Faltavam quatro dias. Quatro dias para arrancar o Matador das mãos do Estado. Quatro dias para uma operação que podia terminar de duas formas: com a gente comemorando a vitória no morro ou com nossos corpos estendidos dentro de sacos pretos.
— Consegui a rota — Caveira anunciou com firmeza assim que entrou na sala de reuniões.
Todos ao redor da mesa levantaram a cabeça imediatamente. Joguei o cigarro no chão e pisei nele com força, eliminando a brasa.
— Fala — ordenei.
Ele se aproximou e abriu um mapa topográfico detalhado sobre a mesa de madeira.
— A transferência oficial sai às nove horas da manhã.
Relíquia deu um passo à frente, estreitando os olhos para o papel.
— Tem certeza disso?
— Informação quente, de dentro do sistema.
Analisei cuidadosamente cada linha do trajeto traçado no papel. E, devagar, um sorriso despontou no meu rosto.
— Eles cometeram um erro crasso.
— Qual? — Relíquia perguntou, cruzando os braços.
Apontei o indicador para um trecho isolado da estrada estadual.
— Aqui. Uma curva longa, cercada por mata fechada. Pouco movimento, poucas casas na proximidade e quase nenhuma testemunha. É o lugar perfeito.
— É exatamente aqui que vai acontecer — determinei.
O ambiente ficou em silêncio absoluto. Todo mundo analisava as linhas, calculando o terreno e entendendo a dinâmica clássica de uma emboscada na rodovia.
— A gente fecha a frente da escolta — expliquei, traçando caminhos invisíveis com o dedo. — Bloqueia a retaguarda para ninguém escapar e tira o Matador de dentro do blindado.
Caveira balançou a cabeça de um lado para o outro, pensativo.
— Falando assim, parece simples.
— Porque é simples.
Relíquia soltou uma risada curta, sem acreditar na minha audácia.
— Você acabou de descrever um ataque frontal contra três viaturas táticas e um transporte prisional reforçado como algo simples.
— E é.
— Você é completamente maluca, Raíssa.
— Eu prefiro a palavra determinada.
Durante os dias seguintes, ninguém no morro pregou o olho. A comunidade inteira parecia respirar e pulsar no ritmo daquela operação iminente. Carros foram clonados e trocados, armas pesadas foram limpas e checadas nos pontos estratégicos, as rotas de fuga alternativas foram minuciosamente estudadas e homens de extrema confiança foram posicionados.
Tudo precisava beirar a perfeição absoluta. Porque nós só teríamos uma única tentativa.
Na noite anterior à transferência, decidi voltar à prisão para uma última visita. Quando o Matador apareceu através do vidro, ele parecia estranhamente mais tranquilo do que eu. Muito mais.
Sentei-me na cadeira de metal e puxei o telefone do gancho. Ele fez o mesmo do outro lado.
— Você tá com uma cara horrível — ele comentou, com um tom leve.
— E você continua delicado como um coice — retruquei.
Deixei as brincadeiras de lado e mudei o tom de voz, endurecendo o semblante.
— Amanhã.
Os olhos dele escureceram imediatamente, captando o recado.
— Amanhã?
— Você sai de lá.
Matador me encarou em silêncio por longos e tensos segundos através do acrílico espesso.
— Raíssa...
— Não.
— Escuta o que eu tenho para te dizer.
— Não vou escutar.
— Você não tá entendendo o tamanho disso.
Inclinei meu corpo para frente, reduzindo a distância entre nós.
— Eu entendo perfeitamente. E não vou deixar você apodrecer trancado nessa cela.
Pela primeira vez em muito tempo, vi uma faísca de real irritação cruzar o rosto dele.
— E eu não quero você envolvida nessa operação de resgate.
Meu sangue ferveu instantaneamente.
— Uma pena.
— Estou falando muito sério, Raíssa
.
— Eu também estou.
— Raíssa...
— Eu vou estar lá — bati o pé.
Ele respirou fundo, tentando conter o gênio.
— Fazendo o quê?
Eu sorri. Aquele sorriso bem específico que ele conhecia de sobra. O sorriso exato que sempre precedia as minhas maiores loucuras.
— Dirigindo o carro de assalto.
Matador fechou os olhos por um instante, como um general aceitando que havia perdido uma batalha interna de teimosia contra a própria pupila.
— Você é impossível.
— Eu sei.
— Teimosa demais.
— Também sei.
— Vai acabar me matando do coração antes da hora.
— Amanhã eu vou salvar a sua vida, chefe.
Ele tentou manter a postura rígida e não sorrir, mas falhou miseravelmente. Uma leve curva surgiu no canto da sua boca.
Quando o sinal sonoro indicou o fim do horário de visita, ele segurou o fone firme por mais alguns segundos.
— Toma cuidado lá fora.
— Eu sempre tomo.
— Mentira deslavada.
Soltei uma risada genuína pela primeira vez em dias.
— Até amanhã, chefe.
— Até amanhã, Raíssa.
Desliguei o aparelho e o recoloquei no gancho. Quando cruzei os portões de saída daquela prisão de segurança máxima, meu coração batia em um ritmo frenético. O nosso próximo encontro não seria limitado por vidros ou telefones. Seria escrito no meio do fogo cruzado.
Naquela mesma noite, enquanto o morro fervia com os preparativos finais para a invasão... alguém observava atentamente a mesma rota de transferência dentro de um carro escuro, estacionado nas sombras do asfalto, a poucos quilômetros da prisão.
Alguém que sabia minuciosamente cada passo nosso e o ponto exato onde a nossa emboscada aconteceria.
Essa pessoa pegou um celular descartável, digitou uma mensagem curta com dedos frios e enviou:
“Eles vão agir amanhã. Preparem a interceptação.”
A resposta vibrou na tela apenas alguns segundos depois:
“Entendido.”
E naquele exato instante, sem fazer a menor ideia do jogo de xadrez em que estávamos metidos, nós estávamos marchando de braços abertos direto para uma armadilha mortal.