Novamente fiquei sozinha e aproveitei para entrar em contato com outra pessoa que ainda não fazia ideia do que estava acontecendo na minha vida. Troquei mensagens com a Marcela pelo skype e como ela não podia conversar muito apenas fiz um resumo de tudo que tinha me acontecido em quase dois meses e a deixei em choque.
- Joana, depois eu vou querer saber os detalhes dessa sua fuga. Fiquei preocupada com você.
Ela declarou e eu sorri.
- Estou bem Marcela, não se preocupe. Só estou com saudade de você.
- Ficamos alguns dias sem falar e tudo muda. Eu pensei que estava com a Fernanda em Lisboa e você está na Itália fugindo da sua família. Que loucura Joana!
- Foi necessário mudar. Vai entender quando falarmos com mais tempo. E se não entender também não tem problema, o que eu faço algumas vezes não tem sentido nem para mim.
Dei risada sozinha.
- Estou de saída agora, mas quando eu voltar conversarmos. Quero saber tudo que aconteceu e como você está se sentindo de verdade.
Concordei em conversarmos. Sem dúvida a Marcela era uma amizade que eu queria preservar, assim como a Lauren, que estava se tornando uma pessoa muito especial pra mim.
A oportunidade que recebi da Kiara foi tão repentina que eu ainda não tinha organizado meus documentos para trabalhar, então precisei correr atrás para que ela preparasse o meu contrato temporário e aproveitei o momento para abrir uma conta que a Alice pudesse enviar o dinheiro que eu havia deixado com ela.
Em três semanas na Itália minha vida começou a se organizar. Consegui um trabalho. A Lauren estava organizando o escritório que ela não usava pra ser o meu quarto, então eu tinha um lugar para morar perto do meu serviço. Estava tudo andando rápido e eu comecei a acreditar que estava saindo da lama de fracassos que havia me colocado.
Na gravadora, desde o momento em que eu chegava até o que saía tinha mil coisas para fazer. Acabei descobrindo que quando você é contratado para fazer uma função acaba fazendo muitas outras. Portanto organizar a agenda e fazer a limpeza do estúdio entre uma gravação e outra era só o começo do meu trabalho, isso porque durante a gravação os técnicos e artistas me pediam mil coisas, desde café, cigarro e comida, até a levar um cachorrinho para fazer suas necessidades fora do prédio.
- Preciso que você colabore e termine logo.
Falei com o Shih-tzu que pertencia a uma das artistas mais importantes da gravadora.
- O que está fazendo aqui fora?
A Lauren me abordou de surpresa.
- Esperando o Chris fazer... Você sabe.
Dei risada.
- A Yelena está abusando da sua boa vontade.
- A Kiara me pediu para ajudar em tudo que ela precisar, isso inclui o Chris.
- O trabalho não é nada do que você esperava não é verdade?
Perguntou rindo.
- A experiência de trabalho que tive no ano passado foi bem diferente. Agora vejo que recebi mais privilégios do que eu tinha a capacidade de perceber.
- Você trabalhava na empresa da sua família?
- Por um tempo, mas eu fui demitida.
- O que você fez de errado pra ser demitida?
- Não fiz nada errado no trabalho. Mas fui punida por ter aprontado fora dele.
- Entendi.
- Até que enfim Chris.
Comemorei que o cachorro terminou o que tinha pra fazer e recolhi a obra de arte.
- Vou voltar para o estúdio.
- Joana você quer ir a uma festa comigo essa noite?
Ela convidou quando estávamos nos despedindo.
- Pode ser. Eu preciso me distrair um pouco, mas não posso ficar até tarde.
- À hora de ir embora é você quem determina.
- Tudo bem. Até mais tarde!
Voltei ao estúdio e continuei meu trabalho até o fim do expediente. Quando estava assinando o ponto para ir embora a Kiara pediu que eu fosse até a sala dela. Imediatamente pensei que tinha feito alguma coisa errada e comecei a sentir meu estômago doer.
- Joana. Não vou tomar seu tempo. Vejo que está de saída.
- Cometi algum erro?
Perguntei nervosa e ela sorriu.
- Você está indo bem até o momento. Sabe dirigir?
- Sei sim.
- Excelente. Amanhã você pode tirar o dia para regularizar sua habilitação.
- Farei isso.
- Pode ir agora. Boa noite!
- Boa noite Kiara!
Respirei aliviada ao sair da sala e senti como se o sangue tivesse voltando para o corpo.
Subi pelas escadas até o apartamento da Lauren e quando cheguei a encontrei terminando de se arrumar. Usando um short curto, meia calça arrastão, bota cano curto, camiseta estampada e uma jaqueta de couro com tachas e correntes, ela estava linda e sexy.
- Você se arruma rápido?
Ela perguntou chamando minha atenção e eu continuei a analisando.
- Você combina com esse estilo. Fica sexy e perigosa.
Elogiei.
- Entendi. É por perigo que você se atrai Joana?
Dei risada. Até pouco tempo diria que sim.
- Não sou mais essa pessoa, mas o elogio é sincero.
- Obrigada! Você vai demorar a se trocar?
- Estou na dúvida se devo sair. A Kiara me pediu pra ir regularizar minha habilitação amanhã e eu não sei como as coisas funcionam por aqui.
- Você vai receber uma apostila e estudá-la. Depois fazer uma entrevista e uma prova. E no fim recebe sua autorização para dirigir no país. É simples.
- Tudo isso em um dia?
- Sim. É rápido e fácil pra quem tem habilitação. Tem mais alguma dúvida?
- Continuo na dúvida em relação a sair essa noite e fazer uma prova amanhã.
- Você pode ir comigo e não beber nada alcoólico, mas só se realmente quiser sair.
- Vou deixar pra outro dia. É melhor.
- Garota responsável.
Ela disse segurando meu queixo e chegando bem perto do meu rosto como se fosse me beijar.
- Eu não tenho hora pra voltar.
- Certo. Divirta-se!
Desejei sorrindo e me despedi dela antes de ir tomar um banho. Depois de limpa preparei um sanduíche simples pra comer e fiquei lendo o único livro que trouxe comigo do Brasil, um que a Marcela havia me dado de presente e que contava a aventura de um mochileiro que conheceu diversos países praticamente sem dinheiro no bolso. Agora me identificava especialmente com a parte de não ter dinheiro.
Dormi algumas horas e acordei cedo para pegar uma senha de atendimento e resolver a situação da minha habilitação. Depois de preencher uma ficha com os meus dados recebi uma apostila e me sentei em um canto para estudar enquanto não era chamada para a entrevista. Duas horas depois entrei na sala com várias mesas de atendimento e respondi algumas perguntas. Entre elas uma fez meu sangue gelar de nervosismo.
- Você se envolveu em algum acidente enquanto conduzia um veículo?
Levei alguns segundos e pela primeira vez fiquei desconfortável ao mentir.
- Não.
Respondi sentindo-me a pior das pessoas.
- Você consome bebida alcoólica?
- Sim.
- Com que frequência?
- Socialmente.
- Está ciente das penalidades caso dirija alcoolizada?
As perguntas dela estavam me causando uma dor sem explicação.
- Sim, estou ciente.
Respondi sentindo vontade de chorar e desejando ir embora o mais rápido possível.
- Pode seguir até a sala ao lado e esperar ser chamada para fazer a prova. Boa Sorte!
Forcei um sorriso ao agradecer.
- Onde fica o banheiro?
Perguntei antes de seguir para a próxima sala.
- À esquerda.
Andei até o banheiro sentindo meu coração acelerado e assim que fiquei sozinha não consegui me conter e comecei a chorar. Chorei por quase dez minutos e por um momento pensei em ir embora sem fazer a prova. Considerei que seria justo que eu não dirigisse depois do acidente que me envolvi no dia de natal. Mas depois de chorar eu pensei melhor e decidi seguir em frente como se nada tivesse acontecido, mesmo que a culpa fosse me consumir por um tempo.
- Joana Blanc.
Ouvi o meu nome e respirei fundo antes de me sentar para fazer a prova. Respondi tudo em alguns minutos e o resultado saiu assim que eu terminei.
- Vai receber sua autorização na saída.
Informou um dos funcionários.
Depois de receber o papel com a minha autorização para dirigir segui até a gravadora e fiz questão de entregar o documento à responsável pelos colaboradores.
- A Kiara me pediu para fazer um novo crachá pra você. A partir de hoje você pode dirigir a serviço da gravadora. Leia e assine.
Ela me entregou um papel que falava a respeito das notas de abastecimento do veículo e que tinha um aviso de que o veículo era rastreado, além de um termo de responsabilidade. Depois de ler assinei e devolvi o papel. Então ela me entregou um crachá com meu nome e quando eu vi o Blanc fiquei incomodada.
- Bianca você tem como tirar o Blanc e deixar Joana B.?
Pedi sorrindo para ela.
- Vou fazer isso por você. Entrego o crachá no final do dia.
- Obrigada, de verdade. Você é um máximo!
Agradeci de coração e ela ficou sem graça.
Ocupei meu posto de trabalho e pra não ter desconto no meu pagamento resolvi fazer hora extra. No fim do dia ao voltar para o apartamento deparei-me com a Lauren e a Cecília Marinho seminuas no sofá. Fiquei até sem graça por flagrá-las em um momento íntimo.
- Eu vou só pegar um casaco e sair.
Falei sem jeito e a Lauren riu de mim.
- Não precisar sair Joana.
Ela disse após se cobrir e cobrir a Cecília com uma manta.
- Vou deixar vocês à vontade.
Insisti sem graça e ela se levantou vindo na minha direção só de calcinha.
- Vamos assistir a um filme. Vem!
- É s*******m.
Falei em português.
- Falei que conheço essa palavra. Você precisa relaxar Joana. Vem!
Ela me puxou pela mão até o sofá.
- Gosta de suspense? Alugamos um muito bom.
- Eu vou fazer uma pipoca e um café.
A Cecília se levantou e foi até a cozinha usando apenas uma calcinha rendada e um casaco de lã que eu achei parecido com o meu.
- Está nervosa Joana. Parece que você nunca ficou na presença de mulheres seminuas.
A Lauren brincou comigo.
- Essa sua amiga é mais que uma mulher é uma semideusa.
Declarei tentando não olhar para ela e falhando ridiculamente.
- Ela é realmente uma semideusa, além de belíssima tem um coração incrível.
- Eu não me importo de sair pra deixar vocês duas à vontade.
- Queremos a sua companhia. Fica tranquila.
Sorrindo a Cecília voltou para o sofá trazendo café e pipoca. Ela sentou do meu lado e eu fiquei entre ela e a Lauren. Situação que me deixou nervosa. A Lauren parecia estar gostando dela e só isso era o bastante pra que eu não conseguisse ficar confortável ao lado da loira.
Assistimos ao filme e na maior parte do tempo as duas ficaram de mãos dadas, com o detalhe de que fizeram isso pousando a mão em meu colo.
- Espero que não se importe. Peguei seu casaco emprestado.
Disse a loira me fitando e sorrindo.
- Seus olhos são lindos!
Elogiei.
- Os seus também são!
- Obrigada.
Sorri desconfiada e olhei pra Lauren que riu de mim.
- Eu vou me preparar para dormir.
Falei levantando rápido.
- Vamos desocupar o sofá pra você, mas se quiser pode dormir na cama com nós duas.
O convite da Lauren me surpreendeu. Tanto que eu não respondi.
- Boa noite pra vocês!
Despedi-me antes de ir para o banheiro e ouvi as duas rindo.
No banho lembrei-me que a Lauren disse que gostava de se relacionar com as pessoas de um jeito diferente e da história da família dela com o poliamor. Então fiquei pensando se ela e Cecília compartilhavam o mesmo estilo de vida. Só de imaginar a possibilidade de dormir com as duas eu precisei me tocar para aliviar a tensão.
Deitei para dormir e fiquei inquieta ouvindo a empolgação das duas. Estava começando a sentir saudade de sexo e dormir ao som de gemidos me fez ter um sonho erótico estranho, que começou com a Lauren e terminou com a Fernanda.
- p***a!
Acordei suada e sentindo uma energia anormal dentro de mim.
Vesti um conjunto de moletom preto, calcei um tênis e resolvi correr.
Corri por quase meia hora enfrentado o frio do inverno e voltei para o apartamento caminhando. Só fiz uma pausa para comprar um café. Depois de correr percebi que precisava me exercitar diariamente, principalmente porque estava acumulando uma energia há meses. Pelo jeito sexo também era um privilégio que eu usufruía na minha antiga vida e como agora a minha realidade era outra eu pensei que devia utilizar essa energia para trabalhar e quem sabe correr todas as manhãs, assim eu não corria o risco de me envolver em um novo problema.
Na correria do trabalho e de outras obrigações do dia a dia as semanas foram passando apressadas. Depois de um mês o serviço na gravadora começou a me deixar mais entediada do quê cansada. E para piorar meu tédio na maioria das noites eu ficava sozinha no apartamento, porque a rotina da Lauren era completamente diferente da minha. Além da gravadora ela trabalhava em algumas festas e eventos. E quando não estava trabalhando a DJ tinha sempre um convite para sair.
Em dois meses na Itália eu trabalhei muito e saí apenas em três noites. A primeira ainda em Salerno; a segunda quando recebi meu primeiro salário; e a terceira para comemorar meu aniversário de dezenove anos. Mas infelizmente ao sair para comemorar percebi que se gastasse meu dinheiro como estava acostumada a fazer quando usava o cartão da minha mãe eu acabaria me prejudicando muito. Além de algumas despesas do apartamento eu tinha minhas necessidades básicas para suprir e mesmo ainda tendo uma parte do dinheiro da venda do meu carro eu me dei conta de que não conseguiria viver só com um emprego e comecei a cogitar ir atrás de uma segunda ocupação.
Sobreviver sem os privilégios do qual usufrui por anos da minha vida começou a parecer cada vez mais difícil. E a sensação de que eu estava prestes a fracassar outra vez mexeu tanto comigo que eu decidi escrever outra carta para não enviar. Desta vez para a minha mãe.
Itália, 10 de abril.
Oi mãe, espero que os dias que passaram tenham lhe ajudado a entender minha decisão. Adoraria saber que a senhora compreende que eu preciso de espaço. Infelizmente eu não conseguia mais respirar direito e muito menos conseguia ser feliz estando aí com vocês.
Nesses dois meses que estou na Itália fiz coisas que a senhora certamente nunca imaginou que eu fosse fazer, simplesmente porque nasci com muitos privilégios. Agora eu trabalho todos os dias em uma gravadora e recebo por hora trabalhada. Faço vários serviços diferentes. Cuido de dois estúdios, agendo os horários em que os contratados vão usá-lo e faço a organização do local sempre que ele é utilizado. Fico à disposição dos técnicos e artistas e eles pedem muitas coisas. “Café Joana! Cigarro Joana! Compre uma pizza! Leve o Chris para se aliviar!” Nunca pensei que fosse recolher a “obra de arte” de um cachorrinho que já me mordeu duas vezes.
A vida na Itália está me surpreendendo. E o mais interessante é que as minhas horas de trabalho não são suficientes e o dinheiro que eu trouxe está acabando, então provavelmente vou precisar de outro trabalho. A vida sem os benefícios que eu tinha antes não é nada fácil!
Por outro lado, finalmente estou no controle da minha vida e posso dormir tranquila sabendo que caso venha a cometer algum erro, minha falha não vai respingar na imagem perfeita da família Blanc. E é por esse motivo que eu vou continuar aqui, mesmo sem privilégios.
Atenciosamente: Joana B.