— Você tá ficando louco.
Foi a primeira coisa que saiu da minha boca. Porque aquela era a única explicação possível.
O homem tentou se levantar da cadeira, mas não conseguiu. Estava machucado demais.
— Eu tô falando a verdade — ele insistiu.
— Não.
— Tô.
— Ninguém escolhe ser preso.
Ele deu uma risada fraca. Dolorosa. Sem humor nenhum.
— Você não conhece o Matador tão bem quanto pensa.
Aquilo me atingiu como um soco. Porque ninguém falava daquele jeito sobre ele. Ninguém.
— Cuidado com o que fala.
— Ou o quê?
Me aproximei.
— Ou eu esqueço que você tá ferido.
Os olhos dele encontraram os meus. Sem medo.
— Então por que ele colocou um homem pra vigiar a própria prisão?
Meu corpo travou. Porque eu não tinha resposta.
— Fala tudo — ordenei. A voz saiu baixa, perigosa.
— Eu só sei o que ouvi.
— Então fala
.
— Existe alguma coisa escondida.
— Que coisa?
— Não sei.
— Quem sabe?
— Matador.
Meu coração acelerou.
— E quem mais?
O homem demorou alguns segundos. Segundos demais.
— Talvez Relíquia.
Virei tão rápido que Caveira chegou a dar um passo para trás.
— O quê?
— Eu ouvi o nome dele.
Meu sangue gelou.
— Tá mentindo.
— Não tô.
— Tá.
— Não tô.
Fechei os punhos. Porque, naquele momento, eu não sabia quem estava mentindo. O homem, Relíquia ou Matador.
Mais tarde, voltei para casa sem falar com ninguém. Minha cabeça estava um caos.
A prisão. O espião. As ameaças. Juninho morto. Agora aquilo.
A sensação era de que eu tinha passado a história inteira olhando para a direção errada. Como se alguém estivesse me conduzindo exatamente para onde queria. E eu odiei isso. Porque eu não era manipulada por ninguém.
Quando cheguei, encontrei Relíquia sentado na escada da varanda. Me esperando.
— Precisamos conversar — ele disse.
Parei.
— Engraçado.
— O quê?
— Eu tava pensando a mesma coisa.
Ele percebeu na hora que havia algo errado.
— O que aconteceu?
— Achei o homem da ligação.
— E?
Cruzei os braços.
— Ele disse que ninguém entregou o Matador.
Relíquia ficou imóvel. Completamente imóvel.
— E disse mais uma coisa — continuei.
O olhar dele escureceu.
— O quê?
— Disse que talvez você soubesse da verdade.
O silêncio que veio depois foi ensurdecedor.
Relíquia passou a mão pela nuca, nervoso. E aquilo era raro. Muito raro.
— Você acredita nisso?
— Não sei.
A verdade saiu antes que eu pudesse impedir. E pareceu machucá-lo.
— Então chegamos nesse ponto — ele murmurou.
— Que ponto?
— O ponto onde você não confia mais em mim.
Desviei o olhar. Porque aquilo não era totalmente mentira.
— Tem gente morta, Relíquia.
— Eu sei.
— Tem ameaça. Tem segredo. Tem mentira.
— Eu sei.
— Então me ajuda a entender.
Ele respirou fundo, como se estivesse tomando uma decisão. Uma decisão difícil.
— Tem uma coisa que eu nunca te contei.
Meu coração disparou.
— Que coisa?
— Antes da prisão... — Ele parou e olhou diretamente para mim. — Matador me pediu para fazer um serviço.
— Que serviço?
— Se alguma coisa acontecesse com ele...
— Continua.
— Eu deveria proteger você.
Franzi a testa.
— Só isso?
— Não.
Meu estômago afundou. Porque aquele "não" carregava algo muito maior. Muito pior.
— Então fala.
Relíquia fechou os olhos por um segundo. E quando voltou a abri-los, eu soube que nada seria igual depois daquilo.
— E ele me fez prometer que eu jamais deixaria você descobrir o que realmente aconteceu no dia da prisão.
O mundo pareceu parar. E, pela primeira vez, eu comecei a me perguntar se o maior segredo daquela história não estava atrás das grades.
Estava sentado dentro de uma cela. Esperando por mim.