Capítulo 09

630 Words
— O quê? — foi a única coisa que consegui dizer. Do outro lado da linha, o homem parecia nervoso, assustado, como se estivesse arriscando a própria vida ao falar comigo. — Você ouviu. — Não. Você deve estar confundindo as coisas. — Não tô. Meu coração batia tão forte que chegava a doer. — O Matador não mandaria alguém seguir a própria prisão. — Eu só tô te falando o que descobri. — Quem é você? Houve apenas silêncio. — Quem é você? — repeti, mas a ligação já tinha caído. Fiquei parada com o celular na mão, tentando entender, sem conseguir. Porque aquilo não fazia sentido nenhum. — O que foi? Relíquia percebeu na hora que alguma coisa estava errada. Levantei os olhos lentamente para ele. — O homem da foto. — O que tem ele? — Disseram que trabalha pro Matador. O silêncio que veio depois foi estranho. Muito estranho. Relíquia não respondeu imediatamente, e eu percebi: — Você já sabia disso. Ele desviou o olhar. Aquilo foi o suficiente. — Você sabia. — Eu ouvi rumores. — E não me contou? — Porque não tinha certeza. Joguei o envelope sobre a mesa com força. — Todo mundo tá escondendo alguma coisa de mim? — Eu tô tentando proteger você. — Não preciso que ninguém me proteja! — Minha voz ecoou pela varanda. Mas a verdade era outra: eu estava confusa pela primeira vez desde o início. Porque se aquilo fosse verdade, o Matador estava escondendo algo muito grande. Naquela noite eu não consegui dormir. Fiquei lembrando da visita na cadeia, de cada palavra, de cada olhar, de cada detalhe. Uma coisa começou a me incomodar: quando falei sobre a traição, o Matador não parecia surpreso. Parecia preparado, como se já tivesse uma história pronta, como se estivesse me empurrando para uma direção específica. Balancei a cabeça, tentando afastar o pensamento. Não, era impossível. O Matador nunca mentiu para mim. Nunca. Mas então por que aquele homem estava trabalhando para ele? No dia seguinte, fui acordada por batidas violentas na porta. — Raíssa! Levantei assustada. Era o Caveira. Quando abri a porta, ele estava completamente pálido. — O que aconteceu? — Você precisa vir. — Pra onde? — Agora. Vinte minutos depois, eu estava dentro de um galpão abandonado. O local cheirava a mofo, sangue e medo. Meu estômago virou. No centro do galpão havia uma cadeira e, amarrado nela, estava o homem que tinha me ligado. Ainda vivo, mas por pouco. O rosto coberto de sangue, os olhos inchados, as mãos atadas por cordas grossas. Meu coração disparou. — Quem fez isso? Caveira engoliu em seco. — Encontramos ele assim. Aproximei-me lentamente. O homem levantou a cabeça com dificuldade quando me viu. — Raíssa... — A voz saiu fraca, quase um sussurro. — Fui eu quem ligou. — Eu sei. — Eles me pegaram. — Quem? Ele começou a tremer, como se só a pergunta já fosse suficiente para aterrorizá-lo. — Eu não posso dizer. — Pode sim. — Não... — Fala! Os olhos dele se encheram de pânico. — Você não entende. — Então me faz entender. Ele respirou fundo e então disse algo que fez meu sangue gelar de vez: — Você tá procurando o traidor errado. Meu coração acelerou ainda mais. — O que isso quer dizer? — Ninguém entregou o Matador. Fiquei imóvel. — O quê? — Ninguém vendeu ele. O mundo pareceu parar, porque aquela frase mudava tudo. Absolutamente tudo. — Então como ele foi preso? O homem fechou os olhos, como se soubesse que estava assinando sua própria sentença de morte, e finalmente respondeu. — Porque ele queria ser preso. O silêncio tomou conta do galpão. E, pela primeira vez desde o início daquela história, eu senti um medo real.
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