Caveira estava pálido.
Pálido demais.
E aquilo me deixou ainda mais nervosa.
Porque homem inocente fica confuso.
Homem culpado fica assustado.
— Responde.
Minha voz saiu fria.
Cortante.
— De quem é esse telefone?
Caveira passou a mão pelo rosto, tentando ganhar tiempo.
Um erro grave.
— Raíssa...
— Não.
Apontei o aparelho na direção dele.
— Responde. Agora.
O silêncio se arrastou pela sala, pesado e denso, como se o ar tivesse ficado mais espesso.
Até que ele finalmente cedeu.
— Não é meu.
Eu quase ri. Quase.
— Sério?
— É a verdade.
— Então por que ele estava escondido na sua mochila?
Caveira engoliu seco, a garganta seca de repente. E aquilo foi suficiente para acender o alerta vermelho dentro de mim.
Peguei o celular e liguei a tela.
Sem senha.
Sem bloqueio.
Como se alguém tivesse deixado ele ali de propósito, querendo que fosse encontrado.
Meu coração disparou no peito.
Havia apenas uma conversa salva.
Uma única.
Abri o aplicativo e senti todo o sangue do meu corpo gelar nas veias.
“Eles vão agir amanhã.”
A mesma mensagem.
Exatamente a mesma que tinha sido interceptada dias antes, horas antes da prisão e da fuga fracassada.
Meu estômago afundou.
— Meu Deus...
Caveira fechou os olhos no momento em que eu li. Como alguém que já sabia exatamente o que eu iria encontrar.
— Explica.
— Não é o que parece.
— Essa frase já me irritou profundamente.
— Eu posso explicar, Raíssa.
— Então explica. Agora.
Ele respirou fundo. Tão fundo que parecia estar se preparando para pular de um penhasco.
— Eu tava investigando.
Revirei os olhos com força.
— Claro que estava.
— É verdade!
— E eu sou freira.
— Raíssa, pelo amor de Deus...
— Você quer que eu acredite que encontrou o telefone do traidor, com a prova do crime, e resolveu guardar escondido na sua própria mochila ao invés de entregar pra nós?
O silêncio foi a única resposta.
E isso foi pior.
Muito pior.
Foi então que ouvi passos pesados se aproximando por trás de mim.
Virei-me rapidamente.
Matador.
E logo atrás dele... Relíquia.
Merda.
Os dois pararam. Olharam primeiro para o meu rosto, depois para Caveira pálido e, por fim, para o celular na minha mão.
— O que aconteceu aqui? — perguntou Matador, a voz baixa e perigosa.
Olhei diretamente para ele.
— Acho que finalmente encontramos o nosso traidor.
O ambiente inteiro pareceu congelar.
Ninguém respirou.
Ninguém se moveu.
Ninguém piscou.
Até que Caveira deu um passo para trás, instintivamente, como se quisesse fugir da própria sombra.
— Eu não entreguei ninguém.
— Então por que tá recuando? — perguntou Relíquia, avançando um passo.
— Porque vocês não vão me ouvir!
— Tenta a sorte. Fala.
Caveira começou a suar.
Muito. A transpiração escorria pela sua testa, pingando no chão.
E naquele instante, um detalhe me chamou atenção.
O medo nos olhos dele.
Não parecia medo de nós.
Não parecia medo de ser julgado ou morto.
Parecia medo de algo... ou de alguém muito maior.
— Quem tá te ameaçando, Caveira? — perguntei, mudando o tom de voz.
Ele levantou os olhos para mim.
E pela primeira vez naquela noite, eu vi desespero de verdade.
Um desespero profundo, sem saída.
— Vocês não entendem...
— Então faz a gente entender — cortou Matador.
Sua voz era firme, autoritária, a mesma voz que comandava o morro inteiro e fazia homens se ajoelharem.
Mas Caveira apenas balançou a cabeça lentamente, num movimento sem esperança.
— É tarde demais.
Meu coração disparou de novo.
— Tarde demais pra quê?!
Antes que ele pudesse responder...
Um estampido alto e seco ecoou do lado de fora da casa.
PÁ!
Imediatamente a janela ao lado explodiu.
O vidro estilhaçou em mil pedaços brilhantes que voaram pela sala.
Alguém do lado de fora havia começado a atirar contra a casa.
— ABAIXA! — gritou Matador.
Instintivamente eu me joguei no chão duro, me encolhendo perto do sofá.
Mais tiros.
Mais vidro quebrando.
Madeira sendo perfurada.
Gritos de pânico.
Quando o primeiro momento de caos passou, levantei o rosto para procurar Caveira.
E meu sangue congelou de vez.
Ele estava caído no chão.
De bruços.
Uma mancha vermelha começava a crescer rapidamente na sua camisa, bem no centro do peito.
Um tiro certeiro.
Ele foi acertado.
Corri até ele, ignorando o perigo ainda lá fora. Virei seu corpo com cuidado.
Seus olhos ainda estavam abertos, mas já perdendo o foco. A respiração saía fraca, entrecortada.
Antes que perdesse a consciência completamente... Ele reuniu toda a força que lhe restava, olhou diretamente nos meus olhos, como se quisesse gravar algo na minha memória...
E sussurrou, com a voz quase inaudível:
— Marconi...
Seus olhos se fecharam em seguida.
E o corpo relaxou por completo.