Capítulo 22

603 Words
Eu nunca tinha visto Matador com medo. Nunca. Nem em troca de tiros, nem durante guerras, nem quando colocaram uma arma na cabeça dele. Absolutamente nunca. Mas naquele momento, logo após a ligação, ele parecia outra pessoa. — Quem é esse cara? — perguntei. Ninguém respondeu. Olhei para Relíquia, depois para Matador. Os dois estavam tensos, e essa energia pesada só piorava tudo ao redor. — Eu perguntei quem é esse cara — insisti, exigindo uma resposta. Matador respirou fundo, tentando buscar o controle. — O nome dele é Marconi. — Isso eu já sei. — Antes de eu assumir o morro... — Ele fez uma pausa dramática. — Quem mandava era ele. O silêncio tomou conta da sala de forma avassaladora. Meu coração disparou. — O quê? — Marconi era o dono de tudo. Tentei absorver aquela informação. Durante anos, eu ouvi histórias sobre Matador. Sobre guerras, sobre conquistas, sobre o homem que tomou o controle da Cidade de Deus. Mas eu nunca, jamais, tinha ouvido falar de ninguém antes dele. — Por quê? — questionei, confusa. — Porque eu apaguei o nome dele da favela — a resposta de Matador saiu fria, pesada, definitiva. — Oito anos atrás a gente entrou em guerra. — E você venceu. — Achei que sim. Meu estômago revirou. Agora, as peças do quebra-cabeça finalmente começavam a se encaixar. — Então ele voltou por vingança. — Sim. — E quer destruir tudo. — Sim. Relíquia passou a mão pelo rosto, visivelmente desgastado. — Isso explica a prisão. Explica a operação vazada. Explica o Caveira. Meu sangue gelou com a menção daquele nome. — Você acha que ele estava trabalhando para o Marconi? Matador ficou em silêncio. E, naquele ambiente, o silêncio foi mais do que suficiente como confirmação. Na manhã seguinte, o clima de comemoração pela fuga havia desaparecido por completo. A casa parecia um velório. Todos estavam armados, atentos, esperando o próximo ataque a qualquer segundo. Foi quando Caveira finalmente acordou. Corri para o quarto. Matador e Relíquia vieram logo atrás, os passos pesados ecoando no corredor. — Caveira — chamei. Ele abriu os olhos devagar, confuso e desorientado, até que seu olhar focou em mim. — Raíssa... — Estou aqui. — Ele voltou — ele sussurrou, a voz fraca. Meu coração acelerou instantaneamente. — Marconi? Caveira assentiu com um leve movimento de cabeça. — Foi ele. — O que foi ele? — Tudo — o quarto afundou em um silêncio sepulcral antes de ele continuar: — A prisão do Matador. A operação. Os ataques. Tudo. Matador fechou os punhos com tanta força que os nós dos seus dedos ficaram completamente brancos. — Onde ele está? Caveira engoliu em seco. Ele estava assustado, profundamente assustado. — Eu não sei. — Mentira — a voz de Matador saiu dura, como uma lâmina. — Eu realmente não sei! Olhei para Caveira. Ele parecia sincero no seu desespero, mas o meu instinto dizia que ele ainda escondia alguma coisa. — Então o que você sabe? A respiração dele ficou pesada, entrecortada. — Ele tem alguém aqui dentro. Meu coração parou por um segundo. — O quê? — Um infiltrado. Ninguém falou mais nada. Ninguém precisava. Todos na sala entenderam a gravidade daquela frase. Se aquilo fosse verdade, o traidor ainda estava entre nós. Dentro do nosso círculo mais íntimo, olhando as nossas reuniões, ouvindo os nossos planos e esperando o momento exato para atacar. E, pela primeira vez, uma percepção dolorosa me atingiu. Talvez eu estivesse procurando o inimigo errado esse tempo todo. O verdadeiro perigo não estava lá fora, nas ruas. Ele estava sentado à nossa mesa.
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