. Instintivamente eu me joguei no chão duro, me encolhendo perto do sofá. Mais tiros. Mais vidro quebrando. Madeira sendo perfurada. Gritos de pânico. Quando o primeiro momento de caos passou, levantei o rosto para procurar Caveira. E meu sangue congelou de vez. Ele estava caído no chão. De bruços. Uma mancha vermelha começava a crescer rapidamente na sua camisa, bem no centro do peito. Um tiro certeiro. Ele foi acertado. Corri até ele, ignorando o perigo ainda lá fora. Virei seu corpo com cuidado. Seus olhos ainda estavam abertos, mas já perdendo o foco. A respiração saía fraca, entrecortada. Antes que perdesse a consciência completamente... Ele reuniu toda a força que lhe restava, olhou diretamente nos meus olhos, como se quisesse gravar algo na minha memória... E sussurrou, com a voz quase inaudível: — Marconi... Seus olhos se fecharam em seguida. E o corpo relaxou por completo.
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