Capítulo 10

642 Words
— Você tá ficando louco. Foi a primeira coisa que saiu da minha boca. Porque aquela era a única explicação possível. O homem tentou se levantar da cadeira, mas não conseguiu. Estava machucado demais. — Eu tô falando a verdade — ele insistiu. — Não. — Tô. — Ninguém escolhe ser preso. Ele deu uma risada fraca. Dolorosa. Sem humor nenhum. — Você não conhece o Matador tão bem quanto pensa. Aquilo me atingiu como um soco. Porque ninguém falava daquele jeito sobre ele. Ninguém. — Cuidado com o que fala. — Ou o quê? Me aproximei. — Ou eu esqueço que você tá ferido. Os olhos dele encontraram os meus. Sem medo. — Então por que ele colocou um homem pra vigiar a própria prisão? Meu corpo travou. Porque eu não tinha resposta. — Fala tudo — ordenei. A voz saiu baixa, perigosa. — Eu só sei o que ouvi. — Então fala . — Existe alguma coisa escondida. — Que coisa? — Não sei. — Quem sabe? — Matador. Meu coração acelerou. — E quem mais? O homem demorou alguns segundos. Segundos demais. — Talvez Relíquia. Virei tão rápido que Caveira chegou a dar um passo para trás. — O quê? — Eu ouvi o nome dele. Meu sangue gelou. — Tá mentindo. — Não tô. — Tá. — Não tô. Fechei os punhos. Porque, naquele momento, eu não sabia quem estava mentindo. O homem, Relíquia ou Matador. Mais tarde, voltei para casa sem falar com ninguém. Minha cabeça estava um caos. A prisão. O espião. As ameaças. Juninho morto. Agora aquilo. A sensação era de que eu tinha passado a história inteira olhando para a direção errada. Como se alguém estivesse me conduzindo exatamente para onde queria. E eu odiei isso. Porque eu não era manipulada por ninguém. Quando cheguei, encontrei Relíquia sentado na escada da varanda. Me esperando. — Precisamos conversar — ele disse. Parei. — Engraçado. — O quê? — Eu tava pensando a mesma coisa. Ele percebeu na hora que havia algo errado. — O que aconteceu? — Achei o homem da ligação. — E? Cruzei os braços. — Ele disse que ninguém entregou o Matador. Relíquia ficou imóvel. Completamente imóvel. — E disse mais uma coisa — continuei. O olhar dele escureceu. — O quê? — Disse que talvez você soubesse da verdade. O silêncio que veio depois foi ensurdecedor. Relíquia passou a mão pela nuca, nervoso. E aquilo era raro. Muito raro. — Você acredita nisso? — Não sei. A verdade saiu antes que eu pudesse impedir. E pareceu machucá-lo. — Então chegamos nesse ponto — ele murmurou. — Que ponto? — O ponto onde você não confia mais em mim. Desviei o olhar. Porque aquilo não era totalmente mentira. — Tem gente morta, Relíquia. — Eu sei. — Tem ameaça. Tem segredo. Tem mentira. — Eu sei. — Então me ajuda a entender. Ele respirou fundo, como se estivesse tomando uma decisão. Uma decisão difícil. — Tem uma coisa que eu nunca te contei. Meu coração disparou. — Que coisa? — Antes da prisão... — Ele parou e olhou diretamente para mim. — Matador me pediu para fazer um serviço. — Que serviço? — Se alguma coisa acontecesse com ele... — Continua. — Eu deveria proteger você. Franzi a testa. — Só isso? — Não. Meu estômago afundou. Porque aquele "não" carregava algo muito maior. Muito pior. — Então fala. Relíquia fechou os olhos por um segundo. E quando voltou a abri-los, eu soube que nada seria igual depois daquilo. — E ele me fez prometer que eu jamais deixaria você descobrir o que realmente aconteceu no dia da prisão. O mundo pareceu parar. E, pela primeira vez, eu comecei a me perguntar se o maior segredo daquela história não estava atrás das grades. Estava sentado dentro de uma cela. Esperando por mim.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD