Marcas Invisíveis

956 Words
Andréia começou a perceber que o verdadeiro problema de amar Dante não era o perigo ao redor dele. Era o perigo dentro dele. Os dias seguintes passaram estranhamente silenciosos. E silêncio, vindo de Dante, nunca era algo bom. Ele continuava trabalhando normalmente, recebendo aliados na mansão, fazendo ligações durante madrugadas inteiras e desaparecendo por horas em reuniões que ela preferia não perguntar. Mas existia algo diferente. Algo frio. Controlado demais. E Andréia conhecia aquele homem o suficiente para saber: quando Dante ficava quieto… era porque estava pensando demais. — Naquela tarde, a chuva caía forte outra vez quando Andréia decidiu sair do quarto depois de horas presa dentro da própria cabeça. A mansão parecia enorme demais quando Dante não estava por perto. Vazia. Ela caminhou lentamente pelos corredores silenciosos até parar perto da cozinha. Duas empregadas conversavam baixo. Mas se calaram imediatamente ao vê-la. Aquilo aconteceu tantas vezes que ela já estava acostumada. As pessoas tinham medo daquela casa. Medo dele. Uma das mulheres sorriu sem jeito. Empregada: Boa tarde, senhora. Andréia assentiu levemente. Andréia: Dante chegou? A mulher negou rápido. Empregada: Ainda não. Ela suspirou baixo. Então ouviu passos vindo do corredor principal. Rafael apareceu ajeitando o terno escuro. O segurança mais próximo de Dante parecia cansado. E tenso. Muito tenso. Andréia imediatamente percebeu. Andréia: O que aconteceu? Rafael hesitou. Erro. Ela percebeu na hora. Andréia: Rafael. Ele desviou os olhos. Rafael: Não é nada. Mentira. Andréia cruzou os braços. Andréia: Eu conheço essa cara. Silêncio. O homem soltou o ar lentamente antes de responder: Rafael: Seu marido perdeu a paciência hoje. O estômago dela gelou. Porque isso podia significar muitas coisas. E nenhuma delas era boa. Andréia: Com quem? Rafael hesitou outra vez. Rafael: O fotógrafo. O coração dela afundou. Luca. Andréia: O que ele fez? Rafael passou a mão pela nuca. Claramente desconfortável. Rafael: Nada. Ela franziu a testa. Andréia: Então por quê— Rafael: Porque o Dante não precisava de motivo. Silêncio. Pesado. A chuva parecia ainda mais forte agora. Andréia sentiu o peito apertar lentamente. Andréia: Onde ele tá? Rafael respondeu baixo: Rafael: Hospital. O mundo pareceu parar por um segundo. Andréia: Meu Deus… Rafael rapidamente tentou amenizar. Rafael: Ele tá vivo. Mas aquilo não ajudava. Não ajudava nem um pouco. Porque Andréia sabia exatamente o que aquilo significava. Dante tinha feito. De novo. Ela se afastou lentamente sentindo o ar faltar. Mistura de culpa. Raiva. E algo pior: a sensação sufocante de que ela estava perdendo o controle da própria vida. — Naquela noite, Dante voltou para casa perto das duas da manhã. O som da porta do quarto se abrindo lentamente despertou Andréia no mesmo instante. Ela estava sentada na cama antes mesmo dele acender a luz. Dante parou ao perceber. Os olhos escuros imediatamente encontrando os dela. Silêncio. Ele retirou lentamente o paletó. Como se nada tivesse acontecido. Andréia sentiu a raiva subir instantaneamente. Andréia: Você mandou bater nele. Não foi pergunta. Dante continuou tirando o relógio do pulso. Calmo. Frio. Dante Valenti: Ele encostou em você. Ela levantou da cama imediatamente. Andréia: Você escuta o que tá falando?! Ele finalmente olhou pra ela. E aquilo irritou ainda mais. Porque não existia culpa naquele rosto. Nenhuma. Dante Valenti: Sim. Andréia soltou uma risada nervosa. Sem acreditar. Andréia: Você mandou um homem pro hospital porque ele apertou minha mão! Dante permaneceu em silêncio. O que significava que ela estava certa. O peito dela queimava agora. Andréia: Isso é doentio! A mandíbula dele travou discretamente. Mas ainda assim… calmo. Dante Valenti: Talvez. Ela ficou olhando pra ele incrédula. Porque aquela sinceridade era assustadora. Andréia: Você não acha normal?! Dante Valenti: Eu não sou normal. A resposta veio imediata. Crua. Fria. Real. O silêncio caiu pesado entre os dois. Dante caminhou lentamente até ela. Mas Andréia deu um passo pra trás. E aquilo mudou alguma coisa nele. Os olhos escureceram perigosamente. Dante Valenti: Não faz isso. Andréia: Isso o quê? Dante Valenti: Se afastar de mim. A voz saiu baixa. Mas carregada. Ela cruzou os braços tentando esconder o nervosismo. Andréia: Você tá me sufocando. Pela primeira vez naquela noite… algo pareceu atingir Dante de verdade. Ele ficou imóvel por alguns segundos. Os olhos presos nela. Profundos. Intensos. Quase perigosamente vulneráveis. Mas só por um instante. Porque então o controle voltou. Como sempre. Dante Valenti: Você prefere que eu deixe homens olharem pra você? Andréia: Eu prefiro que você pare de agir como se eu fosse um objeto! Dante riu baixo. Frio. Dante Valenti: Você realmente ainda não entendeu. Ele deu mais um passo. Andréia sentiu o corpo inteiro tensionar. Dante Valenti: Eu não controlo você porque é minha propriedade. A voz ficou mais baixa agora. Mais intensa. Dante Valenti: Eu controlo porque tenho medo. Aquilo a atingiu de surpresa. Ela piscou lentamente. Confusa. Dante aproximou ainda mais. Dante Valenti: Você é a única coisa nesse mundo que consegue me destruir. Silêncio. O coração dela disparou. Porque ele parecia sincero. Perigosamente sincero. A mão dele segurou lentamente a cintura dela. Quente. Firme. Possessiva. Dante Valenti: E eu não sei amar pouco. Andréia sentiu os olhos queimarem. Porque aquela era a pior parte. Dante realmente amava ela. Da forma mais intensa que alguém poderia amar. Mas intensidade demais também machucava. E ela estava começando a sentir as marcas invisíveis daquele relacionamento. As marcas que não apareciam na pele. Mas ficavam dentro dela. Dante encostou a testa na dela lentamente. Os olhos fechados. Respiração pesada. Dante Valenti: Você vai me odiar um dia. A voz saiu quase inaudível. Ela sentiu o peito apertar. Andréia: Não. Ele abriu os olhos devagar. Tristes. Escuros. Perigosos. Dante Valenti: Vai. Silêncio. Porque talvez ele estivesse certo. E talvez… isso fosse exatamente o que mais aterrorizava os dois.
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