Capítulo 5

1377 Words
Elas sentaram uma ao lado da outra. A Kim falou exultante: — Eu não sei se precisa, eu tô bem. Pra onde você vai? A Rebeca só olhou, deu uma encarada e a pegou pela mão. A Kim segurou firme, ficou olhando para a Rebeca, que permaneceu com o olhar apático, parecendo distante. Ela estava pensando que com certeza seria um erro insistir naquilo e continuar lá, mas se perguntou pra onde iria e o que faria da vida, estava sentindo um vazio muito grande, medo de ir embora e a Kim perder o bebê. Novamente se sentiu perdida, acuada, com medo e muita raiva. Começou a relembrar tudo o que aconteceu desde o começo, quando foi pra lá, se lembrou do Antônio falando sobre dinheiro, dizendo que não tinha dinheiro no mundo que comprasse caráter, dignidade. A Kim já não estava bem emocionalmente há semanas, estando tão próxima da Rebeca, isso só foi piorando. Toda vez que elas se tocavam por um tempo, os últimos sentimentos mútuos eram "compartilhados" no inconsciente, e tudo o que estavam sentindo desde que brigaram eram coisas ruins, negativas, como, por exemplo: dó, desprezo, decepção, culpa, vergonha, arrependimento, rancor, ressentimento, rejeição, irritação, remorso. A Kim foi ficando impaciente, se sentindo m*l, se soltou e começou a chorar muito, nervosa. A Rebeca ficou quieta, cabisbaixa, logo falou levantando: — Eu vou ficar com o Tato uns dias e sair, viajar, se acontecer alguma coisa grave, você me liga. A Kim se levantou e a segurou pelo braço, falou ainda chorando: — Não vai, por favor. Fica! Ela só balançou a cabeça que não e foi indo em direção à porta. A Kim segurou ela novamente e continuou falando: — Eu não vou te deixar ir embora, sinto muito por ter errado tanto com você e eu quero que saiba que eu te amo, como você é, tá bom? — Eu fico pegando no seu pé e querendo te mostrar o meu mundo e te dar todas as oportunidades que a vida te roubou, mas é porque eu gosto de você. E me dói ver que você me despreza, zomba de mim, do meu jeito, porque temos realidades diferentes, eu acho que você nem gosta de mim. — Você não sabe o quanto eu cresci sendo cobrada por ter nascido rica, bonita, eu nunca pude escolher nada, onde morar, estudar, com quem ter amizade, o que comer ou vestir, não era opcional. — Um batom errado que eu passasse era motivo pra ser repreendida, quantas e quantas vezes fui obrigada a tirar o tênis pra colocar salto alto, hoje é tendência, combina com tudo, mas antes não, e minha mãe não me dava trégua. — Pra ter atenção, migalhas de carinho do meu pai, eu me esforçava estudando, trabalhando com ele e sendo o filho que ele sempre quis ter, eu precisava ser um exemplo pra minha irmã e ver ela tendo toda a liberdade que eu nunca tive não era fácil, eu mesma a mimava e cuidava dela, com medo dela ser traumatizada como eu, ferrada pelos nossos pais. — O meu primeiro bebê não perdi por acaso, Rebeca, estávamos bem, me fizeram abortar, meus pais. A única coisa que eu queria e consegui ter foi o Noah, e por várias vezes tudo pareceu uma grande mentira, não foi fácil chegar até aqui e eu vou seguir em frente, e esse bebê vai me ajudar. — Me perdoa por ter feito aquilo, eu ouvi você falando aquelas coisas com o Noah e eu perdi a cabeça, porque eu sou louca por ele desde sempre e eu nunca esperaria nada assim de você, me dói admitir que ele pode gostar mais de você do que de mim, e me deixar grávida por isso. — Do filho que a gente tanto planejou e sonhou ter! Todo mundo comete erros e eu tive os meus. As duas estavam chorando. Sem falar nada, a Rebeca foi saindo, desceu as escadas e se sentou, começou a passar m*l, tendo uma crise de pânico. O Tato desceu atrás, se aproximou falando com ela, pediu pra ela respirar e se acalmar. Ela foi amparada por ele ao banheiro, começou a vomitar, quase desmaiou. A Kim ouviu e desceu, foi tentar ajudar. A Rebeca ficou quieta, chorando, foi se acalmando, voltou para o quarto e foi deitar. O Tato não ouviu a conversa delas, mas sabia que estavam se estranhando. Ele ficou com a Rebeca no quarto, assistindo. Ele desceu para almoçar e ela não quis. A Kim saiu depois do almoço, foi ficar com o Toni e a Kiara. O Pablo já tinha ligado mais de cinco vezes e mandado várias mensagens, eles tinham combinado de sair. Ela só respondeu quando estava anoitecendo, disse que não estava se sentindo bem, que ficou de cama o dia todo. Ele perguntou se ela não queria sair pra jantar fora, conversar um pouco. Ela aceitou, disse que ia se arrumar e que avisava quando estivesse pronta. O Tato falou que não queria ir junto, disse que estava preocupado com ela. Enquanto ela se arrumava, ele ficou deitado olhando, perguntou pra onde iriam, decidiu ir junto. Ela colocou um vestido curto preto e salto alto, passou maquiagem como de costume. Quando o Pablo chegou, os dois estavam na calçada esperando. Ele desceu do carro, se aproximou dela e deu um abraço, beijou o canto da boca, abriu a porta do carro pra ela. Conversaram um pouco, ele perguntou se ela estava melhor e pronta pra curtir a noite. Ela disse irônica: — Opaaaaa, como se não houvesse amanhã. O Tato falou desanimado: — Talvez não tenha mesmo, nunca se sabe. O Pablo estava animado, disse que iriam a uma festa muito boa. Chegando lá, pegou a Rebeca pela mão, ficou bem próximo, apresentou alguns amigos para o Tato. Todos estavam bebendo, menos ela. O Pablo perguntou se ela queria um doce, água, qualquer coisa. Ela disse que não e que devia ter ficado em casa, porque o som, as luzes, estavam a deixando zonza, enjoada. Ele respondeu próximo, carinhoso: — O doce não é doce, é uma coisa que vai te ajudar a se sentir melhor. Ela estava distante, ainda que próxima, disse que não queria usar nada. Ele falou frustrado, sério, se afastando: — Acho que você realmente não está muito a fim, só que de mim. Ela ficou quieta olhando, já se irritou. Ele foi ficar longe dela. O Tato começou a ficar com uma menina, dançando, beijando. O Pablo estava encarando a Rebeca de não muito longe e ela fazendo o mesmo séria. Ela foi até o Tato, disse que queria ir embora, mas que ele podia ficar. Ele falou: — Mas você vai embora com ele ou sozinha? Ela disse que ia ver, insistiu pra ele ficar e aproveitar. A menina mesma disse que só ia devolver ele no outro dia e bem tarde. Eles se despediram. A Rebeca foi caminhando, só deu uma olhada para o Pablo e ele foi atrás como um cachorrinho. Logo a segurou pela mão e foram saindo juntos da balada. Ao chegar no carro, ele abriu a porta pra ela, falou sério: — Não vai entrar? Ela se aproximou devagar, acariciando seu rosto, falou chateada: — Não fica bravo comigo, eu só tô tendo um dia r**m. Pablo? Ele continuou sério, falou com indiferença que ia levá-la pra casa. Ela respondeu cética: — Não faz isso, não me trata assim. Ele falou hostil, se afastando: — E como devo agir com você então? Porque eu tô sempre tentando ser legal e eu nem consigo ficar com você. Não estou tendo um bom dia também, achei que seria legal te ver e claramente foi um erro insistir, como sempre. — Eu preciso parar de correr atrás, você nem me responde, nunca me procura, não agradeceu o buquê, a cesta. Nada! Eles entraram no carro. Ela disse que gostou e muito. Ele respondeu irônico: — Não pareceu! Eu tô estressado e você não tá bem. Deixa pra lá! Ela ficou quieta um tempo, fez carinho enquanto ele dirigia e perguntou séria: — Quer ficar mais tempo comigo? A gente pode conversar, você me fala por que está estressado e eu tento não te deixar mais.
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