Preciso do Soldado

1431 Words
Quando Lis se acalmou chegou a ser engraçado, era como se fosse uma fênix, conseguiu abandonar as lágrimas e assumir uma postura quase fria outra vez. - Certo, chega! O que querem de mim? Dragón olhou para a esposa pensando que até as mulheres da organização eram duras demais, torceu para não ser o caso de Solar, achava que armaduras usadas por tempo demais marcavam o soldado ao ponto da desumanização, mas não disse nada. - Eu nada, não concordo, mas Sombra me pediu para que você descubra quem é o Líder, o tal 439. Acha que se pudermos falar com ele é possível um acordo. Até lá, você é a esposa carinhosa do chinês. Lis abriu a bolsa e pegou a pasta que tinha recebido de Ming na noite em que se encontrou com Pablo, jogou sobre a mesa. Dragón olhou tudo com cuidado, mostrou a esposa, ele nunca achava que os assuntos da organização eram só dele, acreditava que se as mulheres podiam morrer estarem casadas com pessoas como eles, também tinham o direito de saber o que faziam e o que estava acontecendo. Solar repetiu o processo de olhar cada foto e a pasta foi devolvida. A filha do conselheiro não disse nada e Dragón ficou olhando para Lis com o semblante inquisidor. - Isso muda alguma coisa, Lis? - Não muito, isso tudo aí só me assusta por um motivo. Prova que Ming é um mentiroso, então mesmo que eu fique, que finja, Pablo não está seguro, entende? Ele não tem honra, montou isso para me convencer de algo que não existe, pode quebrar o acordo e fingir que não tem culpa. Foi por isso que te mandei a mensagem. Solar ficou intrigada, a confiança de Lis no ex-noivo parecia inabalável, era casada com uma das melhores pessoas que já conheceu e ainda assim, não conseguia confiar daquela forma. - Como pode ter tanta certeza de que é mentira? Lis olhou outra vez para o anel em seu dedo e acabou sorrindo. - Eu o conheço, é um cabeça dura, mas nunca faria nada do que está escrito aí, talvez a única verdade nesse monte de lixo seja essa certidão de nascimento. Dragón entregou o próprio celular para a garota. - Use isso se precisar falar com alguém, Sombra disse que é seguro, mas não sei como vai manter escondido, tenho certeza de que seu quarto está sendo monitorado, assim como tudo ao seu redor, ele não te deixaria tão livre. - Não posso, há um jeito de parar as gravações em rede e fazer repetir o último minuto, isso me daria uns vinte minutos, sem ser gravada, mas não sei como fazer. Dragón deu risada e puxou a esposa pela mão. - Seu professor vai adorar te ensinar, vamos tomar uma paleta. O casal de afastou da mesa em que estava com Lis, mas ela ainda ficou um tempo olhando para o aparelho, não sabia o que falar apesar de ter tanta coisa presa na garganta. Não precisou procurar pelo número de Pablo na agenda, nunca esqueceu, mas depois de algumas tentativas desistiu, todas as chamadas acabavam caindo em uma caixa de mensagens. No condomínio Pablo estava olhando para o telefone, não quis atender, não queria trabalhar, também não podia fazer o que queria que era embarcar no primeiro voo de volta para o México, ou descobrir onde a ex-noiva estava dessa vez. Lis olhou para o casal que parecia estar alheio a qualquer coisa, Dragón estava olhando a esposa tomando sorvete como se fosse uma criança. Discou o número do subchefe, Sombra que estava esperando a resposta de Dragón sobre Lis atendeu no primeiro toque. - O que ela falou? - Sou eu. - Lis? Dragón falou com você? - Falou, preciso falar com Pablo, ele não atendeu, está tudo bem? A preocupação de Lis com a viagem de Ming tinha ficado ainda maior quando o hacker não respondeu ao telefone, Pablo era desligado, mas levava o trabalho a sério, sempre foi assim, ainda lembrava da primeira vez que o viu. Ela tentou se aproximar e ele se afastou, chegou a ser grosseiro, enquanto não terminou o que estava fazendo não deu atenção a nada nem a ninguém além da tela a sua frente. - Está tudo bem, Lis, vou passar para ele. Não estava exatamente tudo bem, mas não seria ele a dar as notícias de tudo o que tinha acontecido no condomínio e acreditava que nenhum dos dois queria exatamente falar de problemas. Ming ainda estava desacordado, era um bom momento para conversarem. O hacker estava sentado na frente do estande, o lugar sempre o lembrava de Lis. - Não fugi ainda chefe. Lis ouviu a voz do ex-noivo, apesar de ele não ter atendido, fechou os olhos e soltou o ar dos pulmões com a descarga de adrenalina que sentiu. - Tem alguém querendo falar com você, acho que vai querer atender. - Pois errou, não quero. Sombra colocou o telefone no ouvido outra vez. - Lis ele disse que não quer falar com você. O hacker tirou o telefone da mão do subchefe mais rápido do que Sombra foi capaz de prever, acabou rindo, conhecia aquela sensação. - Boxeadora, me perdoa eu não sabia, me diz onde você está, eu te amo, Lis, volta para mim, por favor. Há dez anos ouvia o hacker a chamar daquela forma, desde a primeira vez que ele segurou sua mão na Fazenda de Sombra no Mato Grosso e ela o socou por instinto, ainda adorava aquela voz e o jeito dele a chamar. - Preciso de ajuda, não sei fazer aquele negócio com o monitoramento, Dragón me deu o telefone dele, mas preciso ter certeza de que não vou ser pega, pode me ensinar. - Ouviu o que eu te disse? - Sim, eu ouvi, mas agora, preciso que me ajude, conversamos depois. Pablo sabia que quando Lis adotava aquela postura estava caçando, não era mais a sua menina, se tornava um soldado, o espaço para sentimentos era bloqueado. Então seguiu o jogo. - Tem um computador aí? - Não. - Tem como conseguir? Lis olhou em volta e imaginou que Dragón poderia ajudar, afinal tinha nascido naquele lugar, conhecia as lojas da cidade. - Espera. Falou com o mexicano e voltou para a mesa enquanto esperavam falaram sobre tudo, menos o que sentiam, o acesso remoto do celular foi desbloqueado e assim ele poderia ter não apenas a localização do aparelho como monitorar, instalar e apagar tudo caso algo desse errado. - Está sendo ouvida, boxeadora, tem algum aparelho com você transmitindo áudio. Me dá um minuto. Levou mais tempo do que isso, Pablo ouviu toda a conversa que Lis teve com o mexicano e editou as partes que precisava. Agora a conversa parecia de uma mulher se apaixonado pelo marido e dispensando qualquer tipo de ajuda de Dragón, mas assim que voltou ao telefone com a ex-noiva o hacker falou com um tom quase dolorido. - Também estou com saudade, Lis. Ela soube que ele tinha ouvido o momento em que ela perdeu o controle, foram alguns minutos, mas o suficiente para que ele entendesse que Lis estava no limite. - Obrigada por dar um jeito nisso. - Eu vou dar um jeito nisso, boxeadora, juro que vou trazer para casa. Lis iria falar sobre Rachel, o filho de Pablo e todas as questões que eram tão impeditivas quanto Ming, mas o mexicano chegou com um Macbook e entregou a garota, depois das instalações básicas ela baixou um aplicativo que permitia o acesso remoto e passou o comando de administrador para o hacker, a partir dali, a mágica foi feita. Cada câmera da Cidade do México passou a transmitir e a gravar em looping e as imagens que mostravam ela falando a telefone e mexendo em um computador foram deletadas. - Você é um gênio! Nerd, eu te amo. Não percebeu o que falou até ouvir o suspiro de Pablo ao telefone. - Eu também te amo, Lis, eu vou trazer você para casa meu amor, juro que vou, só confia em mim, só dessa vez. Por favor. Ela não pretendia deixar tudo nas mãos de Pablo, nunca teria escolhido se coadjuvante da própria vida, mas isso não significava que não confiava nele, teriam essa conversa no futuro, agora precisava que ele confiasse. - Eu não vou voltar, Pablo, mas preciso da sua ajuda, então esquece da gente, um dia, quando tudo isso acabar, a gente tenta se perdoar e quem sabe ser amigos, vou adorar, mas hoje preciso do soldado, Nerd.
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