CHRISTOPHER Uckermann pov's
O meu acordo com Dulce estava indo muito bem. As duas primeiras semanas passaram muito rápido e nós conseguimos nos ver quase todos os dias, exceto quando ela tinha papelada do trabalho para resolver. Nós não conversávamos muito sobre nossas vidas pessoais, mas notei que ela estava animada com alguma coisa. Fiquei tentado a perguntar – apenas por curiosidade, não por real interesse –, mas reforcei a regra número um: nossa única ligação era o sexo.
Apesar de ser bem diferente de mim, Dulce combinava muito comigo ao saber separar sua razão das emoções. Nós vivíamos fazendo piadas um com o outro, nos xingando e ofendendo como se realmente nos odiássemos, ódio esse que nós dois fazíamos questão de reafirmar. O único lugar onde nos tratávamos bem era na cama. Não só na cama, mas também no sofá, na poltrona do escritório dela, na banheira e em casos mais urgentes, no chão.
Diferente da maioria das mulheres com quem estive, Dulce tinha zero interesse sobre a minha vida e respeitou totalmente a regra de não me fazer perguntas e não me analisar. Eu também não fazia perguntas, mas por algum motivo, eu quis saber mais. Eu estava curioso para entender o quanto ela tinha crescido, queria saber o que estava a animando no trabalho e o que a fez escolher a profissão. Eu só... queria saber. Mas essas curiosidades eram momentâneas e eu logo relembrava o quanto era r**m criar vínculos com quem se está apenas transando. Dulce não era minha amiga e eu tampouco estava saindo com ela. Não havia o quê saber.
Aquela semana seria o aniversário do meu pai e já sabendo os gostos requintados do meu velho, eu resolvi dar uma passada na joalheria que Maite gerenciava. Era um dos lugares mais caros para se comprar joias e a qualidade era admirável. A ideia era comprar um relógio, de ouro, de preferência.
E assim que passei pela entrada, eu avistei Dulce sentada ao balcão, usando uma lupa para analisar os detalhes de um colar de brilhantes enquanto Maite explicava algo sobre a peça. Olhei para Dulce desde as pernas até o seu rosto. Ela sempre era muito fina, cheia de classe em qualquer ambiente. O extremo oposto de mim. Ela sim combinava com o ambiente daquela joalheria, já eu, parecia só um motoqueiro perdido em um lugar que nada combinava comigo.
— Christopher! — May me chamou, sorrindo em seguida. — Tudo bem?
Dulce pôs a lupa sobre o balcão e ergueu o olhar para mim. Ela sorriu ao mesmo tempo em que franziu o cenho de maneira confusa.
— Oi, May. — sorri. — Dulce. — acenei positivamente com a cabeça. — O aniversário do meu pai é essa semana e eu quero dar um relógio para ele. O melhor e mais caro. — falei aconchegando-me no banco ao lado de Dulce.
— É pra já! — Maite saiu até outra parte da loja, deixando-me sozinho com sua prima.
— Você trafica drogas, não é? — Dulce perguntou, apoiando seu queixo em sua mão.
— Por que acha isso?
— Você tem um carro vintage, modelo de colecionador. Na época do colégio, você só tinha uma jaqueta de couro e bem pobrinha. Agora você tem várias jaquetas e todas são de marca. Conhece as bebidas caras, os lugares caros e agora está numa joalheria chique tentando comprar um relógio granfino para o seu pai.
— Regra número dois. — disse apenas.
— Nada de ficar te analisando, eu sei. — riu. — É só um palpite.
— Palpite no que quiser, doutora.
— Ok, babaca. — e ao dizer isso, ela tornou a analisar o colar que estava em sua frente. — É só que você sabe da minha profissão, por que eu não posso saber a sua?
— Só sei porque você esbanja um diploma na parede da sua sala. Lembre-se que você não me disse nem o seu nome quando nos conhecemos.
— E isso partiu o seu coração? — debochou rindo.
— Vá se f***r.
— Vem aqui e faz isso por mim. — sorriu de canto, um sorriso bem provocador.
Eu sorri também, secando um pouco o decote que ela usava. E mesmo depois que Maite retornou, nós ainda estávamos nos encarando e só paramos quando May pigarreou desconfortavelmente.
— Esses sãos os melhores e mais caros modelos que temos. — ela colocou três caixas de relógio na minha frente.
— Qual você me indica? — perguntei.
— Esse, claro. — empurrou o do meio na minha direção. — A minha comissão vai ser maior se você comprar esse.
— Sempre convence seus clientes assim? — dei risada.
— Só os que são meus amigos e gostam muito de mim. — insinuou dando de ombros.
— Pode reservar esse colar, May. — Dulce disse. — Acho que esse é perfeito.
— Desde quando usa joias chamativas? Você já é tão branca, vai cegar as pessoas. — falei causando risadas em May.
— Agora é a minha vez de mandar você ir se f***r. — Dulce rebateu, dando uma piscadela em seguida.
— Ótima escolha, Dulce. — Maite disse, pegando a caixa com o colar.
— Eu venho pegar amanhã. — Dulce ficou de pé e ajeitou a bolsa em seu ombro. — Até mais, May. Até mais, babaca. — mandou um beijinho no ar para mim enquanto ia em direção à saída.
Sorri e dei uma boa olhada em sua b***a até que ela sumisse do meu campo de visão. Quando voltei minha atenção para Maite, ela balançava sua cabeça negativamente, como se estivesse me desaprovando.
— O que? — franzi o cenho.
— Arranjem um jeito de disfarçar que querem t*****r um com o outro o tempo todo. Eu estava quase fechando o lugar só pra deixar vocês dois se divertirem em cima desse balcão.
— Olha que isso não é uma má ideia. — batuquei a superfície do balcão com as pontas dos dedos. — A blindagem desse vidro é realmente boa?
— Agora eu estou imaginando isso. — colocou as mãos na cabeça. — Pare de me fazer imaginar isso.
— Você quem começou. — ri.
— Vai levar o relógio ou não? — segurou o objeto bem na frente do meu rosto.
— Você é bem ambiciosa, não? Quanto de comissão vai ganhar com aquele colar da Dulce?
— Muita. E o colar não é da Dulce, ela vai dar de presente.
— Para a mãe dela? — só sendo alguém muito importante para merecer algo tão caro.
— Ah, não. Se fosse a tia Blanca, a Dulce teria que procurar em uns dez lugares diferentes só pra ter certeza de que não existe nada melhor num raio de cinquenta quilômetros.
— Nossa. Tão exigente assim? — arqueei as sobrancelhas.
— Você nem imagina. — riu. — O colar é para a nossa avó. O aniversário dela é semana que vem. Vocês dois vieram no intuito de presentear alguém, que coincidência, não?
— O único dia do ano em que eu entro em uma joalheria de luxo. Pode embrulhar o relógio, eu vou levar. — peguei a minha carteira e entreguei o meu cartão de crédito.
— Cartão black? — falou sugestivamente. — É sério, você trafica drogas?
— Passa esse cartão logo, sua chata. — eu ri. — E ah, só pra saber, eu e Dulce temos um acordo sobre não falarmos da nossa vida particular. Ela vai ficar p**a com você se souber que falou sobre a mamãe e a vovó Saviñon.
— Valeu pelo toque, Uckermann.
Finalizei a compra e antes de ir até a oficina, eu deixei o presente em minha casa. Naquela tarde, eu não trabalhei com os mecânicos e fiquei apenas no escritório ajudando o meu pai com parte da burocracia do lugar. Estávamos tomando algumas decisões sobre a expansão dos negócios e era bom ver o quanto ele estava animado.
— É um novo recorde, garoto. — ele disse olhando seu celular. — Cinco horas inteiras de uma reunião sem pausas. — ergueu a mão para mim e nós nos cumprimentamos com um soquinho. — Agora vamos fechar.
— Vou ficar mais um pouco depois que todos saírem. — avisei. — É estranho não mexer em algum carro tendo ficado aqui o dia inteiro.
— Sabe, terapias são feitas com psicólogos, não com automóveis.
— Na verdade, papai, eu estou vendo uma psiquiatra.
— É sério? — pareceu surpreso.
— Sim. E o calmante que ela me dá é dos melhores. — falei sugestivamente.
— Tá saindo com uma psiquiatra? — agora ele parecia animado.
— A gente não tá saindo, a gente só tá transando.
— E isso não é sair? — franziu o cenho. — Essas relações modernas... — negou com a cabeça. — Ao menos está focado em uma mulher só, não é?
— Não. — fiz careta. — Sim, ela é a melhor, mas isso não é um compromisso. Posso dormir com quem eu quiser.
— Mas está dormindo com outras além dela?
— Bom, eu... Eu dei uns beijos por aí. — dei de ombros.
— Não, não se envergonhe. Isso é bom, muito bom. Parece que a psiquiatra está fazendo você criar juízo, hein? — riu.
— Seus trocadilhos não são bons, pai.
— Quando vai me apresentar ela?
— Eu não vou te apresentar ela, porque ela não é minha namorada e nem vai ser. — bufei. — É só sexo.
— Bom, isso tem que começar de algum lugar. — ficou de pé, pronto para ir embora. — Tranque tudo ao sair.
Depois que todos foram embora, eu vesti o meu macacão, peguei minhas ferramentas e parti para colocar a mão na massa. Deixei tudo fechado para que soubessem que não estávamos abertos e deixei apenas as luzes da oficina principal acesas.
DULCE Saviñon pov's
Mais uma longa noite de trabalho e eu poderia voltar para casa e esticar as minhas pernas cansadas. Mas quando estava no centro, meu carro resolveu morrer. O pior era que estávamos no meio da semana e eu não encontraria nenhuma oficina aberta naquele horário. O meu mecânico mais confiável ficava a quilômetros dali.
Saí do meu carro e olhei pela rua. Havia uma "Victor&Son" bem na esquina. Eu não costumava ter interesse em procurá-los porque certamente eram mais caros do que os outros lugares e por mais que eu tivesse dinheiro, eu não era boba. Agora eles seriam minha última alternativa e eu esperava que ainda estivessem em horário de funcionamento.
Fui até os fundos e pelas frestas das portas de aço, eu vi que as luzes estavam acesas. Eles não estavam abertos, mas havia alguém ali e eu esperava que fosse algum mecânico de bom coração que não se importaria em me ajudar.
— Oiiii?? — gritei, batendo na porta. — Tem alguém aí?? Eu preciso de ajuda! — continuei a bater. — Meu carro quebrou e eu estou muito longe de casa! — fiquei quieta, mas não houve resposta. — Por favor, eu posso pagar até o dobro se me atender agora! — que seria o equivalente ao preço do meu rim.
Finalmente ouvi alguma movimentação lá de dentro. A porta de aço onde eu batia começou a subir até a metade e eu me abaixei para olhar quem estava lá. Qual não foi a minha surpresa quando eu dei de cara com Christopher.
— Babaca? — sorri de canto, aliviada por ver alguém conhecido.
— Oi, doutora. Está perdida? — ele saiu de lá e eu dei uma olhada de cima a baixo em suas roupas.
Não posso negar que os pensamentos mais sujos passaram por minha mente com aquela visão dele vestido em um macacão cinza que estava com os primeiros botões abertos, as mãos sujas de graxa e alguns fios rebeldes dos cabelos insistindo em grudar na testa levemente suada.
— Você é mecânico?
— Acho que sou. — sorriu.
— E quando arranja tempo para vender as suas drogas? — brinquei. — Ser mecânico não deve dar tanto dinheiro assim.
— Essa piada com tráfico já está bem sem graça, doutora. — deu um peteleco em meu nariz. — Cadê o seu carro?
— Está pra lá. — apontei na direção de onde eu havia vindo.
— Sou o único aqui, então você vai ter que me ajudar a empurrar.
— Eu estou usando saltos. — apontei para os meus pés.
— Fica descalço. — fiz uma careta olhando para o asfalto úmido pela breve chuva de mais cedo. — Ou fica descalço, ou fica sem carro.
— Droga. — retirei os meus sapatos. — Vamos logo! — passei por ele e ouvi ele rir vindo atrás de mim.
Ele abriu a porta do motorista e eu abri a porta do carona. Joguei meus sapatos no banco de trás e então nós dois começamos a empurrar o veículo pela rua. Christopher usou o volante para controlar a direção dos pneus e assim que chegamos até a oficina, ele abriu as portas de vez e empurramos o carro para dentro.
— Acho que eu perdi parte da minha dignidade. — falei levantando o meu pé e olhando a sola totalmente preta.
— Que drama. — Christopher revirou os olhos e começou a tirar seus sapatos. — O que acha disso? Agora não está sozinha no time dos pés sujos.
— Quanta empatia. — dei risada.
Christopher foi até o capô do carro e o ergueu, começando a mexer ali. Enquanto isso, eu olhei em volta e reparei nos carros para conserto, todos de ótima qualidade. É, com certeza eles eram caros.
— Vou ter que pagar parte do conserto com sexo. — brinquei.
— Que declínio, doutora. — Christopher riu. — É por conta da casa.
— O seu chefe não vai te dar uma bronca por trabalhar fora do horário e não cobrar por isso?
— Tenho certeza que ele vai entender. — falou despreocupado.
— Espera. Por que ele confiaria tanto em te deixar aqui sozinho? Você... Nossa, eu não costumo ser tão lerda. — ri. — O lugar se chama Victor e filho. Você é o filho.
— Muito me surpreende que sua inteligência tenha agido tão devagar.
— Eu trabalhei muito hoje, ok? — revirei os olhos. — E muito me surpreende que você seja um empresário. Achei que não tivesse ido para a faculdade.
— Eu não fui, mas o meu pai foi. Sou só um aprendiz. — ele chegou mais perto de mim e se esquivou para pegar alguma coisa que estava numa mesa atrás das minhas costas. — E você tem que parar de subestimar a minha inteligência. — sussurrou sobre os meus lábios.
— Não é sobre a sua inteligência. É sobre você não conseguir seguir regras. — sussurrei de volta.
— Nisso você tem razão. — sorriu e encostou seus lábios nos meus, me dando um beijo rápido, mas ainda assim, intenso.
Quando ele se afastou, me deixou com um gostinho de quero mais. Sentei em uma cadeira e fiquei assistindo enquanto ele procurava as ferramentas em sua maleta e mexia nas peças do carro, explicando qual era o problema. Sinceramente, eu não estava prestando atenção na explicação, só estava concentrada no fogo que a cena estava me causando. Um Christopher Uckermann mecânico é quase um pecado.
E foi aí que eu me dei conta de que aquela noite seria mais longa do que eu imaginei.