Capítulo 05

1064 Words
Raíssa Fiquei encarando a tela do celular. Uma vez. Duas. Três. Como se as palavras fossem mudar. Mas não mudaram. “Pare de procurar o traidor.” “Ou você vai acabar na mesma cela que o Matador.” Meu maxilar travou. Eu não sentia medo. Sentia raiva. Muita raiva. Porque aquilo significava apenas uma coisa: eu estava certa. Matador tinha sido vendido. E alguém estava desesperado para esconder a verdade. — O que foi? A voz de Relíquia me tirou dos pensamentos, abrupta e firme. Mostrei a mensagem sem dizer nada, e vi a expressão dele endurecer na mesma hora. Os olhos, antes calmos, ficaram duros como pedra. — Quem mandou? — perguntou ele. — Número desconhecido. — Deixa eu ver. Entreguei o celular. Ele segurou o aparelho com cuidado, analisando a tela por alguns segundos, como se pudesse extrair alguma pista digital das palavras escritas. — Não é trabalho de amador — concluiu, devolvendo o celular. — Como sabe? — Porque quem quer apenas assustar geralmente fala demais. Enche texto, faz drama, tenta parecer maior do que é. — E esse aqui? — Falou só o necessário. Nada a mais. Nada a menos. Um arrepio frio percorreu minha espinha. Ele tinha razão. Aquilo não parecia uma ameaça impulsiva, feita por alguém que se sentiu acuado. Parecia um aviso. Calculado. Perigoso. Na manhã seguinte, acordei cedo. Mais cedo do que o normal, antes mesmo que o sol começasse a clarear o céu de cinza e laranja. Levantei-me sem fazer barulho, peguei minha pistola, encaixei-a no coldo na cintura e saí. Se alguém queria brincar comigo, eu também sabia jogar. E eu jogava para ganhar. Passei o dia inteiro andando pelos cantos, conversando com todo mundo que poderia ter alguma informação. Falei com vapores, os que circulam sem ser vistos; com soldados, que seguem ordens mas ouvem tudo; com gerentes, que sabem dos negócios; até com moradores das ruas, que veem o que ninguém mais vê. Mas ninguém sabia de nada. Ou, pior ainda, fingiam muito bem que não sabiam. No final da tarde, quando o calor já começava a diminuir e as sombras ficavam mais longas, Caveira apareceu correndo, o peito arfando e o rosto pálido. — Raíssa! — Fala, Caveira. O que foi? — Tem problema. Meu coração acelerou dentro do peito. Na nossa vida, problema nunca vinha sozinho. Geralmente vinha acompanhado de sangue, perda ou perigo. — Que tipo de problema? — Pegaram um dos nossos. Minha garganta secou. — Quem? — Juninho. Fechei os olhos com força, praguejando baixo. Merda. Juninho era um dos soldados que estavam com Matador no dia da prisão. Um dos poucos que estiveram lá, do lado dele, quando tudo desmoronou. — Onde ele tá? — perguntei, já sabendo a resposta antes que ele falasse. — Ninguém sabe. Meu sangue gelou nas veias, transformando-se em água fria. — Como assim ninguém sabe? Ele não está em casa? Não apareceu no ponto? — Ele desapareceu. Saiu para fazer uma tarefa pela manhã e não voltou. Ninguém teve notícias dele desde então. Uma hora depois, eu estava reunida com Relíquia. Estávamos sentados sozinhos na sala, um de frente para o outro, o silêncio pesado pairando entre nós. — Isso não é coincidência — comecei, quebrando o silêncio primeiro. — Eu sei. — Primeiro a ameaça, mandada direto para mim. — Eu sei, Raíssa. — Agora, um dos únicos homens que estavam lá naquele dia simplesmente desaparece. — Eu sei, Relíquia! — minha voz saiu mais alta e afiada do que eu pretendia, carregada de frustração. Ele ficou em silêncio, apenas me observando, sem julgamento. Respirei fundo, tentando empurrar a raiva para baixo, tentando me controlar. Eu precisava pensar, não explodir. — Desculpa — murmurei, passando a mão pelo rosto cansado. — Tá tudo bem. Eu também estou vendo o mesmo quadro. Eu estava exausta. Cansada de bater em portas fechadas. Irritada de ser jogada de um lado para o outro. E, pela primeira vez em muito tempo, começando a me sentir encurralada. — Alguém tá limpando os rastros — a frase saiu quase como um sussurro, mas pareceu ecoar pela sala. Relíquia assentiu lentamente. — Também acho. Estão apagando qualquer ligação com o que aconteceu. — E cada vez que a gente chega perto de alguma resposta, alguma coisa acontece para nos fazer parar. Ele se inclinou para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos, o olhar firme e determinado. — Então vamos mudar o jogo. Vamos achar esse filho da mãe antes que ele ache a gente. Pela primeira vez naquele dia sombrio, senti um pequeno fio de esperança reacender no peito. Porque, se tinha uma pessoa em quem eu confiava cegamente, fora Matador... era Relíquia. Ou, pelo menos, era o que eu queria acreditar. Já era noite quando voltei para casa. O cansaço físico e mental pesava nos meus ombros como chumbo. Tomei um banho quente, tentando lavar a sensação de sujeira e impotência, troquei de roupa e finalmente sentei na varanda, olhando para a cidade que dormia (ou fingia dormir). Eu só precisava de cinco minutos. Cinco minutos de silêncio. Cinco minutos de paz. Mas o destino, ao que parecia, tinha uma queda por me ver sofrer. Ouvi passos. Lentos. Calculados. Logo depois, uma voz feminina, calma e clara, cortou a escuridão. — Raíssa. Levantei o olhar de supetão. Meu coração travou no peito, batendo descompassado. Era uma mulher. Alta. Bonita, de um jeito duro e perigoso. Totalmente desconhecida. E, na minha linha de trabalho, desconhecido era sinônimo de problema. Um grande problema. — Quem é você? — perguntei, a mão já indo imediatamente para o cabo da arma escondida na cintura. Ela não recuou. Não demonstrou medo. Nem hesitação. Apenas me encarou com olhos que pareciam saber todos os meus segredos. — Meu nome não importa. Não ainda. Apertei a arma por baixo da roupa. — Então fala logo o que você quer. Porque eu não estou com paciência para enigmas. A mulher respirou fundo, o peito subindo e descendo devagar. Deu um passo à frente, saindo da sombra, e soltou a frase que fez o meu mundo parar de girar. — Eu sei quem entregou o Matador. O silêncio caiu entre nós. Denso. Pesado. Sufocante. Perigoso. Naquele instante, eu tive certeza: a caça ao traidor acabara de deixar de ser uma investigação solitária para se transformar em algo muito maior. E muito mais mortal.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD