Depois do ocorrido, nenhuma das mulheres falou sobre o assunto e nem dormiram, porém ainda assim esperaram que amanhecesse para seguir viagem, faltavam apenas duas horas para chegarem ao destino. Yasmin tentava dar um espaço para a amada, mas ainda assim sabia que precisavam falar sobre o que devia ser uma visão.
– Como se sente? _ A morena chega perto da outra e abraça seu corpo, repousando as mãos na cintura de Juliette.
– Incapaz, amedrontada, inquieta... Entre outras coisas.
O anjo entendia o porquê daquilo, mas teria que trazer o ser que Juliette foi um dia, a guerreira, forte e resistente mulher.
– Eu sou uma d***a de celeste. Era um cupido, caí, fui amaldiçoada, pessoas morrem por minha causa, agora tem você.
– Eu? _ Yasmin a encara sem entender.
– Você me ama, d***a, você me ama, olha só, eu passei anos me martirizando por essa m***a, agora encontrei alguém especial e não posso tê-la.
– Você me tem, não precisamos f********o para que seja real.
Juliette a encarava, então sorri e se aproxima, beijando seus lábios carinhosamente, depois se afasta e acaricia seu rosto.
– Eu não posso dizer que te amo, mas posso garantir que a minha maior felicidade hoje é saber que sente amor por mim, pode ter certeza, eu te amarei, eu te amo como amiga, te amo como anjo e quero te amar como mulher.
Yasmin sorri e volta a beijar a ruiva, as mãos dela acariciavam a pele branca da outra, o anjo é mais baixo que Juliette, porém o cupido é mais magra, a morena tinha um corpo mais musculoso, porém não tão diferente.
– Temos que conversar sobre a sua visão. _ O cupido suspira e se afasta um pouco, era tudo estanho e confuso, mas ela tinha certeza de que viu Lúcifer saindo da jaula.
– Eu não sei como e nem porque, mas alguma coisa ou alguém me levou até lá. Foi real, ele saiu, estava com a Espada de Miguel, sabemos bem que era a única chave, além das próprias mãos do Pai. Raziel deve ter levado a ele.
– Você sentiu alguma coisa? _ Yasmin continuava com as caricias leves na pele da cintura da ruiva.
– Na verdade não, sei que dormi e para mim era como se fosse um sonho, isso até vocês me acordarem.
– Entendo. _ Yasmin a beija de novo e se afasta. – Vamos deixar Sofia na casa da tia e depois voltar à São Paulo, procuraremos um modo de entrar em contato com Rafael. _ Juliette a encarou, confusa.
– Rafael? Por quê?
– De todos os arcanjos, é o que eu acredito ser mais sensato. Lúcifer é Lúcifer, Miguel nunca desceu à Terra, ele nunca entenderia sentimentos, acha que assim pode tomar as melhores decisões, mas a verdade é que depois que sentimos a primeira vez, nunca mais se é o mesmo, as visões são diferentes. Gabriel já desceu, porém é o mais fraco emocionalmente, já está tão afetado que agirá por impulso, sobra Rafael, eu acredito no poder de discernimento do arcanjo, apesar de que ainda insisto que todos tem algo a esconder, se tudo isso estiver vindo de Miguel, estamos perdidas, pois todo o céu está comprometido. _ O cupido encara a morena e assente, estava de uma maneira que tudo que a outra mulher indicasse, aceitaria.
– Certo, vamos fazer isso.
Yasmin suspira e logo depois se afasta, indo pegar a mochila e depois segurando a mão da ruiva. Deixaria passar esse tempo até estarem de volta à São Paulo, mas depois disso, faria de tudo para ter sua guerreira de volta.
– Você dirige.
Juliette diz e lhe entrega a chave, logo depois senta no banco do passageiro. Yasmin ficou encarando a cena, comprovando que realmente tinha algo muito errado.
– É, vamos lá.
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Lúcifer acertou o maxilar do demônio com força. Ele sorria ao ver o sangue do corpo humano escorrendo, como era outro ser sobrenatural batendo, a dor era sentida como se Asmodeus fosse um humano.
– Não desmaie, ainda vamos brincar bastante.
O arcanjo diz e ergue o corpo, deixa o outro no chão, completamente desfigurado no rosto. O demônio estava desistindo, o seu senhor iria lhe m***r e não seria rápido.
– Sabe, eu te criei em um momento de raiva, eu estava furioso com as decisões do Pai, na verdade, com as consequências das suas decisões. Sempre me perguntei por que Ele é tão complacente, Ele é Deus, mas e daí? Se ser Deus quer dizer apenas tomar uma decisão e deixar que os outros vivam com as consequências, até eu posso fazer isso, ah, vamos lá, eu seria muito mais animado, seria bem mais divertido, não acha? _ Lúcifer estava de costa para o demônio, mas como ele não respondeu nada, se aproximou do seu corpo de novo e segura em sua garganta com força. – Eu te fiz uma pergunta. Responda-me quando eu te fizer uma pergunta.
– Sim, senhor, seria muito melhor.
O senhor do inferno logo solta sua garganta e o deixa cair novamente no chão. Asmodeus estava exausto, já ansiava pela morte.
– Viu, todos sabem disso, eu posso fazer, posso ser o senhor do céu e do inferno, quem sabe de todo o universo. Meu irmão está lá, mas não será por muito tempo, sei que papai está fazendo um teste, Ele gosta desses joguinhos, mas dessa vez vai ser diferente, eu vou saber lidar com tudo, até com “ela”, já que Ele sempre foi esperto, sempre tem um plano B, mas dessa vez eu sei qual é. Não vou me deixar afetar. Também tenho trunfos.
Lúcifer volta a encarar o homem que já sentia a vida saindo do seu corpo. O arcanjo se aproxima de novo e encara seu rosto completamente ensanguentado, se curva e passeia seu dedo pelo líquido vermelho.
– Você daria uma bela peça para a minha coleção. _ Ergue-se novamente e fica de costa, encarando o trono ali presente. – Mas você cometeu o erro de querer ser melhor que eu. _ Lúcifer vira de frente de novo e estala os dedos, nesse momento o demônio some deixando apenas vestígios de cinzas na sua frente. – Um a menos. _ Ele volta e se senta em seu trono, observa todo o ambiente e então fecha os olhos e logo um ser loiro aparece na sua frente. – Olha só você, linda como sempre.
A mulher sorri e se curva, sempre respeitaria a hierarquia, querendo ou não, aquele era um arcanjo, o terceiro no poder, isso por ter traído o Pai, caso contrário seria o segundo.
– O que você quer?
– Quanta insensibilidade. _ O homem se aproxima da mulher.
– O que você quer, Lúcifer? _ O senhor do inferno percebe que com esse anjo não tem meio termo.
– Ouvi falar que você não está satisfeita em como Miguel está lidando com as coisas.
- Isso não me diz respeito, sou uma guerreira, recebo ordens e as cumpro.
– Era exatamente isso que eu queria ouvir. Sou seu superior. _ A mulher cai em uma gargalhada.
– Bela tentativa, mas até os humanos sabem que você perdeu todo o seu direito de poder no céu, não tente seus joguinhos comigo, Lúcifer, diga de uma vez o que você quer.
– Ah, eu gosto de você, gosto muito de você. Então vamos lá, quero um acordo.
– Acordo? Não seja t**o, Lúcifer, eu nunca trairia a hierarquia dos anjos, sabes muito bem disso. Desista, se quer subornar alguém, tente com outro. Comigo não vai dar certo.
– Nem se eu te contar um segredo?
A mulher arqueia as sobrancelhas e logo depois ver a porta se abrindo, por ela passam duas pessoas. Uma era um demônio, ela sabia disso, a outra fez sua respiração falhar, uma mulher morena que ela pensou que nunca mais veria novamente.
– Não é possível! _ O homem sorri da sua reação, então aproxima sua boca do ouvido da loira e sussurra.
– Então, agora podemos conversar corretamente, Isabel?
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Miguel sente a espada aparecer na sua mão, era só se concentrar e onde quer que ela estivesse voltaria para ele, funcionava basicamente como o Martelo de Thor. Seus irmãos se impressionam com a velocidade em que o arcanjo volta a sua forma saudável. Miguel ergue o corpo e logo fica ereto, observa a lâmina em suas mãos, certificando-se de que estava tudo bem, depois a espada some bem à sua frente.
– Pronto, agora ela está em um lugar seguro, subestimei Raziel, ele conseguiu encontrá-la com um feitiço simples.
– Acredito que agora não faz mais tanta diferença, irmão, Lúcifer já está livre, temos que lidar com essa realidade.
Rafael fala e o loiro lhe encara, Miguel tinha que concordar, o fato de o irmão estar livre é um sinal de que a hora do confronto se aproxima, as coisas começavam a se encaixar, demonstrando que ele acertou em deixar as situações ocorrerem naturalmente.
– Você tem que agir em relação a “ela”. _ Gabriel usa seu tom mais brando.
– Eu sei. _ Miguel passa a mão por seu terno branco e respira fundo. – Ela viu a espada, era como se a minha espada chamasse por ela. Nosso Pai conseguiu o que sempre quis, nos colocou em prova, Ele se colocou em prova, o que devemos fazer agora? Chamá-la? Deixá-la? Guiá-la? Eis a questão. Essa é nossa prova, temos que tomar decisões em prol dela. O Pai errou com um filho, Ele se culpa, está tentando não fazer isso de novo. Até poderia ser o certo, mas Ele nos colocou em conflito também, até onde somos culpados pelo erro de Lúcifer? Até onde temos que ser punidos por isso? Nosso Pai sempre tende a deixar terceiros lidar com suas decisões. Ele criou Lúcifer e agora a criou, mais forte e mais confusa. Digam-me, meus irmãos, qual a probabilidade de isso terminar em tragédia? Além de criá-la, Ele a colocou para viver com os humanos, a deixou aprender, sentir e ser levada pelas emoções, se um filho que foi criado no céu, sem contato terrestre, o desafiou daquela maneira, o que ela poderá fazer? _ Os irmãos encaravam Miguel, entendendo completamente o seu medo e contradição. – Agora me digam, devemos intervir como da última vez ou apenas nos sentar e esperar? _ Rafael e Gabriel se encararam, nada era fácil nos planos de Deus.
– Você deve chamá-la. Se nosso Pai nos deixou sem nenhuma opção, vamos criar as nossas, chame-a e vamos guiá-la. _ Rafael diz e Miguel apenas assente ao lhe dar as costas, pensaria na possiblidade.