Estava sofrendo para me adaptar a uma realidade na qual nunca fui preparada para viver. Morando com os meus pais todas as manhãs tomava minhas vitaminas antes de ir ao colégio. Nunca cheguei a perguntar a minha mãe pra que elas serviam especificamente, apenas sabia que serviam para aumentar a imunidade, entre outras coisas. Seis meses sem essas vitaminas foram tempo o suficiente pra que eu começasse a sentir pequenas diferenças na minha aparência, a exemplo dos meus cabelos que estavam sem brilho e da minha pele ressecada.
Poderia ser uma bobagem dar atenção a certos detalhes quando preocupações bem maiores me cercavam, mas a verdade é que eu sempre fui vaidosa e estava sentindo falta não apenas das vitaminas diárias, mas dos cremes e pomadas para os cabelos e até do shampoo e sabonete que costumava usar e agora não estava ao meu alcance comprar. Até a minha situação melhorar esse podia ser um problema simples, mas estava me incomodando muito.
- Seus pelos são mais hidratados e brilhosos que os meus cabelos Chris. Valorize a Yelena ela cuida muito bem de você. Espero que não ameace mordê-la como faz comigo. Seja educado!
Nunca pensei que faria amizade com um Shih-tzu que gostava de me morder.
- Joana prepare o carro para levar a Yelena até a casa dela e depois ao aeroporto.
Pediu a Bianca, que era supervisora dos colaboradores da gravadora.
- Entendi.
- Depois você pode deixar o carro na garagem e encerrar seu expediente. A propósito, você tem compromisso pra mais tarde? Vamos nos reunir em um bar essa noite pra comemorar o aniversário do Mattia. Envio o endereço pra você?
- Hoje não posso, mas fica pra próxima.
Neguei sabendo que o pessoal da gravadora costumava frequentar os melhores e mais caros bares, restaurantes e casas noturnas da cidade.
- Tudo bem. Bom final de semana pra você!
Ela desejou sorrindo.
- Pra você também Bianca!
Olhei para o Chris e voltei a falar com ele quando ficamos sozinhos.
- Confesso que adoraria sair essa noite e poder beijar na boca. Deve ser por isso que a minha pele está seca. Falta de um bom orgasmo.
O cachorrinho me olhou como se entendesse.
- Provavelmente estou sendo punida por ter enganado duas garotas no ano passado.
Comentei envergonhada e ele me olhou estranho.
Preparei o carro e levei a Yelena em casa. Fiquei esperando por quase uma hora até ela sair acompanhada por duas funcionárias domésticas trazendo as malas dela e o Chris junto. Ajudei as moças a colocarem a bagagem no porta malas enquanto a cantora se acomodava no carro segurando o Shih-tzu em uma bolsa.
- Dirija rápido. Estou atrasadíssima!
Ela disse como se eu tivesse o poder de controlar o trânsito e todos os semáforos no caminho.
Conduzi o carro até a entrada do aeroporto e quando estava tirando as bagagens do porta malas levei um susto ao ouvi-la gritar porque o Chris saltou da bolsa e correu entre os carros. Imediatamente larguei o que estava fazendo e corri atrás dele que mesmo pequeno corria bem rápido. Esqueci-me completamente do movimento dos carros e sai levando buzinada até conseguir alcançá-lo e ainda levei uma mordida na mão porque ele estava assustado.
- Meu filho. Sua mãe está aqui meu bebê.
Coloquei o Chris na bolsa dele e entreguei a Yelena que estava desesperada.
- Ele está bem. Foi só um susto.
Falei para tranquilizá-la.
- Joana, você salvou o meu bebê!
- Tudo bem eu consegui agir rápido. Melhor irmos ou vai perder seu voo.
- Eu não entendo o que aconteceu o Chris nunca agiu assim.
- Ele pode ter se assustado com o barulho dos carros. Está tudo bem Yelena. Acalme-se.
Novamente pedi calma e ao entrarmos no aeroporto algumas fãs a cercaram. Ajudei-a até o embarque e depois peguei um kit de primeiro socorro que ficava no carro pra lavar a mordida e colocar um curativo na mão, a minha sorte era que o Chris tinha dentes pequenos.
- Você demorou Joana.
A Lauren observou assim que entrei no apartamento.
- Estava me esperando?
- Sim. Hoje é aniversário do Matteo. Não convidaram você pra comemoração?
- A Bianca me falou, mas eu recusei.
- Você recusou por qual motivo?
Olhei bem para ela e sorri.
- Os lugares que o pessoal da gravadora costuma ir são um pouco fora do meu orçamento.
- Joana precisa sair e se divertir. Estou sofrendo por ver você nesse apartamento todos os dias. Isso adoece. Somos jovens temos que viver a vida, conhecer pessoas, dançar, beijar. Tem muitos lugares na cidade dentro do seu orçamento é só ter disposição pra sair.
- Lauren não é que eu não queira fazer tudo isso que você falou, mas não estou na minha melhor fase. Não sei como explicar, mas me falta motivação. Ainda não consegui me adaptar totalmente a tudo que mudou na minha vida e estou até me detestando um pouco no momento.
Fui completamente sincera com ela.
- É muito triste ouvir isso de você Joana, mas eu entendo o que está sentindo. Tudo que você passou no ano anterior ainda está aí dentro do seu peito e é a origem da sua angústia. Por outro lado você só vai sair dessa se fizer um esforço.
- Esforço é só o que eu tenho feito.
Declarei cansada.
- Surgiu um evento de última hora e a Dominique está fora da cidade. Você pode me ajudar essa noite? Vai receber um extra e ainda sair um pouco desse apartamento.
- Não tem que me pagar. Ajudo você sempre que quiser ou precisar.
Sorri para ela.
- Ainda sim vou pagar você e sei que precisa do dinheiro, então não recuse.
- Certo. Eu vou tomar um banho e trocar de roupa. Não demoro.
Apressei-me para não atrasá-la e logo deixamos o apartamento e seguimos no carro da gravadora até um espaço de eventos na zona sul da cidade, onde ajudei a Lauren a colocar os equipamentos dela em uma cabine de som com vista para o salão de festas.
- Sabe o que vai acontecer aqui?
Perguntei curiosa.
- Uma festa de casamento das grandes. Eu vou colocar o som até a chegada dos noivos. Depois disso tem duas apresentações de músicos naquele palco do canto.
Ela me mostrou a grande estrutura montada em um tipo de mezanino.
- Lauren, está precisando de alguma coisa? Água, whisky, energético?
Ofereceu um rapaz.
-Acompanhe o Natan e traga garrafas de água e refrigerantes.
Atendendo ao pedido dela eu segui o rapaz até a entrada da cozinha e enquanto esperava vi uma moça quase derrubando uma caixa com várias taças.
- Deixe-me ajudar.
Falei me aproximando dela que aceitou ser ajudada.
- Tudo bem pra você pegar mais duas ou três caixas dessa comigo?
- Não tem como negar um pedido a esses olhos azuis.
Declarei sorrindo e deixando a moça sem graça.
Fiquei quieta e ajudei-a com algumas caixas de mais taças que estavam em uma vam.
- Obrigada. Você não faz ideia do quanto me ajudou.
Estranhei o sotaque dela.
- Tudo bem. De qual lugar da Itália você é?
- Ah, eu não sou italiana. Sou brasileira.
Dei risada.
- Eu também sou brasileira.
Falei em português e ela abriu um belíssimo sorriso.
- Antônia! Os molhos são seus.
Alguém chamou a atenção dela que ficou nervosa e se afastou de mim sem dizer nada.
Peguei o balde com água e refrigerantes e levei para a cabine de som.
- Você conhece as pessoas que trabalham nesse Buffet?
Perguntei querendo saber mais sobre a moça dos olhos azuis.
- Só conheço o dono do espaço. O Buffet é contratado pelos noivos e existem vários na cidade. Por que a pergunta? Interessou-se por alguém?
Tentei não rir, mas acabei me entregando.
- Uma pessoa me chamou atenção, mas é bobagem. Esquece.
- Daqui a pouco você pode ir atrás do contato dela. Espera um pouco.
Disse rindo de mim e eu fiquei pensando se devia tentar conseguir o contato da Antônia. De alguma forma estava duvidando da minha capacidade de atrair a atenção das mulheres por me sentir estranha e até um pouco descuidada.
- Você está calada demais. É um péssimo sinal.
Observou a Lauren depois de um tempo.
- Ser calada é o meu normal.
Sorri pra ela.
- Não é não! Está bem longe daqui. Quer dividir comigo seus pensamentos?
Respirei fundo.
- Estou sentindo falta da minha autoestima. Parece que ela me abandonou.
A Lauren riu.
- É sério. Estou retraída de um jeito que não fui por toda minha vida. Detesto isso.
Resmunguei.
- Joana é o que lhe falei mais cedo. Você vai ter que fazer um esforço pra sair desse lugar em que se colocou. Não tem atalho.
- Tudo bem. Atalhos nos deixam m*l acostumados. Posso sair por uns minutos?
- Pode. Só não demore mais que uma hora. É o tempo que os convidados começam a chegar.
Sorri para ela e sai da cabine de som determinada a conseguir falar com a moça de olhos azuis. Fiquei mais de meia hora observando-a trabalhar de longe e quando ela saiu da cozinha e foi até o lado de fora eu a acompanhei e acabei perdendo de vista.
- Está me seguindo?
Ela me assustou.
- Desculpa. Estou. Você estava escondida?
Dei risada.
- Sim. Pra assustar você. Desculpa a bobeira.
Rimos juntas.
- Tudo bem. Acho que assustei você também.
- Um pouco. Notei você me olhando. Normalmente não olham assim pra mim.
- É impossível acreditar nisso porque você é linda!
- Essa roupa cabe duas de mim. E essa touca também cabe uma cabeça muito maior.
- Então com toda certeza você fica ainda mais linda sem essa roupa e touca.
- Quanta malícia.
Ela disse rindo.
- Não pensei em você nua. Só com outra roupa.
Afirmei rindo da nossa conversa e observando o sorriso dela.
- Eu tenho que voltar pra cozinha. Você tem papel?
- Não aqui.
- Onde posso anotar meu número?
Sorri e puxei a manga da camisa.
- Pode anotar no meu braço.
Ela tirou uma caneta do avental e se aproximou de mim para anotar o número.
- Amanhã eu não tenho nada de especial pra fazer. Caso queira ligar.
- Vou ligar. Pode ter certeza.
Olhamos nos olhos uma da outra e ela voltou pra cozinha sorrindo.
Finalmente fiquei animada de verdade e até senti meu coração bater mais forte.
- Conseguiu sua dose de confiança?
A Lauren perguntou quando voltei para perto dela.
- Aqui está.
Falei mostrando o número anotado em meu braço.
- Possivelmente terei um encontro amanhã. Até senti certa empolgação.
Contei a fazendo rir.
- Dá pra ver. Seus olhos até mudaram de cor.
- Vou beber água pra me acalmar. Tinha um tempo que não me sentia assim.
A Lauren ficou rindo de mim a noite toda e ao voltarmos para o apartamento eu tratei de anotar o número da Antônia para ligar no dia seguinte. Por sorte ela não pediu meu número, porque eu ainda não tinha comprado um celular e podia parecer estranho dizer que não tinha um.
Na manhã seguinte acordei cedo e sai para correr e gastar um pouco de energia ao ar livre. Pela primeira vez em meses olhei para o céu e para a cidade com outros olhos, enxergando as cores e o azul do céu com poucas nuvens. No caminho de volta ao apartamento comprei uns pães recheados com queijos e decidi fazer um agrado a Lauren que me pagou por tê-la ajudado na noite anterior quando não era realmente necessário.
- Bom dia Laura! Dormiu bem?
Perguntei ao entrar no apartamento e vê-la jogada no sofá agarrada ao meu travesseiro.
- Não foi uma noite de sono das melhores. Estou pensando em ir visitar meus pais em Salerno.
- Sua mãe vai gostar. Ela mencionou que você não os visita com frequência porque está sempre trabalhando.
- Quase todo final de semana tenho eventos pra ir. Esse está calmo.
- Sendo assim aproveite pra ver sua família. Vou preparar um café pra nós duas. Trouxe uns pães daquela delicatessen que você gosta.
- Verdade? Parece que você adivinhou. Estava justamente pensando em sair pra tomar café.
Comentou sorrindo.
- Estamos ficando íntimas ao ponto de ler a mente uma da outra, será?
Brinquei com ela que deu risada e me respondeu com malícia.
- Só não estamos mais íntimas porque você tem regras sem sentido.
- Isso não é verdade. Eu não tenho regras sem sentido.
- Tem sim. Não f********o com uma amiga é uma regra totalmente sem sentido.
- Para mim faz todo sentido do mundo Laura!
Declarei rindo.
- Ainda vou provar que está errada Jota B.
- Por um tempo gostei desse apelido, mas ele me faz pensar em meu antigo sobrenome.
Falei chamando sua atenção.
- Você pode ser Jota B de Joana Bianchi. O apelido é sexy. Pode lhe deixar mais confiante.
Gostei da ideia de usar o sobrenome da família dela.
- Fico pensando em que momento você vai cansar de dividir tudo comigo. Não basta o apartamento agora quer compartilhar o sobrenome. É isso mesmo?
Brinquei indo para perto dela no sofá e fiquei sem jeito quando ela se levantou e sentou em meu colo vestindo apenas calcinha, camiseta e meias.
- Não me importo de dividir o que tenho com você Joana. É você quem se limita nessa relação e não eu. Importa-se de responder a uma pergunta?
- Claro que não.
Olhei nos olhos dela.
- Quando o café vai ficar pronto?
Questionou brincando.
- Em alguns minutos se você me deixar levantar.
Brinquei com ela que voltou para o lugar onde estava e novamente agarrou meu travesseiro.
Preparei o café e depois servi a Lauren. Ficamos um tempo conversando no sofá e ela me encorajou a ligar para a moça do Buffet.
- Pode ligar do meu celular. Fica à vontade. Eu vou tomar um banho pra sair.
Disse beijando meu rosto e eu agradeci.
Peguei o número da Antônia e quando estava ligando lembrei que não tinha me apresentado.
- Alô.
Ela atendeu rápido.
- Oi. Você não sabe meu nome ainda, mas anotou seu número em meu braço ontem.
- Dei meu número a uma completa desconhecida.
Respondeu rindo.
- Meu nome é Joana. Desculpa não ter pensado em me apresentar.
- Sem problemas Joana.
- Podemos nos conhecer melhor se sairmos para almoçar.
Sugeri bem humorada.
- Onde podemos nos encontrar?
- Não conheço muitos lugares na cidade. Você quer escolher?
- Tenho que ir ao Mercado Pignasecca. Quer me encontrar lá em uma hora?
- Combinado, mas como faço pra encontrar com você?
- Tem uma barraca de legumes e hortaliças na esquina do mercado. Encontro você lá.
- Está bem. Vejo você em breve. Ah... Esse celular que eu liguei não é meu. Então não tenho como avisar que cheguei, mas pode ter certeza que eu vou ao seu encontro.
- Tudo bem. Até breve!
Sorri ao desligar e esperei que a Lauren saísse do banho para ir me aprontar.
- Combinou alguma coisa?
Ela perguntou me olhando e eu sorri.
- Vou encontrar com a moça no Pignasecca.
- Um lugar estranho pra marcar um encontro.
Disse dando risada.
- Estranho por quê?
- É um mercado ao ar livre com cheiro de peixe e outros frutos do mar.
- Vai ver ela tem algum fetiche com comida.
Brinquei e nós duas rimos.
- Divirta-se e se quiser trazer a moça para o apartamento fique à vontade. Só volto de Salerno amanhã após o almoço.
- Você não existe Lauren!
Falei a puxando pela cintura e lhe dando um beijo no rosto.
- Vou me apressar pra não deixar a moça esperando.
Dei um beijo na testa dela e entrei no banheiro.
Ainda que fosse encontrar a Antônia praticamente em uma feira ao ar livre, pensei em ficar minimamente arrumada. Vesti uma camisa branca, calça preta, jaqueta jeans e tênis branco, além do único relógio que trouxe comigo, que era justamente um de marca italiana.
Em frente ao espelho briguei com o meu cabelo que estava crescendo e ficando sem corte. E depois de me estressar um pouco eu achei melhor adotar um estilo mais bagunçado.
Segui de ônibus até o Mercado e ao chegar fiquei esperando cerca de vinte minutos até a Antônia chegar e ao vê-la fiquei um pouco confusa. Isso porque ela estava exatamente como na noite anterior, usando touca e um uniforme branco de cozinha.
- Então esse é o seu estilo?
Brinquei com ela que deu risada.
- Estou aqui a trabalho, mas prometo que será rápido. Tenho que pegar umas caixas e levar até o restaurante onde trabalho. Depois tenho o dia todo livre.
- Tudo bem. Eu não tenho pressa.
- Estava contando com a sua ajuda para carregar algumas caixas, mas não quero que se suje.
- Tem um avental desses sobrando?
Perguntei brincando.
- Eu tenho na Vam. Você se importa em me ajudar?
Não esperava que ela tivesse de fato o avental, mas obviamente não neguei ajuda.
- Eu não me importo.
Tirei a jaqueta jeans e vesti o avental. Segui-la pelo mercado e dei algumas viagens até a Vam carregando caixotes de madeira com frutas, legumes e hortaliças. Depois do trabalho inesperado segui com ela até um restaurante em um bairro de Nápoles que eu não conhecia e até me impressionei por achá-lo parecido com o Recife antigo.
- Você mora por aqui?
Perguntei curiosa.
- O marido da minha tia tem um restaurante nesse bairro e eu basicamente trabalho e moro nele há uns oito meses, mas essa é uma situação temporária. Estou esperando a confirmação da minha vaga em um curso de gastronomia na França.
- E você tem algum parente na França?
Questionei interessada.
- Infelizmente não tenho, mas o marido da minha tia tem amigos que vão me ajudar com um trabalho e eu vou dar um jeito de me desdobrar entre o curso e o serviço pesado de uma cozinha. Nada vem fácil nessa vida.
Ela disse rindo e eu apenas concordei.
Outra vez lhe ajudei a descarregar a Vam e depois fiquei esperando que ela tomasse banho e trocasse de roupa. Então finalmente conheci a Antônia e ela me deixou sem palavras.
- Você é linda!
Elogiei admirada.
Ela tinha um cabelo castanho com umas nuances mais clara e um corte com muita personalidade, curto de um lado e com a ponta cumprida de outro. Fiquei impressionada com o brilho da pele dela, que estava com uma maquiagem simples, porém bem caprichada nos olhos. E ainda que a roupa dela fosse básica, apenas uma camisa cinza, jeans rasgado e tênis, para mim ela estava muito gata, como diria a Alice.
- Admito que o seu interesse em mim usando as roupas do trabalho foi inusitado.
Sorri ainda olhando para ela com admiração.
- O que nós duas vamos fazer agora?
Perguntei olhando nos olhos dela e sorrindo.
- Vamos encontrar um bom restaurante para almoçarmos.
Ela disse pegando dois capacetes.
- Você tem moto?
- Pedi a lambreta da minha tia emprestada. Piloto devagar. Pode ficar despreocupada.
Continuei sorrindo e olhando para ela.
- Coloca sua jaqueta, o capacete e pode abraçar minha cintura se quiser.
- Com certeza abraçar você vai fazer toda diferença.
Declarei rindo e depois de montar na moto e abraçá-la fiquei realmente empolgada.
- Conheço um restaurante do outro lado da cidade. É bom e barato, minha combinação favorita. Você é de qual lugar do Brasil?
Ela perguntou puxando assunto enquanto pilotava.
- Eu sou de Pernambuco. Morava em Recife poucos meses atrás.
- Conheço demais Recife. Eu sou de Maceió, mas tenho família na sua cidade. Encontrei com vários brasileiros desde que cheguei à Itália, mas nenhum da mesma região que eu. O que veio fazer em Nápoles? Você é uma DJ?
- Não, a minha amiga é DJ. Eu trabalho em uma gravadora, mas estou longe de ter qualquer talento musical.
- Tem família na Itália?
- De certa forma eu tenho agora. Essa minha amiga DJ e os pais dela me acolheram desde que eu cheguei à Itália. Estou dando um tempo da minha família de sangue.
Contei sem entrar em detalhes.
- Eu entendo. Escolhi sair de Maceió pra ficar longe dos meus pais e da minha avó. Minha família é complicada, mas que família não é?
Rimos juntas.
- A sua tia que mora aqui é diferente dos seus parentes no Brasil?
Perguntei interessada na história dela.
- Totalmente. A tia Camila é aberta pra vida sabe? Ela e o marido são meus novos pais. Se não fosse por eles minha vida seria caótica. Meus pais queriam que eu ficasse a vida toda trabalhando na feira com eles e pra piorar eles são super preconceituosos, do tipo que condenam até o meu corte de cabelo, então imagine como eles reagiram a uma filha lésbica.
- Seu cabelo é lindo!
Elogiei a fazendo rir.
- Obrigada!
- Ainda bem que você tem o apoio da sua tia e do marido dela. Você vai fazer um curso de culinária? A cozinha é o seu objetivo profissional?
- É sim. Eu adoro cozinhar, trabalhar com comida. Desde cedo trabalhei na feira com meus pais então sou super familiarizada com verduras e legumes. Sempre gostei de inventar pratos e na maioria das vezes eu acertava. Minha cabeça funciona na cozinha sabe?
- Posso imaginar. Na verdade dá pra perceber que você gosta só em lhe ouvir falar.
Continuamos conversando e eu não deixei de notar que ela pilotava muito bem. Assim que chegamos ao restaurante que ela falou descemos da moto e nos sentamos em uma mesa do lado de fora, na calçada mesmo. Logo um rapaz nos atendeu e trouxe o cardápio. Ela sugeriu que provássemos algo novo e eu aceitei a sugestão escolhendo um risoto de arroz n***o com cogumelos, um prato que eu nunca tinha provado.
- Costumava fazer risoto de arroz n***o com manteiga de garrafa e catupiry. Um dia se nos encontrarmos no Recife eu faço pra você.
Ela disse sorrindo.
- Embora voltar ao Recife não esteja em meus planos, se isso acontecer eu vou lhe cobrar.
- Você não tem mais família no Recife?
- Tenho sim, mas estou melhor longe deles.
- Não se preocupe, eu não vou perguntar o que aconteceu. Se quisesse falar teria falado agora, assim como eu fiz lhe contando um pouco da minha história.
- Você trabalha em um restaurante e em um Buffet?
Perguntei mudando de assunto.
- O Buffet é do mesmo restaurante. Praticamente trabalho todos os dias da semana. Estou de folga hoje, mas essa é a primeira no mês. Tenho recusado folga pra poder ganhar um extra antes de me mudar.
- Eu entendo. Estou precisando encontrar uma segunda ocupação. Só o que eu ganho na gravadora não é mais o suficiente e o dinheiro extra que eu tenho está quase acabando.
- Ninguém me disse que a vida seria fácil, mas eu pensei que fosse menos complicada.
- Por sorte tem momentos como esse que são agradáveis.
Sorri olhando nos olhos dela e me sentindo presa a eles.
Almoçamos o risoto e depois pedimos uma Panna Cotta de sobremesa e um cappuccino. Após a refeição ela me convidou para dar um volta de lambreta e nesse passeio eu acabei conhecendo lugares novos da cidade. Pela primeira vez gostei de andar de moto e não deixei de pensar no Alex. Adoraria passear com ele em algum momento no futuro, quando tivesse com a minha vida organizada e ele quisesse me visitar nas férias.
- Você quer ir a algum lugar em especial?
Ela perguntou depois de pararmos para tomar outro café expresso em um boteco estranho no centro histórico da cidade. Estava começando a ver muita similaridade entre alguns lugares de Nápoles e do Recife, principalmente vendo ruas com construções antigas e paredes pichadas.
- Eu não conheço bem a cidade. O meu lugar especial aqui é o apartamento onde moro.
Declarei sorrindo.
- Quer me levar pra conhecer onde você se esconde?
Perguntou sorrindo, sem saber que eu realmente estava me escondendo.
- Você me deixar pilotar?
- Tem habilitação e habilidade pra isso?
- Habilitação sim, habilidade não. Mas é simples não é?
- É sim. Toma. Pode pilotar. Se ficar insegura é só encostar.
Peguei a chave e ao ligar a lambreta senti que ela era valente e tinha força. Pilotei com cuidado pelas estreitas ruas de Nápoles e tentei não me distrair sentindo os braços da Antônia ao redor da minha cintura. Depois de pegar o jeito ousei acelerar um pouco mais e gostei da sensação de liberdade e de estar no controle, bem diferente da aflição que me dava às aulas de pilotagem na autoescola.
- Você trabalha em uma gravadora e mora no trabalho assim como eu.
Ela observou assim que abri o portão de entrada do prédio.
- O apartamento da minha amiga fica dois andares acima da gravadora onde trabalhamos.
- Não tem que se preocupar em pegar nenhum transporte para trabalhar. Isso é ótimo.
- É sim, sem dúvida.
- E a sua amiga está em casa?
- Não ela foi visitar a família e só volta amanhã. O apartamento é nosso por hoje.
Sorri olhando pra ela com malícia.
Ao entrarmos no apartamento eu mostrei o espaço pra ela.
- Esse quarto aqui será o meu. Só estou esperando a cama ficar pronta pra comprar um colchão. Por enquanto estou dormindo no sofá, que por sinal é muito confortável. E no mezanino fica o quarto da Lauren. O apartamento é pequeno, mas bem legal não acha?
- É legal sim. Quero saber uma coisa.
Ela chegou perto de mim.
- Saber o quê?
- Posso beijar você?
Sorri.
- Vem cá que eu respondo.
Peguei na mão dela e a trouxe pra mais perto. Olhei fixamente nos olhos dela e acaricie seus cabelos antes de tomar seus lábios com os meus. Beijei-a sem pressa. Estava há tanto tempo sem beijar que prolonguei o momento ao máximo e fiz isso segurando a cintura e a nuca dela. Deleitei-me brincando com a sua língua roçando a minha de leve e sorri ao me afastar do beijo.
Por um instante senti que a boca dela era a primeira que eu beijava na vida.
- Nossa.
Ela disse me fitando.
- O quê?
- Você beija muito bem.
Fiquei empolgada com o elogio.
- Obrigada. Podemos continuar beijando então?
Propus a abraçando-a pela cintura e ela passou os braços por cima dos meus ombros.
- Só beijando?
O questionamento me fez sorrir.