Capítulo 11

658 Words
RAÍSSA — Repete. Minha voz saiu baixa, perigosa. Relíquia manteve os olhos nos meus. — Matador não queria que você descobrisse a verdade. — Que verdade? — Eu não sei tudo. — Mentira. — Eu juro. Dei uma risada amarga. — Você tá me pedindo pra acreditar em juramento agora? Ele passou a mão pelo rosto, cansado. — Eu sabia que isso ia acontecer. — Então por que não falou antes? — Porque prometi. — Pra ele? — Pra ele. Meu sangue ferveu. Eu tinha passado semanas correndo atrás de pistas, correndo atrás de fantasmas, enquanto os dois escondiam alguma coisa. — Você sabia desde o começo? — Não. — Sabia da prisão? — Não. — Sabia que ele queria esconder algo? — Sim. O silêncio caiu entre nós. Pesado. Sufocante. — O que exatamente ele disse? Relíquia ficou alguns segundos sem responder. Depois falou. — Ele disse que se fosse preso, você ia tentar descobrir o motivo. — E? — E que eu deveria impedir. Meu coração acelerou. — Isso não faz sentido. — Eu sei. — Matador nunca teve medo de mim. — Talvez não fosse de você. Franzi a testa. — Então de quem? Relíquia desviou o olhar. — Talvez da verdade. Naquela noite eu tomei uma decisão. Chega. Chega de mensagens anônimas. Chega de pistas quebradas. Chega de confiar em palavras dos outros. Eu precisava ouvir o Matador. Da boca dele. Sem intermediários. Sem mentiras. Sem promessas. Na manhã seguinte, voltei para a prisão. Sozinha. Sem avisar ninguém. Nem Relíquia, nem Caveira, nem os soldados. Ninguém. Quando sentei na cadeira da sala de visitas, meu coração estava acelerado. Mas não era medo. Era raiva. Muita raiva. A porta abriu e Matador entrou. Ele logo percebeu. — O que aconteceu? Não respondi. Peguei o telefone e esperei ele fazer o mesmo. Então fui direto ao assunto. — Você mentiu pra mim. Os olhos dele ficaram frios. — Sobre o quê? — Sobre tudo. Pela primeira vez desde que o conhecia, vi algo parecido com preocupação cruzar seu rosto. Apenas por um segundo, mas vi. — Quem falou com você? — ele perguntou. — Não importa. — Importa sim. — Você queria ser preso? O silêncio explodiu entre nós. E foi aí que eu tive minha resposta. Porque Matador não negou. Não ficou indignado. Não riu. Nada. Ele apenas me encarou. Meu coração afundou. — Meu Deus... Matador fechou os olhos, como alguém que sabia que aquele momento chegaria mais cedo ou mais tarde. — Raíssa... — Você queria ser preso? — Escuta... — Responde! Minha voz ecoou pela sala. Alguns agentes olharam em nossa direção, mas eu não liguei. — Responde! Matador respirou fundo e então disse. — Sim. O mundo parou. Durante anos eu confiei nele. Durante anos. E agora estava descobrindo que a maior mentira da minha vida tinha sido contada por ele. — Por quê? — Porque não tinha escolha. — Não mente pra mim de novo. — Eu não tô mentindo. — Então me explica! Matador apertou o telefone com força. Tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. — Tem gente muito acima de nós. — Acima de você? — Sim. Aquilo me assustou. Porque Matador nunca teve medo de ninguém. Nunca. — Quem? — Quanto menos você souber, melhor. — Eu não sou criança! — Eu sei disso! — Pela primeira vez ele elevou a voz. E aquilo era raro. Muito raro. — Foi exatamente por isso que fiz tudo isso. — Fez o quê? — Te manter longe. Meu coração disparou. — De quê? Matador me encarou, e eu vi algo que nunca imaginei ver: medo. Medo de verdade. — De uma guerra que já começou. O silêncio tomou conta da sala. E naquele instante eu soube. A prisão do Matador nunca foi sobre polícia. Nunca foi sobre traição. Nunca foi sobre uma denúncia. Era algo muito maior. E eu estava prestes a entrar no meio disso.
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