Passei o resto do dia na cama, não sai nem para comer e fiquei o tempo inteiro me questionando. Como é possível que eu, relés mortal, tenha feito algo pegar fogo? Pior ainda, uma pessoa.
Não entra na minha cabeça de jeito nenhum. Por ser algo impossível de provar, mesmo que Beca tenha jurado com todas as suas forças que foi eu, eu posso continuar a frequentar as aulas normalmente já que não tive culpa alguma segundo a diretora. Mas, a minha mãe me conhece e sabe que coisas bizarras acontecem quando estou presente e, provavelmente, não vai mais permitir que eu vá para a escola, pelo menos não essa.
Por causa do que aconteceu hoje temos que nos mudar novamente e acho que meus pais já estão ficando um pouco sem ideia. Nos últimos três anos, estamos em constante mudança por causa de mim e sei que isso está desgastando a nossa família. Existem momentos que eu até me questiono se ainda somos uma família.
A noite, meu pai chega acompanhado de minha mãe e me chamam para uma conversa séria. Eu ainda me lembro como dói a nossa primeira conversa desse tipo, eu contei tudo que tinha acontecido e minha mãe sorriu e disse que tudo ficaria bem enquanto me abraçava e meu pai prometeu com um sorriso caloroso que sempre iríamos enfrentar isso juntos. Agora, olhando para eles, tudo que consigo ver é preocupação e exaustão em seus olhos.
– Oi pai, mãe. Como estão? – Pergunto abrindo um sorriso caloroso, mesmo sem sentir calor nenhum.
– Arrumamos um lugar para você. – Meu pai responde, ignorando os meus cumprimentos. O sorriso que eu tanto lutei para sustentar morre na hora.
– Como assim? Vamos nos mudar? Eu não acho que... – Começo a explicar o meu ponto de vista, mas sou interrompida por meu pai.
– Não vamos nos mudar.
– Então porque você está dizendo que arrumou um lugar para mim? – Estou confusa com suas palavras.
– Nós vamos continuar aqui, você vai se mudar. – A notícia é como uma bomba sendo jogada no meu colo.
– Não podemos continuar largando tudo, nossos trabalhos, amigos que fazemos e outra infinidade de coisas por causa de você. Estou cansado disso. – Diz meu pai de forma exasperada. Pelo visto ele queria falar isso a algum tempo já, mas só agora teve coragem e motivação.
Eu dei essa motivação.
– Andamos pesquisando a alguns meses e encontramos um internato para adolescentes problemáticos em Londres. Você sempre quis conhecer Londres. – Diz minha mãe e não posso acreditar em suas palavras.
– Vai me mandar para morar junto com os delinquentes? – Pergunto surpresa sem acreditar que eles vão fazer isso comigo. Isso não pode mesmo estar acontecendo.
– Não são delinquentes, são pessoas iguais a você. – Isso é pior que um t**a na cara para mim.
– Já está decidido, você vai e pronto. Fim de papo. – Quem dá o ultimato é meu pai.
Com os olhos cheios de lágrimas e sem saber o que responder, eu voto para o meu quarto com a cabeça em turbilhão e o coração em pedaços.
Dizer que passei praticamente a semana inteira no quarto não seria uma surpresa, eu saia do quarto e fazia as minhas refeições quando meus pais não estavam e fingia que estava dormindo sempre que eles vinham ao meu quarto, tudo isso para não ter que encará-los ou conversar com eles. As palavras que eles me disseram doeram demais, mas passar esse tempo sozinha também serviu para que eu refletisse sobre vários aspectos da minha vida e também da deles. Não devo ser egoísta e pensar apenas em mim por isso devo ir a esta escola e viver bem lá sem preocupar os meus pais, eles já passaram por muita coisa por minha causa e não é justo que tenham de continuar deixando as suas vidas para trás por minha causa.
Está decidido, eu irei a esta escola e farei o meu melhor para durar lá. Uma vez na vida, eu vou fazer o possível para me encaixar em algum lugar.
Olho o relógio e são 17:20.
– Hora de sair desta cama. – Digo a mim mesma sendo forte então tomo um banho e vou para a cozinha com o propósito de fazer um bom jantar para quando os meus pais chegarem. Faço uma macarronada simples e fico no sofá assistindo enquanto espero eles chegarem.
Quando ouço o barulho de chaves e a porta sendo aberta, abro um sorriso para os meus pais.
– Pai, mãe. Olá.
Eles me olham estranho, provavelmente porque até ontem eu estava ignorando os dois e agora estou toda sorrisos para os dois.
– Eu fiz o jantar. – Eles se entreolham, mas não dizem nada e se dirigem para o seu quarto juntos cochichando entre si, voltando alguns minutos depois de banho tomado. A minha mãe se dirige a cozinha enquanto meu pai me observa enquanto assisto a TV.
– Você está bem? – É o meu pai que toma a iniciativa de perguntar.
– Sim, estou bem. E você?
– Estou bem. – Responde encabulado.
– Vamos comer? – Pergunto e ele assente, eu vou na frente e ele vem logo atrás de mim. Eu sento-me primeiro e ele se senta ao lado da minha mãe. Os dois se entreolham como se não soubessem como dizer.
– Bem, nós…
– Eu vou para a escola. Não precisam mais se preocupar. – Digo enquanto me sirvo interrompendo as palavras da minha mãe.
– Sério? – Pergunta meu pai de forma surpresa deixando cair o garfo.
– Sei que querem sempre o melhor para mim e não escolheriam nenhum lugar que me deixasse em apuros ou que me maltratassem. Para quando é a viagem?
– Semana que vem. Se não quiser ir, não vamos te obrigar. – Minha mãe diz e eu fico surpresa com as suas palavras. Por um momento quero dizer que não vou, mas me lembro do sofrimento na voz do meu pai naquele dia e declino a ideia, sei que o futuro deles depende de mim.
– Eu quero.
Eu assinei meu destino com aquela sentença.
Pela primeira vez em muitos dias comemos em paz, conversando sobre o dia e até sorrindo em alguns momentos e aquilo me fez sentir que tudo estava voltando ao normal como era, que voltamos a ser uma família feliz e unida e isso me fez feliz.
Naquela noite eu tive um sonho, eu estava em meu quarto mas havia uma luz azul medonha sobre todo o ambiente e ao pé da minha cama, um homem me observava atentamente. Ele não se aproximou, mas me observava, eu tentei falar e não consegui, tentei me mexer e estava presa e isso me apavorou.
Num instante eu estava sonhando, no outro eu fui acordada pela minha mãe.
– Tudo bem? Você estava suando. – Olho pela janela e vejo que o sol já saiu. É dia, foi tudo um sonho.
– Sim, está tudo bem. Foi apenas um sonho.
– Bom, levante-se e faça as suas malas imediatamente. – Franzo as sobrancelhas sem entender muito bem.
– Como assim fazer as minhas malas? Para onde vamos?
– Não pergunte, apenas faça.
O que pode estar acontecendo agora?