Capítulo 07

575 Words
O depósito tinha sido esvaziado. Não destruído. Não atacado. Esvaziado. Aquilo era o que mais me incomodava. Porque mostrava planejamento. Mostrava informação. Mostrava alguém que sabia exatamente onde bater. Eu estava parada no meio do galpão, observando as prateleiras vazias. Meu sangue fervia. — Nenhum guarda viu nada? — Não. — Nenhuma câmera? — Cortaram os cabos. Fechei os olhos. Aquilo estava ficando ridículo. O traidor parecia saber tudo antes de nós. Todos os passos. Todos os movimentos. Todos os planos. — Raíssa... Abri os olhos. Relíquia estava parado atrás de mim. — Fala. — A mulher foi embora. Meu corpo congelou. — O quê? — Aproveitou a confusão. — Como assim foi embora? — Sumiu. Soltei um palavrão. Alto. Daqueles que fizeram até os soldados ao redor ficarem quietos. A única pessoa que poderia me dar respostas tinha desaparecido. Mais tarde, já de madrugada, subi para a laje. Precisava pensar. O vento frio batia no meu rosto, mas não conseguia acalmar minha cabeça. Alguém tinha invadido o depósito. Alguém tinha feito a mulher desaparecer. Alguém estava sempre um passo à frente. E eu começava a ficar cansada disso. — Você faz essa cara quando tá prestes a fazer besteira. A voz de Relíquia surgiu atrás de mim. Nem me virei. — Talvez eu esteja. — Eu sabia. Ele parou ao meu lado. Os dois olhando para as luzes espalhadas pela favela. — Tá pensando no quê? — Em quem. — Ainda acha que o traidor tá aqui dentro? — Tenho certeza. Relíquia ficou em silêncio. Longo demais. Virei o rosto para encará-lo. — O que foi? — Nada. — Fala. Ele suspirou. — Você já pensou que talvez esteja procurando a pessoa errada? Franzi a testa. — Como assim? — Talvez o traidor não seja alguém do morro. — Não. — Raíssa... — Não. Virei completamente para ele. — Quem entregou Matador sabia exatamente onde ele estaria. Sabia a hora. Sabia o carro. Sabia a rota. Aquilo veio de dentro. Relíquia sustentou meu olhar. E pela primeira vez desde que tudo começou... eu vi algo estranho nos olhos dele. Algo que desapareceu rápido demais para eu entender. No dia seguinte acordei com o celular tocando. Atendi irritada. — Fala. — Encontraram o Juninho. Sentei na cama na mesma hora. — Onde? — No matagal atrás da estrada. Meu coração afundou. — Ele tá vivo? O silêncio respondeu antes da voz do homem. — Não. Quinze minutos depois eu estava no local. A polícia ainda não tinha chegado. E isso era bom. Porque eu precisava ver com meus próprios olhos. Juninho estava caído no chão. Imóvel. Sem vida. Aproximei devagar, sentindo uma mistura de raiva e tristeza. Ele era apenas um garoto. Novo demais para morrer. Mas velho o suficiente para conhecer as regras. Me ajoelhei ao lado do corpo. Foi quando percebi algo. Havia um papel amassado preso dentro da sua mão. Meu coração acelerou. Peguei o papel. Abri devagar. E senti o mundo parar. Porque havia apenas uma frase escrita: "Confie em ninguém." Fiquei imóvel. O vento balançava o papel entre meus dedos. Minha cabeça girava. Ninguém. Nem mesmo os mais próximos. Nem mesmo aqueles que estavam comigo todos os dias. Levantei lentamente. E quando meus olhos encontraram Relíquia, parado alguns metros atrás de mim... pela primeira vez desde que tudo começou... uma dúvida atravessou meu coração. E eu odiei isso. Porque se havia uma pessoa que eu jamais imaginei suspeitar... era dele.
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