Edward surgiu com um copo novo.
— c*****o… — murmurou. — Agora você vai ter que explicar.
Erick não respondeu.
Continuava olhando para o espaço onde Marina desaparecera, como se o salão inteiro tivesse engolido alguma parte dele — arrancado algo que nem sabia que ainda tinha.
— Como você conheceu a Marina? — Edward insistiu.
— Por acaso. — respondeu rápido demais. Duro demais.
Edward riu sem humor.
— Aham. Acaso. Por isso você ficou pálido quando ela entrou. Quer tentar outra?
Erick virou lentamente o rosto, usando o meio-sorriso frio que sempre escondia feridas antes de sangrarem.
— Eu não fico pálido, Hastings. — disse, gelado. — E mulher nenhuma me tira o ar.
Mentira.
Sentiu a mentira bater na língua com gosto amargo.
— Claro que não — Edward zombou. — Você só ficou paralisado. Igual agora.
Erick bebeu. O uísque desceu como água.
Nada queimava.
Nada ajudava.
Edward insistiu:
— Então? Vai deixar rolar?
Erick ficou mudo.
Mas dentro da cabeça havia barulho.
A mão de Marina tremendo contra seu blazer.
A boca dela pressionada contra a dele não por vontade, mas por medo.
A respiração dela encostando na dele sem permissão.
E o pior:
O momento exato em que o corpo dele respondeu.
Não por impulso.
Não por desejo barato.
Mas por algo que ele não sabia — e não queria — nomear.
O coração deu um golpe seco dentro do peito.
Fechado.
Dolorido.
Empurrou o copo, como se o álcool tivesse desistido dele também.
— Não. — respondeu firme. — Nunca vai rolar.
Rígido demais.
Rápido demais.
Convicto demais — o tipo de convicção que só existe quando alguém está desesperado.
Edward analisou.
— Por quê?
Erick desviou o olhar.
Porque dizer a verdade era impossível.
Mas senti-la era inevitável.
— Porque sentimentos não me servem pra nada. — grunhiu, baixo. — E foram exatamente eles que destruíram meu passado.
A frase saiu pesada, amarga, carregada de rancor.
E, por um instante, a imagem de Marina desviando o olhar no salão voltou — rápida, afiada, ferindo antes mesmo de tocar.
Ela tinha olhado para ele como quem teme uma dor repetida.
Era isso que ele era agora?
Um risco?
Uma ameaça?
Ele não queria ser mais uma cicatriz para ela.
E muito menos abrir outra em si.
Endireitou os ombros como quem veste uma armadura.
O personagem voltou.
O homem que não sente.
Que não se abala.
Que não erra.
— Não vai rolar, Edward. — Repetiu, gelado. — Eu não cruzo esse limite. Não com ela. Não com ninguém.
Edward o observou por um tempo, tentando enxergar por trás da porta trancada.
Depois suspirou.
— Beleza. Se você diz.
Erick não respondeu.
Porque, pela primeira vez em muito tempo, percebeu que havia voltado a sentir algo que não queria.
Algo que estava tentando esmagar antes mesmo que respirasse.
Ele tinha mentido.
E a mentira veio com o pior gosto possível.
Dizer “nunca” sobre Marina…
…foi o primeiro sinal de que ela já tinha começado a desmontar tudo o que ele passara anos tentando manter intacto.
A madrugada parecia maior do que deveria.
Erick entrou no quarto sem acender as luzes. Serviu uísque, bebeu — nada. Nenhum calor. Nenhum alívio. Apenas aquela presença incômoda ocupando espaço dentro dele, sem permissão.
Abriu a porta da varanda. O vento frio bateu no rosto, mas não afastou a imagem que o perseguia desde o salão: o nome dele preso na garganta dela, o medo nos olhos, o corpo rígido tentando manter distância e buscar segurança ao mesmo tempo.
Merda.
Dissera a Edward que nunca ia acontecer.
E, para Erick, “nunca” sempre significava que estava começando a perder.
Não era só atração. Ele conhecia a simplicidade da atração.
Aquilo era outra coisa — algo que tocava o mesmo lugar enterrado onde Eliza ainda vivia. Um fantasma que ele tentava evitar há anos.
Marina não lembrava Eliza.
Mas tinha o mesmo poder: quebrar o controle dele sem tocar um dedo.
Ele apertou a grade da varanda, tentando se ancorar no que não queria admitir.
— Você me atingiu — murmurou.
E soube que já estava caindo.
Nos dias seguintes, tentou ignorar, enterrar, ocupar a mente — inútil. Marina surgia nos silêncios. No olhar assustado. No jeito como não recuou, mesmo tremendo.
As fronteiras entre passado e presente começaram a se confundir.
E, pela primeira vez em muito tempo,
Erick não tinha certeza se estava reagindo a quem Marina era…
Ou ao que ela despertava nele.
Do outro lado dessa mesma história,
A confusão também não dava trégua.
Ainda havia coisas que Marina não tinha conseguido deixar para trás.
Não eram lembranças claras.
Nem exatamente arrependimentos.
Era pior.
Sensações.
Fragmentos que voltavam sem aviso — um olhar sustentando tempo demais, a pausa errada entre duas respirações, a consciência incômoda de que algo tinha saído do lugar… e não tinha voltado.
Erick.
O nome surgia sem ser chamado.
E, toda vez, vinha acompanhado da mesma pergunta que ela evitava encarar:
Por quê?
Ela tentou ocupar a mente. Trabalho. Reuniões. Rotina.
Funcionou — até certo ponto.
Mas algumas coisas não se diluem no tempo.
Elas assentam.
E esperam.
Foi com essa sensação ainda m*l resolvida que Marina entrou no restaurante escolhido por Nicole.
O lugar seguia o padrão dela: discreto, impecável, cuidadosamente neutro.
Um ambiente onde nada chamava atenção — e exatamente por isso, tudo parecia calculado.
Marina chegou alguns minutos atrasada.
Nicole já estava sentada, folheando o cardápio sem realmente ler.
Levantou os olhos no instante exato em que Marina se aproximou.
Sorriu.
Bonito.
E atento demais.
— Você tá com cara de quem não dormiu.
Direto.
Marina puxou a cadeira.
— Impressão sua.
Nicole inclinou levemente a cabeça.
Não comprou.
Fizeram os pedidos. Comentários leves. Assuntos seguros.
Mas o silêncio entre as frases carregava mais do que qualquer conversa.
Nicole esperava.
E Marina sabia.
Quando os pratos chegaram, Nicole apoiou os cotovelos na mesa.
— Tá. Agora me conta.
— Contar o quê?
Uma risada curta.
— Você vai mesmo fazer isso comigo?
Marina desviou o olhar.
Erro.
Nicole viu.
— Marina… eu te conheço. Você não fica daquele jeito por nada.
A palavra não foi dita.
Mas estava ali.
Pesando.
— Não foi nada.
— “Nada” não faz alguém perder o ar.
Direto.
Sem espaço para fuga.
Marina reagiu rápido demais:
— Ele não perdeu.
Nicole sustentou o olhar.
— Perdeu, sim.
Silêncio.
Agora mais tenso.
— Afinal, como vocês se conheceram?
Hesitação.
Sutil.
Suficiente.
Os olhos de Nicole mudaram.
— Ah… não foi normal.
Marina exalou devagar.
— Foi recente.
— O quanto?
— Alguns dias antes do evento.
Nicole se recostou na cadeira.
Agora, interessada de verdade.
— E?
— E nada.
O garfo tocou o prato com leveza.
— Marina.
O tom mudou.
Mais preciso.
— Você ficou pálida quando viu o Erick. E ele travou quando viu você.
Pausa.
— Aquilo não foi casual.
O restaurante ao redor virou ruído.
— Ele te fez m*l?
— Não.
Rápido.
Firme.
Verdadeiro.
E exatamente por isso… mais complicado.
Nicole estreitou o olhar.
— Então por que você parecia que ia fugir?
Marina respirou fundo.
— Porque eu não esperava ver ele de novo.
Nicole absorveu.
Sem interromper.
— E isso te incomodou por quê?
Marina abriu a boca.
Fechou.
— Porque foi estranho.
Um meio sorriso surgiu.
— Estranho não tira o ar de ninguém.
Silêncio.
Mais longo.
Mais honesto.
Nicole inclinou levemente a cabeça.
— Você beijou ele?
A pergunta caiu limpa.
Sem desvio.
Marina congelou.
Resposta suficiente.
— Meu Deus…
Um sorriso lento apareceu.
— Você beijou ele.
— Não foi assim.
— Nunca é.
Marina passou a mão pelo cabelo.
— Foi… uma situação.
— Boa ou r**m?
Demora.
— Complicada.
Nicole soltou o ar, satisfeita demais.
— Eu sabia.
— Sabia o quê?
— Que não era acaso.
Pausa.
— E que você ainda não saiu disso.
Marina franziu o cenho.
— Não tem nada pra sair.
Nicole sustentou o olhar.
Calma. Segura.
— Tem.
Silêncio.
Denso.
Irrefutável.
Marina não respondeu.
E, dessa vez…
Não foi porque não tinha o que dizer.
O silêncio entre Marina e Nicole não terminou na mesa.
Ele a acompanhou para fora do restaurante.
Para dentro do carro.
Para o elevador.
Para o quarto.
E permaneceu ali.
Horas depois, Marina ainda estava sentada na beirada da cama, o celular nas mãos, relendo a mesma mensagem pela décima vez.
“Tenho documentos que você precisa ver. Sobre a empresa. Hoje à noite. Sozinha.”
Sem assinatura.
Sem margem para erro.
Aquilo não parecia uma oportunidade.
Parecia um risco.
Mas ignorar… podia ser pior.
Ela fechou os olhos por um instante, apoiando a testa nos dedos.
Algo não estava certo.
E, ainda assim…
Ela iria.
O bar ficava longe o suficiente do hotel para ser inconveniente.
E discreto o bastante para ser um erro.
Quando Marina chegou, o incômodo virou certeza.
O lugar era pequeno, apertado, barulhento demais.
Mesas de madeira desgastada, luz baixa, risadas altas demais para serem genuínas.
Ela não combinava com aquilo.
E sabia.
Mas entrou mesmo assim.
Escolheu uma mesa no centro — visível. Estratégica.
Pediu uma bebida.
Depois outra.
E então começou a esperar.
O relógio no pulso virou um inimigo silencioso.
Cada minuto mais lento que o anterior.
Cada segundo ampliando aquela sensação desconfortável no fundo do peito.
Ela não estava nervosa.
Estava alerta.
E odiava reconhecer aquilo.
Erick já estava ali.
Chegara antes.
E, dessa vez, não fingiu para si mesmo que era por acaso.
Precisava de barulho.
De distração.
De qualquer coisa que calasse a mente.
Ou o corpo.
A lógica era simples. Direta. Quase ridícula.
Se fosse só desejo…
Ele resolveria de uma vez por todas.
Uma noite.
Um corpo qualquer.
Sem nome. Sem peso.
E aquilo acabaria.
Porque era isso que ele se recusava a considerar o contrário.
Abstinência.
Só isso.
O tipo de erro que o corpo cria quando fica tempo demais sem descarga.
Nada além.
O bar não fazia seu tipo.
Mas tinha exatamente o que ele precisava: anonimato, álcool… e opções suficientes para não pensar.
Erro de cálculo.
Porque no momento em que a viu entrar…
Todo o resto deixou de importar.
Não sobrou barulho.
Não sobrou plano.
Não sobrou distração possível.
Só ela.
Ela não pertencia àquele ambiente.
E, ainda assim, estava ali.
Sozinha.
Tensa.
Bonita de um jeito que incomodava.
Ele já tinha ignorado duas mulheres que claramente estavam interessadas.
Exalou devagar, o maxilar travando.
Então não era abstinência.
Era pior.
Erick observou sem se aproximar.
O suficiente.
Nunca demais.
Aprendera cedo que distância também era controle.
Mas, com ela…
Não estava funcionando como deveria.
O olhar constante para o relógio.
A postura rígida demais para alguém que tentava parecer casual.
A bebida sendo levada aos lábios sem ser realmente consumida.
Detalhes pequenos.
Precisos.
Errados.
Ela não estava ali por acaso.
Estava esperando alguém.
A constatação veio rápida.
Fria.
E, por algum motivo que ele não analisou — e nem quis —
Incomodou.
Não era curiosidade.
Não era interesse simples.
Era outra coisa.
Mais baixa.
Mais densa.
Mais perigosa.
Ele girou o copo entre os dedos, o gelo estalando sob a pressão que nem percebeu fazer.
Pensou em ir até ela.
Quase foi.
O impulso veio limpo. Direto.
Mas morreu no segundo seguinte.
Porque Marina olhou novamente para o relógio.
E depois para a entrada.
Expectativa.
Clara demais para ser ignorada.
Não por ele.
Por outra pessoa.
Algo travou no peito dele — rápido, seco, desconfortável.
Irracional.
E exatamente por isso… impossível de descartar.
Erick recostou no banco, a mandíbula tensionando devagar.
O olhar não saiu dela.
Não mais.
Então ficou onde estava.
Observando.
Duas taças depois, a ansiedade já pressionava o estômago de Marina.
Ela respirou fundo, tentando se manter centrada.
Não era a primeira vez que lidava com risco.
Mas aquilo…
Era diferente.
Porque não sabia de onde vinha.
Nem quem estava por trás.
Até ouvir a voz.
Uma voz que não só vinha do passado, vinha da parte mais sombria dele.
— Marina Thompson… quanto tempo, bonequinha.
A espinha dela gelou na hora.
O mundo encolheu.
Ela virou rápido demais, quase derrubando o copo.
E o ar sumiu.
Phillipe.
Alto. Impecável. Intocável por fora.
Podre por dentro.
Os olhos verdes fixos nela como se nunca tivessem perdido o direito.
O sorriso — lento, venenoso — trouxe de volta tudo o que ela passou anos tentando enterrar.
— P-Phillipe… o que você está fazendo aqui? – sua voz saiu fragmentada, como se tivesse sido arrancada a força.
— Lugar público. — ele se aproximou devagar — Ou será que você acha que posso ir onde quiser... menos onde você está?
O tom era baixo. Ameaçador. Quase Íntimo.
Marina recuou no assento.
Ele ergueu a mão para tocar o rosto dela.
Marina virou tão rápido que seus cabelos chicotearam o ar.
O coração batia como se quisesse fugir do corpo.
As mãos suavam.
As pernas tremiam sob a mesa.
Phillipe sorriu – satisfeito com o medo.
— Vai embora. Eu estou esperando alguém. – tentou dizer firme, mas a voz falhou como vidro quebrando.
— Eu sei.
Ele puxou a cadeira e sentou com a naturalidade de quem tinha direito sobre ela.
— Tá me esperando.
Ela congelou de um jeito que só quem já foi dominada consegue congelar.
— Como… assim?
Ele se inclinou. Os olhos fixos nos dela.
— Eu armei isso, abelhinha.
Simples.
Cruel.
Definitivo.
Phillipe pegou a taça dela e bebeu, sem desviar os olhos.
— Você continua péssima em esconder o medo.
O olhar dele desceu lentamente.
— E continua deliciosa quando treme.
O estômago dela virou.
Nojo.
Raiva.
Vergonha.
Misturados.
— Você é um nojo.
Antes que perdesse a coragem, jogou a bebida nele.
O bar reagiu em ondas — um segundo de atenção, depois o caos retomando.
Phillipe não.
Ele levantou num rompante, o rosto escorrendo marguerita e agarrou seus braços com tanta força que Marina soltou um grito abafado.
— O que pensa que está fazendo?! – ele rugiu, aproximando o rosto, as narinas inflamadas, o olhar psicótico.
— Me solta!
Ela tentou puxar o braço.
Inútil.
As mãos dele eram firmes demais.
Conhecidas demais.
As memórias voltaram como cortes abertos.
— Por favor… Phillipe…
— Meu irmão disse que te viu beijando outro.
Ele a puxou mais perto, tão perto que ela podia sentir o hálito quente e alcoólico.
— Já tá se oferecendo por aí?
O olhar dele caiu na boca dela.
Sujo.
— Ou só comigo você fingia decência?
Ele se inclinou.
Marina travou.
O corpo inteiro parou.
Como se o passado tivesse voltado inteiro de uma vez.
Respiração presa.
Olhos ardendo.
Sem reação.
Do outro lado do bar…
Erick já estava de pé.
Ele não tinha ouvido todas as palavras.
Mas não precisava.
Porque viu.
Viu o jeito que ela recuou.
Viu os dedos marcando a pele.
Viu o corpo dela parar.
Aquilo não era discussão.
Não era ciúme.
Não era um casal.
Era medo.
Real.
Antigo.
Profundo.
Algo dentro dele mudou.
Rápido.
Frio.
Definitivo.
Ele começou a andar.
— Solte ela. Agora.
A voz cortou o ar.
Baixa.
Firme.
Irrecusável.
Phillipe virou devagar.
Marina também.
E quando viu Erick—
Algo dentro dela cedeu.
Não era alívio completo.
Mas era o primeiro respiro.
Erick não avançou de imediato.
Observou.
Confirmou.
Registrou cada detalhe.
Então deu mais um passo.
— Solte. Ela.
Cada palavra caiu pesada no ar.
Phillipe arqueou a sobrancelha.
— Quem é você?
Erick não respondeu.
Apenas puxou Marina para trás de si.
Com firmeza.
Sem brusquidão.
Protegendo.
Só então olhou para ele.
E o ambiente pareceu encolher.
— A pessoa que vai quebrar suas mãos… se você encostar nela outra vez.
Phillipe riu.
Errado.
— Ah… então é com esse aí que você anda trep—
O som do choro de Marina cortou a frase.
Baixo.
Contido.
Mas suficiente.
E aquilo foi o fim.
Algo dentro de Erick perdeu o último fragmento de controle.
— Ela é uma v***a. Sempre foi. E você aí achando que el—
O soco veio seco.
Preciso.
Sem aviso.
Phillipe cambaleou, o nariz já sangrando.
Por um segundo, o bar inteiro ficou em silêncio.
— Encostou em mim, seu filho da—
Ele tentou avançar.
Erick o empurrou de volta com facilidade brutal.
— Chega perto dela de novo… — a voz baixa, perigosa — e eu acabo com você.
Os seguranças apareceram segundos depois, segurando Phillipe enquanto ele gritava insultos.
Erick não respondeu.
Nem olhou para ele.
Seu olhar estava apenas em Marina.
No corpo dela tremendo.
Nos olhos cheios de lágrimas.
Nas marcas vermelhas nos braços.
Quando ela saiu do bar—
Ele foi atrás.
Sem pensar.
Sem escolher.
Sem recuar.