— O quê? — foi a única coisa que consegui dizer.
Do outro lado da linha, o homem parecia nervoso, assustado, como se estivesse arriscando a própria vida ao falar comigo.
— Você ouviu.
— Não. Você deve estar confundindo as coisas.
— Não tô.
Meu coração batia tão forte que chegava a doer.
— O Matador não mandaria alguém seguir a própria prisão.
— Eu só tô te falando o que descobri.
— Quem é você?
Houve apenas silêncio.
— Quem é você? — repeti, mas a ligação já tinha caído.
Fiquei parada com o celular na mão, tentando entender, sem conseguir. Porque aquilo não fazia sentido nenhum.
— O que foi?
Relíquia percebeu na hora que alguma coisa estava errada. Levantei os olhos lentamente para ele.
— O homem da foto.
— O que tem ele?
— Disseram que trabalha pro Matador.
O silêncio que veio depois foi estranho. Muito estranho. Relíquia não respondeu imediatamente, e eu percebi:
— Você já sabia disso.
Ele desviou o olhar. Aquilo foi o suficiente.
— Você sabia.
— Eu ouvi rumores.
— E não me contou?
— Porque não tinha certeza.
Joguei o envelope sobre a mesa com força.
— Todo mundo tá escondendo alguma coisa de mim?
— Eu tô tentando proteger você.
— Não preciso que ninguém me proteja! — Minha voz ecoou pela varanda.
Mas a verdade era outra: eu estava confusa pela primeira vez desde o início. Porque se aquilo fosse verdade, o Matador estava escondendo algo muito grande.
Naquela noite eu não consegui dormir. Fiquei lembrando da visita na cadeia, de cada palavra, de cada olhar, de cada detalhe. Uma coisa começou a me incomodar: quando falei sobre a traição, o Matador não parecia surpreso. Parecia preparado, como se já tivesse uma história pronta, como se estivesse me empurrando para uma direção específica.
Balancei a cabeça, tentando afastar o pensamento. Não, era impossível. O Matador nunca mentiu para mim. Nunca. Mas então por que aquele homem estava trabalhando para ele?
No dia seguinte, fui acordada por batidas violentas na porta.
— Raíssa!
Levantei assustada. Era o Caveira. Quando abri a porta, ele estava completamente pálido.
— O que aconteceu?
— Você precisa vir.
— Pra onde?
— Agora.
Vinte minutos depois, eu estava dentro de um galpão abandonado. O local cheirava a mofo, sangue e medo. Meu estômago virou. No centro do galpão havia uma cadeira e, amarrado nela, estava o homem que tinha me ligado. Ainda vivo, mas por pouco. O rosto coberto de sangue, os olhos inchados, as mãos atadas por cordas grossas. Meu coração disparou.
— Quem fez isso?
Caveira engoliu em seco.
— Encontramos ele assim.
Aproximei-me lentamente. O homem levantou a cabeça com dificuldade quando me viu.
— Raíssa... — A voz saiu fraca, quase um sussurro. — Fui eu quem ligou.
— Eu sei.
— Eles me pegaram.
— Quem?
Ele começou a tremer, como se só a pergunta já fosse suficiente para aterrorizá-lo.
— Eu não posso dizer.
— Pode sim.
— Não...
— Fala!
Os olhos dele se encheram de pânico.
— Você não entende.
— Então me faz entender.
Ele respirou fundo e então disse algo que fez meu sangue gelar de vez:
— Você tá procurando o traidor errado.
Meu coração acelerou ainda mais.
— O que isso quer dizer?
— Ninguém entregou o Matador.
Fiquei imóvel.
— O quê?
— Ninguém vendeu ele.
O mundo pareceu parar, porque aquela frase mudava tudo. Absolutamente tudo.
— Então como ele foi preso?
O homem fechou os olhos, como se soubesse que estava assinando sua própria sentença de morte, e finalmente respondeu.
— Porque ele queria ser preso.
O silêncio tomou conta do galpão. E, pela primeira vez desde o início daquela história, eu senti um medo real.