Eu nunca tinha visto Matador com medo. Nunca. Nem em troca de tiros, nem durante guerras, nem quando colocaram uma arma na cabeça dele. Absolutamente nunca. Mas naquele momento, logo após a ligação, ele parecia outra pessoa.
— Quem é esse cara? — perguntei.
Ninguém respondeu. Olhei para Relíquia, depois para Matador. Os dois estavam tensos, e essa energia pesada só piorava tudo ao redor.
— Eu perguntei quem é esse cara — insisti, exigindo uma resposta.
Matador respirou fundo, tentando buscar o controle.
— O nome dele é Marconi.
— Isso eu já sei.
— Antes de eu assumir o morro... — Ele fez uma pausa dramática. — Quem mandava era ele.
O silêncio tomou conta da sala de forma avassaladora. Meu coração disparou.
— O quê?
— Marconi era o dono de tudo.
Tentei absorver aquela informação. Durante anos, eu ouvi histórias sobre Matador. Sobre guerras, sobre conquistas, sobre o homem que tomou o controle da Cidade de Deus. Mas eu nunca, jamais, tinha ouvido falar de ninguém antes dele.
— Por quê? — questionei, confusa.
— Porque eu apaguei o nome dele da favela — a resposta de Matador saiu fria, pesada, definitiva. — Oito anos atrás a gente entrou em guerra.
— E você venceu.
— Achei que sim.
Meu estômago revirou. Agora, as peças do quebra-cabeça finalmente começavam a se encaixar.
— Então ele voltou por vingança.
— Sim.
— E quer destruir tudo.
— Sim.
Relíquia passou a mão pelo rosto, visivelmente desgastado.
— Isso explica a prisão. Explica a operação vazada. Explica o Caveira.
Meu sangue gelou com a menção daquele nome.
— Você acha que ele estava trabalhando para o Marconi?
Matador ficou em silêncio. E, naquele ambiente, o silêncio foi mais do que suficiente como confirmação.
Na manhã seguinte, o clima de comemoração pela fuga havia desaparecido por completo. A casa parecia um velório. Todos estavam armados, atentos, esperando o próximo ataque a qualquer segundo. Foi quando Caveira finalmente acordou.
Corri para o quarto. Matador e Relíquia vieram logo atrás, os passos pesados ecoando no corredor.
— Caveira — chamei.
Ele abriu os olhos devagar, confuso e desorientado, até que seu olhar focou em mim.
— Raíssa...
— Estou aqui.
— Ele voltou — ele sussurrou, a voz fraca.
Meu coração acelerou instantaneamente.
— Marconi?
Caveira assentiu com um leve movimento de cabeça.
— Foi ele.
— O que foi ele?
— Tudo — o quarto afundou em um silêncio sepulcral antes de ele continuar: — A prisão do Matador. A operação. Os ataques. Tudo.
Matador fechou os punhos com tanta força que os nós dos seus dedos ficaram completamente brancos.
— Onde ele está?
Caveira engoliu em seco. Ele estava assustado, profundamente assustado.
— Eu não sei.
— Mentira — a voz de Matador saiu dura, como uma lâmina.
— Eu realmente não sei!
Olhei para Caveira. Ele parecia sincero no seu desespero, mas o meu instinto dizia que ele ainda escondia alguma coisa.
— Então o que você sabe?
A respiração dele ficou pesada, entrecortada.
— Ele tem alguém aqui dentro.
Meu coração parou por um segundo.
— O quê?
— Um infiltrado.
Ninguém falou mais nada. Ninguém precisava. Todos na sala entenderam a gravidade daquela frase. Se aquilo fosse verdade, o traidor ainda estava entre nós. Dentro do nosso círculo mais íntimo, olhando as nossas reuniões, ouvindo os nossos planos e esperando o momento exato para atacar.
E, pela primeira vez, uma percepção dolorosa me atingiu. Talvez eu estivesse procurando o inimigo errado esse tempo todo. O verdadeiro perigo não estava lá fora, nas ruas.
Ele estava sentado à nossa mesa.