Ao chegar em Teldrassil, tudo que o ômega imaginou, em tantos aspectos, se concretizou. Sentiu as saudades fortíssimas de casa que imaginou. Ao ser rodeado por tantos estranhos, sentiu saudades de sua terra aos dias se passarem e, ao acordar, não encontrar aquela paisagem gélida que tanto amava, mesmo que as daquele reino fossem tão lindas quanto Jungkook lhe contara. Sentiu saudades de seu beta ao agora ser cuidado por outro. Também descobriu que o seu noivo era um homem gentil, assim como pensou pelo que lhe contaram sobre o mesmo ao saber do acordo de casamento. E por mais que Teldrassil não fosse terrível como imaginou, ainda assim a melancolia lhe era sempre presente, pois toda a falta que imaginou ter foi antes da viagem e a saudades de suas terras e família não se comparava a falta que o seu alfa lhe fazia, e mais: nem era motivo para o seu choro antes de dormir.
Mas não importava mais. Quer seja suposição ou fato, nada mudaria aquela certeza de que nunca seria feliz longe do outro Jeon, apenas tinha que aceitar o seu destino. Hoseok era um homem bonito, não podia negar a beleza do alfa, ele era gentil e paciente com o seu temor. Em nenhum momento, desses dias que se passou após chegar em Teldrassil, o mais velho tentou tocá-lo de forma invasiva, mesmo que o ômega tenha percebido em seu olhos pretos — não tanto quanto os do irmão — brilhar desejo por si, o toque sempre era respeitoso. O mesmo chegou até a orquestrar belos passeios para que se conhecessem melhor e não fossem mais estranhos, mas já era tarde demais; não podia dar ao futuro marido aquilo que não mais possuía.
Não podia sentir o seu toque e não repudiar. Sentia até como se fosse físico o m*l estar de sentir outro lhe tocando. Sua pele era de outro! Graças a qualquer deus, não teve a boca tocada ainda, mas sabia que isso aconteceria, assim como em algum momento o seu corpo iria ser tomado por outro, e esse momento não tardaria.
Se olhava no espelho e o hanbok bonito, rendado com fios de ouro e feito com as melhores sedas de todos os reinos, o belo arranjo de flores em seu cabelo, deixava claro que o momento não passaria de hoje.
Estava belo demais e aquelas roupas, assim como a ornamentação de seu casamento, mostravam a riqueza que possuía, porém não podia se sentir mais miserável. Olhava-se no espelho e via o seu semblante choroso e triste refletir a sua alma durante esses dias em que sequer viu o alfa que ama.
Sabia que ele se escondia de si para não fazer uma loucura, inventava toda e qualquer desculpa para não aparecer nas refeições. A boca proibida do ômega tinha virado o karma de Jungkook e, por mais que ele tivesse que conviver com as consequências dos atos daquela viagem, ainda não suportava olhar seu — sempre seria seu — ômega e ter que tratá-lo como um lorde estranho.
E agora Yoongi sabia que o fim definitivo estava a poucos minutos de distância. Logo teria que caminhar até o altar. Tinha pedido alguns minutos a sós, porém não via força em si para sair pela porta e trilhar o seu destino. Procurou dentro de si, mas não encontrou aquela obstinação altruísta que o fez abdicar da proposta de fuga. Parece que, depois de ter uma comparação entre o céu, nos braços de seu alfa, e do inferno, ao lado de Hoseok, o preço tinha se tornado caro demais. Insuportável.
Então como o pagaria?
Se abraçou, procurou a presença de Jungkook, mas apenas encontrou-se solitário, confuso e com medo. Deixou o soluço escapar, pois não sabia se tinha sido uma brisa, mas o cheiro de grama molhada se fez no ambiente. Olhou para o espelho mais uma vez, entretanto não encontrou apenas o seu reflexo.
Como que por um passe de mágica por desejar tão forte o outro, Jungkook se materializou ali consigo. Tinha olheiras, os cabelos estavam maiores e desgrenhados, assim como sua barba por fazer, seus olhos e ponta do nariz vermelhos e em sua mãos tinha uma trouxa.
— Você será o noivo mais lindo que Teldrassil já viu...
Deu passos até o menor e tocou a pele que tanto sentiu falta, fazendo os dois suspirarem de forma dolorosa. Aquele toque era tão ansiado por ambos que, ao finalmente ser recebido, machucava ao mesmo tempo que os faziam tremer em prazer.
— V-você veio. — se agarrou ao alfa, chorando. Não podia mais conter sua tristeza.
E como costumava fazer, afundou o rosto em seu peito e o esfregou ali, sentindo seu cheiro que lhe trazia paz e conforto. Metade da ansiedade que sentia foi acalmada em segundos.
— Eu vim me despedir. — falou baixo, o apertando contra si. — Queriam que eu te levasse até o altar, já que seus pais não estarão aqui, mas... — fez Yoongi encará-lo. — Me diga, como posso entregar minha vida nas mãos de outro? Eu com certeza te jogaria sobre meus ombros e fugiria ou morreria ali, vendo-o te tomar de mim outra vez. — o alfa não tinha nem forças para fingir um sorriso, seu semblante expressava pura melancolia.
Os dias tinham se passado e, mesmo que por fora tudo parecesse o mesmo, por dentro Jungkook sabia que tudo mudou. E não conseguia seguir, pelo menos não ali, em Teldrassil, tão perto e distante dele.
— P-para onde vai? Jungkookie, eu não posso ficar longe de você... Você sabe, eu preciso do seu cheiro, mesmo que seu irmão me marque, você ainda é o meu ninho. — soluçou e isso partiu o coração do mais velho.
Mas nada podia fazer. Acabar com aquele sofrimento só cabia à Yoongi, então deixou seus bons modos de lado; não pensou na bondade do outro, pensou apenas nos dois. Não se importava com nada além dos dois e não tinha vergonha de admitir. Já havia ido longe demais traindo seu próprio irmão. Tinha que tentar mais uma vez — a última.
— Então venha comigo. — sentenciou.
O cheiro de Jungkook estava forte, sua presença dominava o local, mas não foi por isso que, sem hesitar, Yoongi lhe respondeu:
— Eu irei.
Tal resposta surpreendeu Jungkook, mas logo pensou que, assim como ele, Yoongi devia ter finalmente percebido que não podiam viver sem o outro. Estavam ligados de quase todas as formas e era algo difícil de se quebrar.
— Eles vão nos achar e não serão piedosos. — informou, acariciando o rosto do qual sentira tanta falta.
E, mais uma vez, o jovem ômega lhe surpreendeu:
— Eu prefiro morrer do que viver sem você. Na realidade, sem você é exatamente assim que me sinto: morto. Meu eu inteiro precisa da sua presença, Jungkookie, e todo o resto é insuportável demais. Se vamos viver um ano ou um dia, não importa mais. Me leve, tome para você o que lhe pertence, porque eu te reivindico para mim como meu alfa e nunca mais abrirei mão disso, mesmo que signifique a morte, desonra ou condenação eterna.
Aquilo era até mais do que sempre desejara ouvir, então, sem mais perder tempo, começaram os preparativos para a fuga. Todos estavam no local da cerimônia e não dariam pela falta deles tão cedo, e o fato de ser o responsável para levar o ômega para o altar não traria suspeitas quando saísse do quarto com o noivo de seu irmão.
Yoongi apenas pegou algumas roupas que trouxera do norte, além de um casaco de pele. Sabia que não podia levar muito e que o destino era indefinido, porém confiava em Jungkook e, depois que pegou tudo que era necessário, saiu com uma trouxa similar à do alfa.
— Estou pronto. — falou firme. Não tinha mais dúvidas.
— Tem certeza? — queria aquilo, mas, se o menor fugisse consigo, agora não teria volta; ultrapassariam a linha de vez e, diferente da proposta durante o caminho até a Teldrassil, não teriam dias de vantagens, no máximo horas. — Eu não quero que se arrependa. Será uma viagem difícil, Yoongi, e, como te disse no passado, eu estou aqui para te proteger e ver você feliz e...
— Minha felicidade é você, Jungkookie. — interrompeu o monólogo de aviso do maior. — Eu sei que não será fácil, porém não quero reinos e riquezas se me sinto morto longe de ti. Me leve de uma vez. — prendeu a sua mão na do alfa. — Me dê o sobrenome Jeon, mas me ligando completamente a ti como teu ômega. Vamos reescrever nossos destinos.
Escolhia o amor e, naquele momento e situação, sabia que amar era um ato suicida, mas não sentia mais medo da morte do que ao imaginar-se subindo naquele altar e casando-se com Hoseok ou tendo uma vida longa com ele. A morte não lhe assustava tanto quanto a realidade que encararia se ficasse, principalmente com o seu ninho distante.
O alfa apertou um pouco a mão do ômega e logo a levou aos seus lábios. Repetiu as palavras do menor como um mantra: vamos reescrever nossos destinos.
Saiu pela porta. O cavalo selado lhe esperava e a viagem por agora teria que ser no mesmo, pois, além de ser mais rápido e possibilitar uma possível fuga dos homens de seu irmão, não tinham tempo de buscar uma carruagem. Subiu Yoongi primeiro no animal e depois subiu, se colocando atrás do menor, e quando pegou as rédeas e fez o cavalo começar a andar rumo ao horizonte, apenas deixou o rastro de seus cheiros, que, como devia ser, se misturavam, e as flores que enfeitavam o cabelo do ômega para o casamento, que caíram no chão ao entrar em contato com o vento.
Os minutos foram passando e a cada novo galopar ficavam mais longe das belas paisagens de Teldrassil. No entanto, enquanto o casal fugia, Hoseok entrava em agonia ao não ver a chegada de seu irmão com o seu ômega. Entendia que existia uma espera até a chegada do noivo, porém Yoongi estava exagerando no atraso. Além do mais, sabia que Jungkook sempre fora responsável.
— Taehyung. — chamou um de seus escudeiros pessoais.
O alfa, tão alto quanto seu irmão e a si próprio, aproximou-se, pronto para escutar o que o lorde tinha a dizer e, em tom baixo, o mesmo proferiu:
— Vá ao castelo e veja se aconteceu algum imprevisto.
— Como desejar, meu lorde.
Sem mais dizer, Taehyung partiu para o lar dos Jeon e, ao chegar lá, ficou surpreso ao ver o quarto que o jovem noivo usava, até então, estava vazio, e o mais estranho era que ali jazia um cheiro familiar além do cheiro exótico do ômega. Era um cheiro marcante de um alfa e o conhecia muito bem; Jeon Jungkook estivera ali. Então isso só poderia significar que estavam a caminho e haviam se desencontrado, mas, assim que regressasse para o local da cerimônia, encontraria os dois ali. O fez: montou em seu cavalo e galopou às pressas para continuar seu dever como guarda pessoal do líder dos Jeon, que era responsável por toda a província de Teldrassil. Qual não foi sua surpresa ao reencontrar Hoseok no altar, solitário e impaciente. Naquele momento, não soube o que dizer, porque, pelo tempo, irmão e noivo deviam estar ali, e se não estavam... Sabia que Hoseok se recusaria a aceitar tal ideia e teria um acesso de fúria. Só havia uma saída: contar os fatos ao lorde e esperar que ligasse todos os pontos.
— Onde ele está? — rosnou ao ver Taehyung sozinho, prevendo um fracasso de sua missão.
— Meu lorde, ao chegar no castelo dos Jeon, fui direto para os aposentos do seu jovem noivo e ele já não estava mais lá. Eu imaginei que ele já estivesse aqui, porque seu quarto ainda tinha seu cheiro e o do lorde Jeon Jungkook.
A face do lorde dominou-se por uma fúria instantânea e, como esperado do escudeiro, vociferou para cima do mesmo:
— O que está insinuando, Kim Taehyung? Que meu irmão fugiu com meu noivo!?
Taehyung viu nos olhos do seu lorde a fúria de um alfa líder e, em temor, abaixou seus ombros e curvou-se minimamente para, então, cochichar em devoção:
— Não, meu lorde, eu só estou contando o que vi.
Hoseok não podia mais esconder sua impaciência, até seu cheiro predominou o local de forma esmagadora. Não aguentaria aquela traição e a humilhação diante de seu povo. Se Jungkook realmente tivesse lhe roubado o ômega, lhe partiria o coração, pois amava o irmão, mas, ainda assim, o puniria como a qualquer um que lhe desafiasse. O amor e o laço sanguíneo não pouparia nenhum dos dois do destino ao qual buscaram.
Em passos firmes, deixou o altar. Tentar disfarçar ou esconder que não haveria casamento não mudaria a vergonha que passou ali ao ser deixado plantado por um maldito ômega. Lorde ou não, o Min tinha sorte de tê-lo como futuro marido, porém o que ganhou em troca? Fora humilhado em frente de todos de seu reino.
— M-meu Lorde. — um beta se aproximou com receio. Não podia sentir a essência do alfa, porém conhecia sua expressão de ira. — O-o que aconteceu?
— O casamento vai ser cancelado, Choi. — gritou tão alto que sua voz chegou a algumas das pessoas da multidão que esperava o acontecimento que seria aquele casamento. — Taehyung! — gritou, arrancando os enfeites da veste nupcial.
— Sim, meu lorde.
— Preparem os homens e os cavalos. Iremos atrás do meu noivo fujão. — falou em tom tão assustador que Taehyung não tinha dúvidas sobre a punição que aquele ômega receberia.
— E seu irmão?
— Espero que seja alguma espécie de confusão e que ele não o tenha ajudado ou fugido com ele — seu tom já estava mais brando. —, pois eu amá-lo não mudará a sua punição.
Queimava imaginar que sofrera tal traição. Tinha confiando o seu futuro noivo à única pessoa que confiava cegamente. Jungkook não poderia ter feito isso consigo. E, quando seus homens e cavalos estavam a postos, seguiram o rastro do cheiro inconfundível do ômega, que continuava mesclando-se com o de seu irmão.