Eu estava cansada. Cansada de mensagens misteriosas. De pistas pela metade. De gente escondendo segredos. Enquanto eu corria atrás de respostas, Matador continuava atrás das grades. E aquilo precisava acabar. Agora.
A sala estava cheia. Relíquia, Caveira, os gerentes e os soldados de confiança. Todo mundo me encarava, esperando uma decisão. E eu tinha uma.
— Chega — decretei. O silêncio tomou conta do lugar. — Chega de correr atrás de fantasma.
Primeiro a gente tira o Matador da cadeia.
— E o traidor? — Caveira perguntou.
— Depois eu resolvo. — Minha voz saiu firme, sem deixar qualquer espaço para discussão. — O chefe vem primeiro.
Relíquia assentiu, pela primeira vez em dias.
— Concordo.
— Então vamos trabalhar.
Duas horas depois, a mesa estava completamente coberta de mapas, fotos, horários e rotas. Tudo o que conseguimos levantar sobre a prisão e a rotina do lugar.
Eu observava cada detalhe. Cada entrada, cada saída, cada possibilidade latente.
— Tem uma movimentação prevista para a semana que vem — Relíquia falou, quebrando o silêncio.
Levantei os olhos.
— Que movimentação?
Ele apontou para um ponto específico em um documento confidencial.
— Transferência.
Meu coração acelerou instantaneamente.
— Tem certeza?
— Sim.
— Quando?
— Quinta-feira.
Olhei novamente para o mapa. Quinta-feira. Cinco dias. Tínhamos exatamente cinco dias para armar o plano e tirar o Matador das mãos do Estado.
— Essa é a nossa janela — anunciei.
Todos ficaram em silêncio porque sabiam o que aquilo significava. Uma transferência na rua era um momento vulnerável. Muito mais vulnerável do que tentar invadir uma prisão de segurança máxima.
— Quantos carros? — um dos gerentes questionou.
— Dos blindados.
— Escolta?
— Três viaturas.
— Rota?
— Ainda não sabemos.
Passei a mão pelos cabelos, pensando rápido, calculando os riscos e montando a estratégia dentro da cabeça. Até que um sorriso surgiu nos meus lábios, devagar.
— Eles vão mudar o caminho tradicional.
Relíquia arqueou a sobrancelha.
— Como sabe?
— Porque nós faríamos o mesmo se estivéssemos no lugar deles.
Os homens começaram a trocar ideias, táticas e possibilidades de emboscada. Mas a minha mente já estava vários passos à frente de todos na sala. Uma coisa estava muito clara para mim: eu não seria apenas a pessoa que planejou a fuga de longe. Eu seria quem estaria na linha de frente, puxando o gatilho e colocando o Matador para fora daquele carro.
Quando a reunião finalmente terminou, Relíquia permaneceu no local, sozinho comigo.
— Você tá colocando muita pressão em você mesma, Raíssa.
— Faz parte do fardo.
— Não precisa ser você no volante ou na liderança direta do ataque.
Olhei bem no fundo dos olhos dele.
— Precisa sim.
— Por quê?
Dei um sorriso sem humor nenhum.
— Porque a única pessoa em quem eu confio plenamente agora sou eu mesma.
Relíquia soltou uma risada baixa.
— Isso foi a coisa mais Raíssa que você falou o dia inteiro.
Me aproximei da janela da sede, observando o movimento habitual da favela lá embaixo. As luzes das casas se misturando, o ronco das motos subindo os becos, as pessoas circulando. O meu mundo. O meu lar. O meu eterno campo de batalha.
— Eu vou tirar ele de lá — murmurei para a noite.
Relíquia ficou em silêncio por um momento antes de responder.
— Eu sei que vai.
— Não importa quantos policiais apareçam.
— Eu sei.
— E não importa quantos tiros aconteçam.
— Eu sei.
Respirei fundo, sentindo a adrenalina pura começar a correr nas minhas veias. Era exatamente a mesma sensação que tomava meu corpo antes de uma grande guerra, antes de uma grande operação, logo antes de o caos se estabelecer.
— Quinta-feira — completei, virando-me para ele. — Quinta-feira o Matador volta para casa.
E, pela primeira vez desde o dia em que o vi ser levado algemado, eu finalmente tinha um plano.