Capítulo 03

1344 Words
Raíssa Eu não consegui dormir. Passei a noite inteira em claro, com os olhos fixos no teto do quarto, revivendo cada segundo da conversa com Matador na prisão. Aquela revelação silenciosa ecoava em minha mente: alguém o havia vendido. Matador não era o tipo de homem que inventava fantasmas ou buscava desculpas para os próprios erros; se ele afirmava com tanta certeza que tinha sido traído, havia um motivo real por trás disso. O grande problema era descobrir quem tinha tido a audácia de arquitetar aquilo. Levantei antes mesmo de o sol apontar no horizonte e fui direto para a laje mais alta da fortaleza dele. A Cidade de Deus ainda estava acordando sob uma neblina fria. Algumas poucas motos rasgavam as vielas silenciosas, mulheres abriam as portas de suas casas para o início da rotina e crianças sonolentas corriam atrás de bolas velhas remendadas. Por alguns segundos, parecia uma manhã comum. Mas eu sabia que não era. O chefe supremo estava preso e alguém bem próximo a nós o havia colocado lá. — Sabia que ia te encontrar aqui em cima — uma voz conhecida cortou o vento. Revirei os olhos sem precisar olhar para trás. — Você não tem trabalho para fazer não, Relíquia? — Eu trabalho muito, sabia? — ele rebateu, aproximando-se. — Então vai trabalhar em outro lugar e me deixa em paz. Ele soltou uma risada contida e encostou-se na mureta de concreto ao meu lado. Olhou de soslaio para o meu rosto cansado. — Tá com cara de quem passou a noite em claro. — Porque eu realmente não dormi um minuto sequer. — Pensando no Matador? Virei meus olhos diretamente para ele, sustentando o olhar. — Pensando na dinâmica da prisão dele. O sorriso característico que ele trazia no rosto desapareceu imediatamente. — Você acha mesmo que teve o dedo de alguém de dentro? — Eu tenho certeza. — O Matador te confirmou isso explicitamente? — Confirmou. Relíquia ficou em silêncio por um longo tempo. O vento matinal balançava de leve a camisa preta larga que ele usava. Ele parecia processar o peso daquela afirmação. — E você acredita cegamente na paranoia dele? — ele questionou. — Eu acredito nos fatos, Relíquia. Virei meu corpo completamente em sua direção, cruzando os braços de forma firme. — Me diz uma coisa: quantas vezes em toda a vida você viu o Matador ser pego de surpresa? Ele permaneceu calado, pois ambos sabíamos perfeitamente a resposta: nenhuma. Matador era um estrategista impecável, intocável. — Exatamente — continuei. — Ninguém como ele cai numa blitz por mero acaso. A expressão de Relíquia tornou-se densa e séria, algo raro de se ver nele. — Penso que temos um problema gigantesco pela frente. — Nós temos um traidor infiltrado entre nós — as palavras saíram frias da minha boca, pesadas e assustadoramente reais. Um silêncio desconfortável e sufocante se instalou entre nós na laje. Sabíamos que o traidor não poderia ser um soldado raso ou qualquer um da periferia do negócio. Precisava ser alguém do primeiro escalão, alguém que conhecia a rotina íntima de Matador, que sabia exatamente onde ele estaria e em qual veículo estaria naquela noite fatídica. Alguém que compartilhava da nossa mesa. Horas mais tarde, eu me encontrava trancada na sala principal de reuniões com os homens de maior confiança do morro. Enquanto eles discutiam sobre a distribuição das cargas, eu apenas observava atentamente cada expressão facial, cada reação nervosa, cada desvio de olhar. Buscava um deslize, qualquer pista, mas todos agiam com uma naturalidade irritante. — O que foi, Raíssa? — um dos gerentes mais velhos perguntou, desconfortável. — Nada — respondi secamente. — Você tá encarando a gente como se estivesse prestes a matar alguém aqui dentro. — Talvez eu esteja mesmo. Ninguém ousou rir ou fazer piada. Ótimo, porque eu nunca falava sério com tanta propriedade. Apoiei as mãos na mesa, inclinando-me para a frente. — Quero saber exatamente quem andou conversando com contatos da polícia civil ou militar nos últimos meses. Os homens se entreolharam rapidamente, uma faísca de tensão correndo pela sala. — Ninguém, Raíssa. Todo mundo aqui é puro — garantiu um deles. — Vocês têm certeza absoluta disso? — Claro que sim. Nós somos família. Cruzei os braços novamente, sentindo o gosto amargo da mentira no ar. No nosso mundo, sempre havia alguém falando demais por trás dos panos. Sempre. A única questão que importava era quanto tempo eu levaria para descobrir a identidade do rato. Assim que a reunião terminou e os homens se dispensaram, peguei meu celular criptografado e saí para o corredor. Disquei um número restrito que poucos tinham acesso no Rio de Janeiro. No terceiro toque, a voz rouca atendeu do outro lado. — Fala — disse o informante da polícia. — Preciso de uma informação crucial — fui direta. — Que tipo de informação? — Quero o boletim interno e o relatório real da operação de inteligência que levou à prisão do Matador. Quero nomes. Houve um silêncio pesado e prolongado do outro lado da linha. — Isso que você tá pedindo vai sair extremamente caro, garota. É perigoso. — Eu não perguntei a p***a do preço, perguntei se você consegue — respondi e desliguei na cara dele antes de ouvir qualquer lamentação. Se o batalhão havia montado um cerco tão cirúrgico, o traidor havia deixado rastros documentados em algum lugar. E eu reviraria o estado inteiro até encontrar aquela assinatura de sangue. Naquela mesma noite, o clima no morro parecia ainda mais denso. Eu estava de pé no alto de um ponto estratégico, observando a movimentação frenética da principal boca de fumo lá embaixo, quando senti passos macios se aproximando pelas minhas costas. Era Relíquia. Novamente. — Você por acaso tá me seguindo agora? — perguntei sem me virar. — Talvez eu esteja — ele respondeu com o tom divertido de sempre. — Isso é muito estranho. — Por quê? — Porque geralmente sou eu quem assusta e persegue as pessoas por aqui. Ele soltou uma risada fraca, mas o humor dele evaporou rapidamente. Ele deu um passo à frente, ficando sério. — Falando sério, Raíssa... você precisa tomar muito cuidado. — Todo mundo resolveu me dar o mesmo conselho nas últimas vinte e quatro horas. — É porque você tá cutucando uma colmeia de marimbondos muito perigosa. Virei meu rosto para encará-lo de perto sob a luz fraca dos postes. — O que foi, Relíquia? Tá com medo? — Medo por você? — ele perguntou, a voz baixando de tom. Ele demorou um segundo inteiro para responder. Um segundo longo, denso e carregado de eletricidade estática. — Talvez eu esteja — ele admitiu em voz baixa. Senti meu coração falhar uma batida inteira no peito e odiei aquela reação involuntária do meu corpo. Sentimentos e vulnerabilidades complicavam absolutamente tudo naquele negócio, principalmente na minha posição atual. Eu não podia me dar ao luxo de fraquejar. Desviei o olhar imediatamente para a favela iluminada. — Vai embora, Relíquia — ordenei. — Tá me expulsando mesmo? — Eu estou trabalhando. — Mentira sua. — Como você pode ter tanta certeza? Ele deu um passo para trás e sorriu, recuperando aquele charme irritante que me desarmava. — Porque quando você tá trabalhando de verdade, fica bem menos bonita. Eu congelei no lugar. Ele também pareceu paralisar por um instante, como se tivesse percebido tarde demais as palavras que haviam escapado de seus lábios. Por alguns segundos que pareceram uma eternidade, nenhum de nós conseguiu dizer nada. Até que ele balançou a cabeça de leve, tentando quebrar a tensão. — Boa noite, Raíssa. Ele deu as costas e seguiu pelas escadas. Fiquei completamente parada na laje fria, observando sua silhueta alta sumir na escuridão das vielas tortuosas. Eu estava tão absorta nos meus próprios pensamentos que não percebi que, em um ponto estratégico e escuro do morro vizinho, um par de olhos nos vigiava atentamente através das sombras. E aquela pessoa misteriosa acabara de decidir que eu estava chegando perto demais da verdade perto demais para me deixarem continuar viva.
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