Vem me ver!

1359 Words
Sombra ouviu a conversa do amigo com a ex-noiva, foi como ser levado para um tempo em que o destino insistia em afastá-lo de Júlia, hoje as coisas eram mais simples, tinha uma família grande como achou que nunca teria. A mulher que ele chamava de esquisita tinha lhe dado três filhos, na verdade, apenas Anne e Théo era fruto do casamento do subchefe, Endi foi adotado enquanto estavam em uma viagem aos Estados Unidos, mas gostava do fato de que os três eram amados de igual maneira. Não foi sempre assim, Júlia foi casada com um dos soldados da organização e a experiência quase a matou. Olhava para Pablo lembrando da sensação que sentia todas as vezes que imaginava a mulher nos braços de Demo, o ex-marido, e foi impulsivo, assim que o hacker desligou o telefone, decidiu que era o momento de retribuir o favor que um dia recebeu de Pablo. O rapaz veio ao Brasil para ajudar em uma guerra pessoal do subchefe, o código não permitia divórcios, os casamentos só terminavam com a morte e quase sempre quem deixava o mundo dos vivos eram as mulheres que eram substituídas em seguida. Sombra e Júlia se amavam, mas precisaram enfrentar juntos um núcleo machista e cheio de ordenamentos arcaicos para conseguirem ficar juntos, Pablo e Lis foram peças importantes nesse processo. - Vai, só não estraga tudo, mas vai gostar de ter você por perto. O hacker olhou quase desacreditando do que estava ouvindo. - Vai, porrα, antes que eu me arrependa. Quando Ming acordar, eu te aviso como estão as coisas e decidimos o que fazer, mas por enquanto, só vai. Pablo não perdeu mais tempo, onze horas de voo o separava do seu objetivo, era pouco se comparados ao quase um ano em que estiveram separados, mas ainda muito diante da urgência que sentia. Não procurou por roupas, pegou uma bolsa com alguns equipamentos que ele mesmo criou e seria demorado para reproduzir. Ethan o chamou. - Pablo! - Não vou fazer merdα. - Vai para o hangar usa o avião da organização. Sombra não tomou essa decisão devido ao tempo e sim porque não queria que Pablo chamasse atenção, estava machucado demais para passar pela segurança dos aeroportos sem ser notado e sabiam que Ming não era a única preocupação que tinham. Deixou o hacker partir antes de ir até o centro médico, contavam agora com dois médicos, Lobo, pai biológico do subchefe e Jocellyn, uma neurocirurgiã mundialmente reconhecida pelos seus feitos que veio ao Brasil conhecer os métodos de Lobo e acabou se apaixonando pelo professor. Todos sabiam que eram feitos um para o outro, mas Lobo acreditava que seria desrespeitoso com a memória da ex-mulher e teimava em fingir que eram apenas colegas de profissão. - Velho, preciso que ele descanse um pouco mais. - Podemos providenciar um descanso eterno, Joce queria testar uma teoria e estamos sem cobaias. - Ainda não, velho, preciso desse desgrαçαdο vivo, por enquanto, mas quero que ele durma por mais uns dois dias, Pablo e Lis merecem um descanso. - Pode deixar. Pablo reservou o quarto ao lado do que Lis estava hospedada, usou documentos falsos para fazer a reserva “online”, o sistema de monitoramento do melhor hotel do México era simples e conectado a uma central particular. - Sério? É tudo o que vocês têm? Falou sozinho enquanto ainda estava a caminho do lugar e o motorista olhou para o hacker pelo retrovisor achando que o passageiro estava reclamando da cidade. - Está em busca de diversão? Posso te mostrar alguns lugares muito bons. - Não, não, obrigado, estou de boa. O motorista estava acostumado a levar turistas americanos para o pessoal do cartel, ganhava um dinheiro e os turistas tinham a última noite de diversão antes de terem seus órgãos vendidos. Não foi dessa vez que ele conseguiu um cliente, as vezes tinha crises de consciência, preferia homens e Pablo parecia o candidato ideal, estava com as roupas sujas de sangue, o nariz obviamente quebrado, pensou lamentou internamente, mas deixou o hacker no lugar proposto. Pablo estava ansioso, não se deu conta das roupas, nem da condição, a viagem em avião particular tinha as suas vantagens. Dragón fez o check-in no balcão com os documentos do hacker e Pablo entrou pelo estacionamento do lugar sem ser visto. Dragón subiu e deixou a entrada de Solar liberada, ela ficou em uma loja comprando roupas limpas para o soldado. - Obrigado. - Já estive nessa situação e daria um braço para poder ver a Sol, sei o que está passando. Pablo achou engraçada a forma como o mexicano falou e resolveu brincar. - Meu mano, só tenho um, vou precisar dele, mas posso de dar minha gratidão. Dragón só percebeu que a colocação foi infeliz depois que já era tarde demais. - Perdon, cabron. - Hei, de boa, se esse fosse todo o meu problema seria o cara mais feliz do mundo. Por um tempo Pablo achou que tinha perdido muito quando se viu sem um braço no hospital, mas hoje sabia que as piores perdas são as da alma e não as do corpo. Tomou um banho e esperou por Solar enquanto conversava com o mexicano, ouviu a teoria de Dragón sobre Ming e o que Lis havia contado sobre o terceiro homem. - Hosmyn, mora e Honduras e é o líder americano, precisamos saber quem ele é, o que faz, se tem alguma coisa que podemos usar, se me der um lugar eu vou por ele. - Pode deixar, Dragón. Solar demorou, comprou de tudo, desde roupas íntimas, até perfume, relógio, sapatos, comida... - Obrigado, Sol, mas acho que exagerou um pouco. - Não me disse o que queria, olha, não sou sua secretária não tá. Os homens olharam para a garota estranhando a reação, Pablo divertido, mas o mexicano se preocupou. Segurou o rosto da esposa entre as mãos e mirou seus olhos com carinho antes de perguntar. - Tudo bem, meu pequeno sol? Ela balançou a cabeça que sim, e se aconchegou no abraço do marido. - Está instalado, se precisar de mim, ligue para Sol, meu telefone está com a sua mulher. O hacker gostou de ouvir que Lis ainda era dele, quis ter o poder de mudar o passado, não tinha, mas estava disposto a reorganizar o presente e definir um futuro ao lado da mulher que amava. Foi deixado sozinho, o casal saiu e fez questão de deixar a portaria avisada de que não precisava limpar o quarto. O hacker modificou a fechadura da porta, instalou duas microcâmeras no corredor, e outras no próprio quarto com sensor de presença, queria ser avisado se alguém entrasse. Verificou se havia algo com que se preocupar entre os demais hóspedes, cada documento foi verificado e as imagens comparadas com os dados fornecidos no check-in. Encontrou dois homens a serviço da tríade, imprimiu as fotos em uma impressora portátil, estava ansioso para ver a ex-noiva, mas tinha prometido ser cuidadoso e não a colocaria em perigo. Repassou cada detalhe e quando teve certeza de que estavam bem ligou para o Brasil. - Fala. - Cheguei. - Faz um tempo, estamos com a sua localização na tela, Dylan é um aluno. O hacker apertou um botão e o ponto azul na tela do computador na base do Brasil desapareceu. - Nem tanto, mas queria que soubessem onde eu estava. Sombra respondeu dando risada. - Filhα da putα! Precisamos mesmo de você. - Onde ele está? - Dormindo, fica tranquilo, vamos te avisar se alguma coisa sair do planejado. Desligaram e o hacker enviou uma mensagem para o celular que o mexicano havia deixado com Lis, não foi respondido. A garota tinha usado um suporte magnético para carros, colou na parte de baixo do guarda-roupa e manteve o aparelho desligado até que precisasse usar. O hacker esperou alguns minutos e enviou a mesma mensagem para o celular que Ming havia deixado com a esposa. “Boxeadora, quarto a esquerda, vem me ver.” A mensagem desapareceu assim que ela abriu, o coração de ficou acelerado, nem sequer sabia se era real.
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