Capítulo 6: Emanuele

543 Words
Desabei no chão, sobre o tapete absurdamente macio, e o choro veio. Um choro feio, rasgado, que sacudia meu corpo inteiro com a força de todas as perdas que eu m*l conseguia processar. Meus pais. A imagem do meu pai, impassível com a faca na mão, se sobrepôs à da minha mãe, chorando em silêncio, cúmplice. Como eles puderam? Como eles puderam me vender como um animal, apagar meu futuro para consertar o deles? Meus irmãos... Meu Deus, meus irmãos. O rostinho de Jonas, que ainda mamava no peito da minha mãe. A mãozinha da Lorena, que sempre segurava a minha. Eu nem pude me despedir. Meu peito doía, uma dor física, oca. Pensei nos meus amigos, nas risadas com a Cida na praça. Pensei no Ricardo, o menino fofo do açougue, que tinha me chamado para tomar um sorvete no domingo. Um domingo que nunca chegaria. Até do meu chefe, o Seu Armando, eu senti falta. Aquela vida não era perfeita, mas era a minha vida. E ela tinha sido roubada. Não sei quanto tempo fiquei ali. Olhei para o relógio dourado na parede: seis horas. Faltavam duas horas para o jantar. Como se o relógio fosse um alarme, ouvi o som da chave na fechadura novamente. A porta se abriu. Duas mulheres de uniforme preto e avental branco entraram. Uma era mais velha, com o mesmo coque apertado da governanta. A outra era jovem e mantinha os olhos baixos. — Signorina, andiamo. È ora di prepararsi per la cena — disse a mais velha, a voz rápida e cheia de ordens que, para mim, eram apenas ruído. Ela gesticulava, apontando para mim, para a cama, para o banheiro. Eu me encolhi, abraçando os próprios joelhos. Elas queriam que eu me levantasse. A mulher mais velha estendeu a mão para mim, a expressão impaciente. Levantei-me sozinha, antes que ela me tocasse. Elas me guiaram até a porta do banheiro e a abriram. A banheira de mármore, grande o suficiente para eu nadar, já estava cheia de água fumegante e espuma. Havia toalhas felpudas do tamanho de lençóis e frascos de vidro com líquidos cheirosos. A mulher mais velha apontou para a banheira e depois para as minhas roupas, fazendo um gesto claro para que eu as tirasse. — Forza, signorina. I vestiti. Ela ia me dar banho. Como se eu fosse uma criança. Uma boneca suja. A humilhação queimou meu rosto mais do que as lágrimas. A jovem se aproximou, a mão estendida, como se fosse me ajudar a tirar a blusa. A mais velha fez um som com a boca, um "tsc!" de impaciência. A dor, o medo, a humilhação... tudo explodiu dentro de mim. Com um movimento brusco, afastei a mão da moça. As duas me olharam, surpresas com meu gesto. Encarei a mais velha, sua expressão de desdém, e as palavras saíram da minha boca, arrastadas pelo meu próprio sotaque, a única coisa que ainda não podiam tirar de mim. — Calma aí, coroa. Já tô tirando a roupa. Glossário: Signorina, andiamo. È ora di prepararsi per la cena: "Senhorita, vamos. Está na hora de se preparar para o jantar." Forza, signorina. I vestiti: "Vamos, senhorita. As roupas." (Forza é uma interjeição comum que significa "vamos", "anda logo", "força".)
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