O depósito tinha sido esvaziado.
Não destruído.
Não atacado.
Esvaziado.
Aquilo era o que mais me incomodava. Porque mostrava planejamento. Mostrava informação. Mostrava alguém que sabia exatamente onde bater.
Eu estava parada no meio do galpão, observando as prateleiras vazias. Meu sangue fervia.
— Nenhum guarda viu nada?
— Não.
— Nenhuma câmera?
— Cortaram os cabos.
Fechei os olhos. Aquilo estava ficando ridículo. O traidor parecia saber tudo antes de nós. Todos os passos. Todos os movimentos. Todos os planos.
— Raíssa...
Abri os olhos. Relíquia estava parado atrás de mim.
— Fala.
— A mulher foi embora.
Meu corpo congelou.
— O quê?
— Aproveitou a confusão.
— Como assim foi embora?
— Sumiu.
Soltei um palavrão. Alto. Daqueles que fizeram até os soldados ao redor ficarem quietos. A única pessoa que poderia me dar respostas tinha desaparecido.
Mais tarde, já de madrugada, subi para a laje. Precisava pensar.
O vento frio batia no meu rosto, mas não conseguia acalmar minha cabeça. Alguém tinha invadido o depósito. Alguém tinha feito a mulher desaparecer. Alguém estava sempre um passo à frente. E eu começava a ficar cansada disso.
— Você faz essa cara quando tá prestes a fazer besteira.
A voz de Relíquia surgiu atrás de mim. Nem me virei.
— Talvez eu esteja.
— Eu sabia.
Ele parou ao meu lado. Os dois olhando para as luzes espalhadas pela favela.
— Tá pensando no quê?
— Em quem.
— Ainda acha que o traidor tá aqui dentro?
— Tenho certeza.
Relíquia ficou em silêncio. Longo demais.
Virei o rosto para encará-lo.
— O que foi?
— Nada.
— Fala.
Ele suspirou.
— Você já pensou que talvez esteja procurando a pessoa errada?
Franzi a testa.
— Como assim?
— Talvez o traidor não seja alguém do morro.
— Não.
— Raíssa...
— Não.
Virei completamente para ele.
— Quem entregou Matador sabia exatamente onde ele estaria. Sabia a hora. Sabia o carro. Sabia a rota. Aquilo veio de dentro.
Relíquia sustentou meu olhar. E pela primeira vez desde que tudo começou... eu vi algo estranho nos olhos dele. Algo que desapareceu rápido demais para eu entender.
No dia seguinte acordei com o celular tocando. Atendi irritada.
— Fala.
— Encontraram o Juninho.
Sentei na cama na mesma hora.
— Onde?
— No matagal atrás da estrada.
Meu coração afundou.
— Ele tá vivo?
O silêncio respondeu antes da voz do homem.
— Não.
Quinze minutos depois eu estava no local.
A polícia ainda não tinha chegado. E isso era bom. Porque eu precisava ver com meus próprios olhos.
Juninho estava caído no chão. Imóvel. Sem vida.
Aproximei devagar, sentindo uma mistura de raiva e tristeza. Ele era apenas um garoto. Novo demais para morrer. Mas velho o suficiente para conhecer as regras.
Me ajoelhei ao lado do corpo. Foi quando percebi algo.
Havia um papel amassado preso dentro da sua mão.
Meu coração acelerou. Peguei o papel. Abri devagar. E senti o mundo parar.
Porque havia apenas uma frase escrita:
"Confie em ninguém."
Fiquei imóvel. O vento balançava o papel entre meus dedos. Minha cabeça girava.
Ninguém.
Nem mesmo os mais próximos.
Nem mesmo aqueles que estavam comigo todos os dias.
Levantei lentamente. E quando meus olhos encontraram Relíquia, parado alguns metros atrás de mim... pela primeira vez desde que tudo começou... uma dúvida atravessou meu coração.
E eu odiei isso.
Porque se havia uma pessoa que eu jamais imaginei suspeitar... era dele.