Eu odiava duvidar das pessoas.
Mentira.
Eu odiava duvidar das pessoas certas.
Passei o resto do dia com aquele papel martelando na cabeça: “Confie em ninguém.”
A frase parecia simples, mas não era. Porque Juninho sabia de alguma coisa, e morreu antes de contar. Aquilo não era coincidência. Era um recado, e alguém queria que eu o lesse.
Quando a noite caiu, fui até a casa do Matador. Sozinha.
Precisava pensar, organizar as peças daquele quebra-cabeça maldito. Sentei na varanda e acendi um cigarro coisa que eu raramente fazia, mas aquela semana estava me envelhecendo dez anos. Primeiro a prisão, depois as ameaças, a mulher misteriosa, o depósito roubado. Agora, Juninho morto. Era informação demais e resposta nenhuma.
O barulho do portão me fez levantar os olhos. Relíquia. De novo. Ultimamente ele parecia estar em todos os lugares.
— Tá virando meu sombra?
Ele sorriu.
— Você tá ficando engraçada.
— Tô ficando sem paciência.
— Percebi.
Ele se sentou na cadeira ao lado. Por alguns segundos ficamos em silêncio, até que resolvi fazer a pergunta que estava me consumindo por dentro.
— Onde você tava no dia que o Matador foi preso?
O sorriso dele desapareceu na hora.
— Como é?
— Você ouviu.
Os olhos dele ficaram frios como gelo.
— Tá me investigando agora?
— Responde.
Relíquia me encarou por longos e intermináveis segundos.
— Eu tava onde disse que tava.
— Isso não respondeu minha pergunta.
— E a sua pergunta é ridícula.
Meu sangue esquentou nas veias.
— Juninho morreu.
— Eu sei.
— Alguém tá matando quem sabe demais.
— Eu sei.
— Então responde.
Ele levantou da cadeira, visivelmente irritado algo raro, quase impossível de acontecer com ele.
— Você acha que fui eu?
A pergunta pairou entre nós. Pesada. Perigosa. Eu não queria responder porque não sabia, e isso era o pior de tudo.
— Eu não sei o que pensar — a verdade saiu antes que eu pudesse segurar.
Relíquia passou a mão pelo rosto, como se minhas palavras tivessem machucado mais do que um soco.
— Depois de tudo?
— Não torna você inocente.
Ele riu, mas não foi uma risada feliz. Foi amarga, desesperada.
— Entendi.
Por alguns segundos ninguém falou nada. O silêncio era sufocante, denso o suficiente para se cortar com uma faca. Até que ele tirou algo do bolso: um envelope pardo, e o jogou sobre a mesa de madeira entre nós.
— O que é isso?
— Abre.
Franzi a testa. Peguei o envelope com as mãos um pouco trêmulas e o abri. Meu coração quase parou de bater.
Fotos. Várias fotos. Da abordagem policial, do dia da prisão, do carro do Matador, dos policiais em formação. Meu olhar voltou imediatamente para Relíquia.
— Onde conseguiu isso?
— Tenho meus contatos.
Passei as fotos uma por uma, analisando cada detalhe, até que uma imagem me fez parar. Meu coração acelerou descontroladamente. Havia um homem parado do outro lado da rua, longe da confusão. Imóvel. Observando tudo.
— Quem é ele?
— Era exatamente isso que eu estava tentando descobrir.
Levantei os olhos para ele, atônita.
— Você já tinha isso?
— Há dois dias.
— E não me mostrou?
— Porque eu queria ter certeza antes de te jogar mais uma dúvida na cabeça.
Fechei o envelope com força, amassando as bordas.
— Não esconde mais nada de mim.
Ele deu um meio sorriso, sem alegria.
— Engraçado ouvir isso depois de você me tratar como suspeito.
Aquilo me atingiu em cheio, porque ele tinha razão. Mas, antes que eu pudesse responder, meu celular tocou. Número desconhecido. De novo. Atendi imediatamente, o coração na mão.
— Fala.
A voz do outro lado era masculina, desconhecida e carregada de pânico.
— Você é a Raíssa?
— Quem tá falando?
— Escuta com atenção.
— Quem é você?
— O homem das fotos...
Meu sangue gelou.
— O que tem ele?
O homem respirou fundo, como quem está prestes a cometer um suicídio.
— Ele não trabalha pra polícia.
Meu corpo inteiro ficou tenso, rígido como uma estátua.
— Então pra quem ele trabalha?
A resposta veio baixa, mas nítida, e eu senti o chão desaparecer sob os meus pés.
— Pro Matador.