Capítulo 14

932 Words
Faltavam quatro dias. Quatro dias para arrancar o Matador das mãos do Estado. Quatro dias para uma operação que podia terminar de duas formas: com a gente comemorando a vitória no morro ou com nossos corpos estendidos dentro de sacos pretos. — Consegui a rota — Caveira anunciou com firmeza assim que entrou na sala de reuniões. Todos ao redor da mesa levantaram a cabeça imediatamente. Joguei o cigarro no chão e pisei nele com força, eliminando a brasa. — Fala — ordenei. Ele se aproximou e abriu um mapa topográfico detalhado sobre a mesa de madeira. — A transferência oficial sai às nove horas da manhã. Relíquia deu um passo à frente, estreitando os olhos para o papel. — Tem certeza disso? — Informação quente, de dentro do sistema. Analisei cuidadosamente cada linha do trajeto traçado no papel. E, devagar, um sorriso despontou no meu rosto. — Eles cometeram um erro crasso. — Qual? — Relíquia perguntou, cruzando os braços. Apontei o indicador para um trecho isolado da estrada estadual. — Aqui. Uma curva longa, cercada por mata fechada. Pouco movimento, poucas casas na proximidade e quase nenhuma testemunha. É o lugar perfeito. — É exatamente aqui que vai acontecer — determinei. O ambiente ficou em silêncio absoluto. Todo mundo analisava as linhas, calculando o terreno e entendendo a dinâmica clássica de uma emboscada na rodovia. — A gente fecha a frente da escolta — expliquei, traçando caminhos invisíveis com o dedo. — Bloqueia a retaguarda para ninguém escapar e tira o Matador de dentro do blindado. Caveira balançou a cabeça de um lado para o outro, pensativo. — Falando assim, parece simples. — Porque é simples. Relíquia soltou uma risada curta, sem acreditar na minha audácia. — Você acabou de descrever um ataque frontal contra três viaturas táticas e um transporte prisional reforçado como algo simples. — E é. — Você é completamente maluca, Raíssa. — Eu prefiro a palavra determinada. Durante os dias seguintes, ninguém no morro pregou o olho. A comunidade inteira parecia respirar e pulsar no ritmo daquela operação iminente. Carros foram clonados e trocados, armas pesadas foram limpas e checadas nos pontos estratégicos, as rotas de fuga alternativas foram minuciosamente estudadas e homens de extrema confiança foram posicionados. Tudo precisava beirar a perfeição absoluta. Porque nós só teríamos uma única tentativa. Na noite anterior à transferência, decidi voltar à prisão para uma última visita. Quando o Matador apareceu através do vidro, ele parecia estranhamente mais tranquilo do que eu. Muito mais. Sentei-me na cadeira de metal e puxei o telefone do gancho. Ele fez o mesmo do outro lado. — Você tá com uma cara horrível — ele comentou, com um tom leve. — E você continua delicado como um coice — retruquei. Deixei as brincadeiras de lado e mudei o tom de voz, endurecendo o semblante. — Amanhã. Os olhos dele escureceram imediatamente, captando o recado. — Amanhã? — Você sai de lá. Matador me encarou em silêncio por longos e tensos segundos através do acrílico espesso. — Raíssa... — Não. — Escuta o que eu tenho para te dizer. — Não vou escutar. — Você não tá entendendo o tamanho disso. Inclinei meu corpo para frente, reduzindo a distância entre nós. — Eu entendo perfeitamente. E não vou deixar você apodrecer trancado nessa cela. Pela primeira vez em muito tempo, vi uma faísca de real irritação cruzar o rosto dele. — E eu não quero você envolvida nessa operação de resgate. Meu sangue ferveu instantaneamente. — Uma pena. — Estou falando muito sério, Raíssa . — Eu também estou. — Raíssa... — Eu vou estar lá — bati o pé. Ele respirou fundo, tentando conter o gênio. — Fazendo o quê? Eu sorri. Aquele sorriso bem específico que ele conhecia de sobra. O sorriso exato que sempre precedia as minhas maiores loucuras. — Dirigindo o carro de assalto. Matador fechou os olhos por um instante, como um general aceitando que havia perdido uma batalha interna de teimosia contra a própria pupila. — Você é impossível. — Eu sei. — Teimosa demais. — Também sei. — Vai acabar me matando do coração antes da hora. — Amanhã eu vou salvar a sua vida, chefe. Ele tentou manter a postura rígida e não sorrir, mas falhou miseravelmente. Uma leve curva surgiu no canto da sua boca. Quando o sinal sonoro indicou o fim do horário de visita, ele segurou o fone firme por mais alguns segundos. — Toma cuidado lá fora. — Eu sempre tomo. — Mentira deslavada. Soltei uma risada genuína pela primeira vez em dias. — Até amanhã, chefe. — Até amanhã, Raíssa. Desliguei o aparelho e o recoloquei no gancho. Quando cruzei os portões de saída daquela prisão de segurança máxima, meu coração batia em um ritmo frenético. O nosso próximo encontro não seria limitado por vidros ou telefones. Seria escrito no meio do fogo cruzado. Naquela mesma noite, enquanto o morro fervia com os preparativos finais para a invasão... alguém observava atentamente a mesma rota de transferência dentro de um carro escuro, estacionado nas sombras do asfalto, a poucos quilômetros da prisão. Alguém que sabia minuciosamente cada passo nosso e o ponto exato onde a nossa emboscada aconteceria. Essa pessoa pegou um celular descartável, digitou uma mensagem curta com dedos frios e enviou: “Eles vão agir amanhã. Preparem a interceptação.” A resposta vibrou na tela apenas alguns segundos depois: “Entendido.” E naquele exato instante, sem fazer a menor ideia do jogo de xadrez em que estávamos metidos, nós estávamos marchando de braços abertos direto para uma armadilha mortal.
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