Capítulo 06

1089 Words
Raíssa Meu dedo já estava no gatilho. Não porque eu pretendia atirar — ainda não — mas porque, no meu mundo, confiança era um luxo que eu não podia me dar ao direito de ter. Qualquer um podia ser inimigo. Qualquer aproximação podia ser uma armadilha. A mulher continuou parada na minha frente, imóvel. Calma demais. Controlada demais. Como se soubesse exatamente o efeito que suas palavras causaram em mim. — Repete — ordenei, a voz baixa e carregada de tensão. Ela sustentou meu olhar sem piscar. — Eu sei quem entregou o Matador. Meu coração disparou no peito, batendo forte contra as costelas. Meses atrás, eu teria dado risada e mandado ela ir embora, achando que era apenas mais uma história inventada para ganhar alguma vantagem. Agora? Bem... eu também achava que podia ser uma armadilha. Mas era uma armadilha interessante. A única pista real que eu tinha depois de tanto tempo batendo em portas fechadas. — Quem é você, afinal? — Já falei. Isso não importa. — Pra mim importa — rebati, firme. Eu não negociava com fantasmas. Ela suspirou, como se estivesse decidindo quanto revelar. — Então vamos dizer que sou alguém que quer ver a verdade aparecer. E que quem fez o que fez receba o que merece. Dei uma risada seca, sem humor. — Que bonito. Parece discurso de herói de novela. Ela ignorou a provocação, mantendo o tom sério. — Você quer saber quem foi ou não? Porque eu posso muito bem dar meia-volta e levar essa informação comigo. Cruzei os braços, avaliando-a. Havia verdade na sua postura, ou pelo menos convicção. — Quero. — Então para de me interromper e escuta. Aquilo quase me fez sorrir. Quase. Pouquíssimas pessoas tinham coragem de falar comigo daquele jeito, de me tratar como uma igual ou até como uma criança impaciente. Minutos depois, estávamos dentro de casa, sentados na sala. Eu. Ela. E Relíquia. Porque eu não era i****a. Não ia ficar sozinha com uma desconhecida que aparecia do nada com uma bomba dessas. Se fosse cilada, pelo menos teríamos dois alvos e não apenas um. — Agora fala — pedi, direta. A mulher olhou de mim para Relíquia, e depois voltou para mim. — Antes, eu quero uma garantia. — Você não tá em posição de exigir nada — cortou Relíquia, antes que eu pudesse responder. — Talvez eu esteja — rebateu ela, sem se abalar. Meu maxilar travou. Ela era irritante. Confiante demais. E eu odiava gente que era confiante demais sem motivo aparente. Geralmente, pessoas assim escondiam alguma coisa grande. — Quem mandou você vir aqui? — perguntei, tentando encontrar a brecha. — Ninguém. Vim por conta própria. — Mentira. — Não vim atrás de dinheiro, se é o que está pensando. — Então por quê? O que você ganha com isso? Pela primeira vez, ela hesitou. Foi apenas uma fração de segundo, um piscar de olhos mais demorado, mas eu percebi. — Porque alguém morreu — disse ela, e sua voz perdeu um pouco da força. O ar na sala ficou mais pesado, denso. — Quem? — Meu irmão. Relíquia se mexeu na cadeira ao meu lado, surpreso. Eu permaneci imóvel, esperando. — Continua. — Ele trabalhava para uma facção rival da nossa. Havia algum tempo. — E daí? Muita gente trabalha para o lado contrário. Isso não significa nada. — Ele descobriu algo que nunca deveria ter descoberto — continuou ela, ignorando minha objeção. Senti um arrepio percorrer minha nuca. Meu instinto gritava que estávamos chegando ao ponto crucial. — O quê? Ela se inclinou para frente, os olhos fixos nos meus. — Quem foi que entregou o Matador. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Ninguém falou nada. Nem eu. Nem Relíquia. Até mesmo o som do ventilador no teto pareceu desaparecer, como se o mundo inteiro tivesse parado para ouvir aquilo. — Você tá me dizendo que o seu irmão sabia a identidade do traidor? — Sim. — E por que ele morreu? — Porque tentou vender essa informação. Achou que podia negociar com quem não negocia com ninguém. Fechei os olhos por um instante, juntando as peças. Aquilo fazia um sentido c***l. No nosso mundo, informação valia mais que droga, mais que arma, mais que todo o dinheiro do cofre. E quem detinha segredos ou negociava com eles, geralmente acabava morto. — Então me diz logo o nome — pedi, a voz saindo num sussurro tenso. A mulher respirou fundo, enchendo o peito de ar, como se estivesse se preparando para algo inevitável. — O nome que meu irmão ouviu foi... Ela parou de repente. O som de tiros explodiu do lado de fora, cortando a noite como um chicote. PÁ! PÁ! PÁ! A mulher se jogou bruscamente no chão, buscando abrigo. Relíquia já estava de pé, arma em punho, apontada para a janela. Eu corri até a parede, olhando pela fresta. Mais tiros. Mais gritos. Gritos de ordem, gritos de dor. O morro inteiro entrou em estado de alerta num piscar de olhos. — Merda! — exclamei. Lá fora, homens corriam desesperados pelas vielas escuras. Motos aceleravam rasgando o asfalto. Era caos puro. Alguém estava atacando. — O que tá acontecendo? — perguntou Relíquia, com o olhar fixo na rua. Meu celular tocou no bolso, estridente no meio do barulho. Atendi imediatamente, sem olhar o identificador. — Fala! — Raíssa! Era Caveira. E pelo tom de sua voz, eu soube antes mesmo que ele falasse: era grave. Muito grave. — Invadiram o depósito! Meu sangue gelou nas veias, transformando-se em água fria. — O quê? Como assim? — Arrombaram os portões. Atiraram nos vigias. Levaram tudo, Raíssa! Tudo o que tinha lá dentro! — Quem foi? Você viu quem era? — Não! Chegaram de surpresa, encapuzados, atirando para todo lado! Desliguei o telefone, sentindo uma náusea forte subir pela garganta. Olhei primeiro para a mulher, ainda no chão, e depois para Relíquia. Uma sensação horrível, viscosa e pesada, tomou conta de mim. Aquilo não era um ataque aleatório. Não era uma briga de território comum. Parecia calculado. Parecia planejado. Como se alguém tivesse propositalmente criado uma distração gigantesca, exatamente no momento exato em que eu estava prestes a ouvir o nome do traidor. E isso só significava uma coisa. Ele sabia que eu estava perto. O traidor estava um passo à frente de nós. De novo. Mas dessa vez, com toda a certeza queimando no meu peito, eu entendi: ele não estava apenas nos observando de longe. Ele estava muito mais perto do que podíamos imaginar.
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