14. Elena

1056 Words
Dante caminhava como se tivesse nascido ali, e eu, presa ao braço dele, tentei parecer que também. Um homem se aproximou, sorrindo demais. — Valentini — ele disse, estendendo a mão. — Que surpresa. Dante apertou a mão dele com o mínimo de força necessária pra impor. — Não gosto de surpresas — respondeu. O homem riu, nervoso. O olhar dele deslizou pra mim, curioso. — E você trouxe companhia. Eu senti a vontade de encolher, mas lembrei das palavras de Ivy. Lembrei da postura. Dante apertou meu braço sutilmente, como um aviso e uma posse. — Elena — ele disse, me apresentando como se me batizasse. — Minha convidada. O homem sorriu pra mim. — Prazer. Eu respirei e entreguei uma frase, como mandado. — Prazer. Só isso. O homem inclinou a cabeça, analisando. Como se tentasse entender de onde eu tinha saído. Como se tentasse medir quanto eu custava. Dante respondeu por ele sem palavras, apenas ficando ainda mais próximo. — Vamos — Dante disse, e me guiou adiante. Conforme caminhávamos, eu vi mesas com arranjos de flores, gente importante, câmeras. Eu vi mulheres com vestidos que custavam mais do que tudo que eu já tive junto. Eu vi homens que sorriam com dentes brancos e olhos vazios. E eu vi, num canto, dois homens que não combinavam com a leveza do lugar. Um deles era com o Dante, postura de rei. O outro parecia perigo em forma de pessoa. Dante parou. O ar ao redor dele mudou. — Lorenzo — ele disse, como quem cumprimenta um destino. — Irmão — Lorenzo respondeu, e então o olhar dele veio até mim. Eu senti como se estivesse sendo pesada e medida. — Então essa é a Elena. Meu coração bateu mais rápido. Ele sabia meu nome. Claro que sabia. Dante não soltou meu braço. — É. O outro homem, deu um sorriso que não chegou nos olhos. — Você tem bom gosto, Dante — ele disse, e o jeito como ele falou aquilo fez minha pele arrepiar. Dante não piscou. — Eu tenho controle — ele respondeu. O sorriso do homem se alargou, como se tivesse achado graça. Lorenzo levantou a taça num gesto lento. — Hoje é uma noite de paz — ele disse, olhando ao redor. — Pelo menos na superfície. Dante inclinou a cabeça. — Por isso eu trouxe uma lembrança. Eu engoli em seco, percebendo, com atraso, que eu era essa lembrança. E então, do outro lado do salão, eu vi um grupo se aproximando. Os sorrisos eram educados demais. Os olhos, atentos demais. O tipo de gente que, mesmo de terno e perfume, parecia carregar arma por dentro. Lorenzo observou, tranquilo, como quem assiste uma peça já ensaiada. — Eles vieram — ele disse, baixo. Dante apertou meu braço de um jeito quase imperceptível, mas meu corpo entendeu como um comando. Fica. Não treme. Não quebra. O grupo parou a poucos passos. Um homem no centro, bem penteado, bem vestido, com um sorriso que parecia uma ameaça disfarçada. — Valentini — ele disse. — Que honra. Dante respondeu com um sorriso frio. — Honra é uma palavra cara — ele disse. — Você costuma pagar por ela? O homem riu, como se aquilo fosse uma brincadeira, mas os olhos dele não riram. — Sempre há um preço. E então ele olhou pra mim. Minha garganta secou. Eu lembrei do aviso de Ivy. Eu lembrei do "olha pra ele". Mas o homem não esperou eu desviar. — Quem é ela? — perguntou, como se eu não estivesse ali. O sangue subiu no meu rosto, e eu senti um impulso infantil de dizer "eu sou uma pessoa". Mas as palavras morreram. Dante deu um passo sutil, colocando o corpo dele como uma muralha entre o olhar do homem e o meu. — Ela não é assunto — ele disse, a voz baixa, controlada, perigosa. — então não olha para ela. O salão ao redor continuava com risos e música baixa, como se nada estivesse acontecendo. Mas eu senti a tensão como um fio esticado prestes a arrebentar. O homem piscou devagar, o sorriso diminuindo um milímetro. — Entendido — ele disse, e a educação dele cheirava a veneno. — Não quero estragar a noite. Dante inclinou a cabeça, como se concedesse permissão pra ele existir mais um pouco. Quando o grupo se afastou, eu soltei o ar que eu nem sabia que estava prendendo. Lorenzo me observou, e, por um segundo, achei que ele tinha pena de mim. Ou talvez fosse só cálculo. — Você tá indo bem — Lorenzo disse, e aquilo foi quase gentil demais pra ser real. Eu não sabia o que responder. Então fiz o que eu sabia fazer. Fiquei em silêncio. Dante virou o rosto pra mim, e o olhar dele parecia ter atravessado tudo: o salão, os homens, as ameaças, pra pousar em mim como se eu fosse o centro. — Olha pra mim — ele murmurou, tão baixo que só eu ouvi. Eu senti meu coração tropeçar. — Eu... — comecei, mas não tinha frase. Dante aproximou a boca do meu ouvido, e a voz dele me arrepiou inteira. — É assim que você sobrevive — ele disse. — E é assim que eles aprendem. Eu engoli em seco. — Eles quem? Dante sorriu, lento. — Todos. E, naquele instante, eu entendi uma coisa com uma clareza c***l: ele não tinha me tirado da mira. Ele só tinha mudado o tipo de arma apontada pra mim. (…) O salão continuava brilhando como se nada pudesse tocar aquela bolha de luxo. Taças tilintavam. Risos atravessavam o ar em ondas leves. Um quarteto tocava alguma coisa clássica num canto, tão perfeito que parecia falso. E eu, presa ao braço de Dante, tentava respirar como se eu também pertencesse ali. Mas a verdade é que eu sentia o perigo por baixo de tudo. Não era algo que eu via, era algo que eu percebia. Nos ombros rígidos dos seguranças misturados à decoração. No jeito que certos homens se cumprimentavam sem sorrir de verdade. No silêncio que surgia em volta de nomes importantes. E no modo como Dante... era Dante. Ele estava bonito demais para ser real. Perigoso demais para ser humano. O tipo de homem que não precisava gritar pra dominar um lugar, porque dominava só por existir.
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