Capítulo 14: Endereço Proibido

1699 Words
Alessandro Volkov O frio da madrugada me envolvia enquanto eu dirigia pelas ruas semi dormidas da cidade. O endereço na mensagem piscava na tela do meu celular como um portal que eu precisava atravessar: Rua das Orquídeas, número 137. Um casarão antigo, de mármore gasto e janelas grandes com grades ornamentadas, lembrava as construções coloniais que uma vez me fascinaram na infância, antes que meu mundo se tornasse refúgio de poder e sombra. Agora, aquele lugar significava apenas um desafio: os fantasmas de Liandra talvez ainda caminhassem por ali. Não havia rastro de Olivia quando saí de casa — ela dormia, exaurida pelos eventos recentes. Decidi não acordá-la; precisava manter o controle da situação e não desejava colocá-la em risco. O amor que eu sentia por ela era tão primordial quanto o ar, mas, ao mesmo tempo, carregava consigo o medo de que qualquer vulnerabilidade fosse explorada por Sergei. Meu coração doía com essa contradição: resgatar Olivia, mas sem perder o equilíbrio que mantinha entre proteção e obsessão. Estacionei o carro a poucas quadras do casarão e caminhei sob a lua pálida até o portão de ferro. A chave mestra que Sergei me apresentara funcionou como mágica em sua fechadura antiga. O portão rangeu, e o jardim se abriu diante de mim, um corredor de arbustos cortados em formas geométricas, lembrando corações e espirais, marcas que alguém tatuou naquele espaço há muito tempo. O perfume abafado das orquídeas noturnas pairava no ar, trazendo lembranças de Liandra: ela adorava flores delicadas, dizia que cada pétala parecia carregar promessa de eternidade. Entrei no hall imenso, alcatifado vermelho e lustres de cristal que reluziam fragmentos de luz. O tapete exibia o emblema de uma coroa estilizada rodeada de chamas, um brasão particular que não me pertencia — mas que Sergei adotava como sua assinatura de terror. Caminhei com passos largos, evitando o centro do salão, onde alguns tapetes estavam manchados de poeira e rastros escorrendo como veias. No corredor ao fundo, uma porta entreaberta exibia uma luz fraca. Aproximando-me, senti o cheiro de antigo, de mofo misturado a algo mais — cheiro de maquiagem feminina e, por um instante, a memória de um perfume floral me encheu as narinas, tão semelhante ao de Liandra que meu pulso acelerou. Respirei fundo, apertando os ombros contra a tensão. Não havia espaço para saudade, apenas para a missão. Abri a porta. Era uma sala pequena, forrada por estantes que guardavam fitas VHS, DVDs, caixas com legendas manuscritas, datadas. Em cima de uma mesa, um velho videocassete de metal e ao lado um notebook sem marca. Lancei um olhar rápido e percebi o quanto tudo ali fora meticulosamente preparado. Sergei sabia exatamente o que fazer para me torturar psicologicamente: trazer à tona o passado, reapresentar-me cenas que eu jurara enterrar. Liguei o notebook primeiro. A tela se acendeu com o brilho do filme pausado: Liandra, sorrindo, sentada num banco de jardim idílico. Seus cabelos castanhos caíam com leveza sobre os ombros, e o sol iluminava cada curva de seu rosto com uma suavidade traiçoeira. O vídeo havia sido gravado há sete anos, em um raro dia de alegria — antes de tudo se tornar dor. Apertei o play. Liandra se levantou e caminhou em direção à câmera, o vestido esvoaçando como pétalas ao vento. Ela falava algo, o áudio abafado pelos fios do tempo, mas eu entendi o significado: ali estava a mulher que dominara meu coração e, de certa forma, o destruíra. O aperto em meu peito foi violento, e uma parte de mim exultou em nostalgia, enquanto outra gritava para fechar tudo e ir embora. Mas Sergei, em sua crueldade, ainda reservava mais. Arquivos de vídeo seguintes mostraram cenas íntimas — Liandra e eu, abraçados, descobrindo formas de prazer e vulnerabilidade; risadas contidas quando eu a dominava com beijos precisos, e suspiros de rendição quando ela se deixava levar. Cada segundo desses registros sangrava meu orgulho e a máscara de frio impassível que eu cultivara por anos. Alisei a palma da mão na mesa, como se quisesse apagar a dor que queimava meus dedos. Um sussurro metálico soou atrás de mim: o videocassete ligado, fita VHS deslizando pelas roldanas, projetando imagens em um pequeno monitor CRT. Liandra dançava numa iluminada quadra de madeira, balé quase silencioso, e logo o vídeo mudou para uma cena escura, claustrofóbica, com sombras se projetando pelas paredes. Era o subsolo de uma antiga mansão, o mesmo local onde Liandra e eu partilháramos promessas de eternidade — e onde Sergei havia me instruído a traí-la. A barba por fazer na minha mandíbula coçava, e senti no estômago o nó da raiva. Sergei criara aquele labirinto de recordações para testar minha sanidade. Eu não permitiria. Fechei o laptop com um estalo. A fita continuou a girar, mas ignorei. Peguei a chave inglesa que repousava próxima, pronta para trancar de novo a emoção que se formava em mim. Foi então que o silêncio foi rasgado por um ranger suave de sapato no piso de madeira polida. Me virei com a rapidez de um predador. Na soleira da porta surgiu uma figura – alta, magra, vestida com um sobretudo que se confundia com as sombras. A luz da porta parcialmente aberta delineia o perfil de rosto feminino, cabelo castanho curto lembrando o corte juvenil de Liandra. Meu coração pulou uma batida. Pela primeira vez, o terror se misturou à esperança: seria ela, de alguma forma, viva e consciente desse inferno psicológico? A mulher não falou. Andou alguns passos em silêncio, até a figura projetar-se claramente no monitor — o reflexo do vidro do CRT saltou em meus olhos. Olhei o rosto dela, mas era Liandra ou apenas uma sósia que Sergei contratara para me enlouquecer? A incerteza latejava em minhas veias. Dei um passo à frente, mas o coração disparou ao perceber que o casaco se movia de forma estranha, como se algo estivesse preso por dentro. Concluí que Sergei não economizou em artimanhas: trouxera alguém parecido, vestido de maneira a evocar minhas memórias, mas não era ela. A figura ergueu a mão e um envelope caiu sobre a mesa, estalando no carpete. A voz grave da mulher — entorpecida por um disfarce eletrônico — ecoou: — Disse que voltaria, Alessandro. Aqui está a última oferta: encontre-me. Ou verá tudo recomeçar. Um estalo de riso sádico escapou de mim, e ergui o envelope como um troféu. Rasguei-o, encontrando um mapa desenhado à mão, coordenadas que apontavam para uma sequência de endereços: o casarão onde estávamos, uma galeria abandonada, uma igreja em ruínas à beira do rio. Cada local marcado em tinta vermelha pulsava como um convite macabro. — Sergei… — murrei, a boca seca. — Até quando vai brincar comigo? — Escolha um — disse a voz, agora vindo de cima de mim. Olhei para cima e vi, entre as sombras do vitral sujo, a silhueta de uma mulher do outro lado do corredor, exatamente na linha de visão da janela. A pele pálida, os olhos claríssimos, e o corpo vestido num tecido escuro que reluzia com o brilho lunar. Era Liandra? A lua iluminava o molde de seu rosto, e eu reconheci cada linha, cada traço que pensei ter enterrado no passado. Mas quando levantei o olhar para confrontá-la, ela havia desaparecido, como um sopro de vento que se dissipa em névoa. O corredor vazio me encarava, apenas as minhas botas ecoando o silêncio. O monitor continuava rolando a fita antiga, Liandra sorrindo no jardim idílico, convidando-me a reviver tudo. Meu pulso latejava de adrenalina. Sarcasmo e fúria se misturavam: Sergei conseguira me atrair para o ninho dele, desarmado pela nostalgia e pelo medo. Eu precisava reagir. Peguei o mapa e transcrevi cada coordenada mentalmente, sentindo o peso da responsabilidade que carregava por Olivia — ela confiava em mim; meus demônios não poderiam me dominar. Antes de partir, olhei pela janela da sala. A figura pálida reaparece, parada no limite do jardim. Rodopiou lentamente, o sobretudo esvoaçando, e então virou-se de costas, olhando para o casarão, numa pose de desdém. Eu apertei os punhos. Essa era a promessa de Sergei: mantê-la perto, nas sombras, mas fora de alcance. Mantê-la viva apenas para manter o jogo. Desliguei o notebook, arrastei o equipamento para fora do caminho e travei a porta com cuidado, cravando parafusos adicionais na fechadura. O casarão inteiro parecia conspirar para me prender ali. Caminhei em direção ao portão de ferro, mas antes de sair, peguei o casaco e o enrolei em volta dos ombros como uma armadura. Ao alcançar o portão, levei a mão ao bolso e senti o celular vibrar. Era uma mensagem sem remetente, apenas um anexo de áudio. Toquei o play: a voz de Liandra — inconfundível — sussurrou meu nome, arrastada por um tom etéreo: — Alessandro… me encontre. Antes que tudo se perca. Desliguei o áudio, escolhi a rota de fuga mais rápida. O túnel de árvores que levava à rua principal era curto, mas o suficiente para eu colocar distância entre mim e aquele lugar amaldiçoado. A lua, alta no céu, testemunhava minha partida. No volante, o mapa em mãos, repeti as coordenadas em voz baixa, marcando as próximas etapas. Meu coração ainda martelava, mas havia uma clareza renovada: o fantasma de Liandra não controlaria mais meus passos. Eu lutaria. Cada endereço, cada pista, cada vulto no corredor eram munições para destruir Sergei e dar um fim ao pesadelo. E, acima de tudo, proteger Olivia — minha luz viva, minha única promessa de redenção. Enquanto o carro sumia na neblina do asfalto, senti um arrepio. Será que, em algum ponto adiante, Liandra realmente me esperava? Ou era apenas mais uma armadilha de Sergei? O único caminho era seguir em frente. O jogo havia alcançado seu ápice, e eu estava decidido a vencer — não para reviver o passado, mas para construir um futuro onde eu pudesse amar sem correntes, e onde a sombra de Liandra finalmente se dissipasse. Mas a sensação de estar sendo vigiado nunca me deixou. Cada espelho retrovisor refletia não só a estrada, mas também um olhar ancestral me observando, como se Liandra continuasse ao meu lado, exigindo que eu escolhesse: redenção ou obsessão? E eu ainda não sabia a resposta.
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