Robert, Erik e Henrietta andaram até a saída do parque e alguns conhecidos pararam para cumprimenta-lo e é claro, fazer comentário sobre as vestes do visconde e a de Erik.
- Ó, pobrezinho, parece um rato afogado – comentou lady Amélia a sua irmã, senhorita Smith.
- Esse menino tem o rosto muito estranho – Robert pode escutar de lorde Beaumont, quando estava se aproximando dele pelo caminho – Bom dia lorde Klyne. Vejo que tiveram um pequeno acidente – Ele havia parado deliberadamente a frente deles, na trilha, antes de chegar à saída do parque. Robert pensou que teria uma apoplexia se não chegasse logo em casa. Ele detestava chamar a atenção, inclusive do roliço lorde Beaumont. O visconde Beaumont estava acompanhado de uma beldade de cabelos loiros, que vestia um vestido de musselina azul, deixando suas formas volupiosas em destaque. Era a senhorita Anelise White. Seu pai era o visconde de Langford. Ele tinha riqueza e poderia ser equiparada a de Robert, mas o visconde não tinha os mesmos contatos que ele. Ser amigo de Pembroke tinha suas vantagens.
- Bom dia, lorde Beaumont, bom dia senhorita – ele deu um aceno rígido, tentando mostrar que estava com pressa e não tinha tempo para conversas frívolas - Realmente tivemos um pequeno incidente. E por isso mesmo precisamos ir.
Ele não deu tempo para Beaumont responder, apenas continuou andando. Erik e Henrietta o seguiram, apressando o passo. Robert suspirou aliviado quando pode chegar finalmente em sua carruagem, que estava parada do outro lado da rua, com seu lacaio e cocheiro a postos. Ele abriu a porta para que Henrietta e Erik entrassem. Pediu a o cocheiro que os deixasse na residência do seu primo, Henry Collins. Subiu na carruagem em seguida, fechando a porta. Henrietta ficou ao lado de Erik, ajudando o menino a tirar seu casaco e colete. Robert sentou a frente deles e observou a interação entre os dois.
Aquele menino selvagem havia mudado muito durante um ano e já era muito bom com o piano. Talvez, até melhor do que Anne. E às vezes, quando estava nervoso, gaguejava, mas conseguia se expressar melhor. Na verdade, com clareza para uma criança de oito anos. Era o que Henry e Anne pensavam que ele tinha de idade. De fato, ninguém sabia qual era a data de nascimento do menino, pois Jenkins não respondeu àquelas duvidas e a mãe de Erik já estava morta. Jenkins havia causado problemas a Henry no ano anterior, raptando Erik e exigindo dinheiro dele. É claro que Jenkins, como dono de um estabelecimento de jogos em East End sabia das conexões que Henry tinha com Robert e da influencia que ele tinha na alta sociedade.
- Está se sentindo melhor? – Henrietta perguntou, colocando seu xale sobre Erik.
O menino assentiu com a cabeça, abraçando o xale sobre si. Robert fitou a cena e não pode deixar de achar que era uma cena domestica muito comovente. E ao mesmo tempo, demais para a visão. Ele olhou para a janela, para evitar ver aquela dama interagindo com Erik. Algum dia no futuro com certeza ela poderia ser uma boa mãe. Tinha jeito com crianças, algo que Robert não possuía como habilidade e não desejava. E pensar nela naqueles termos o deixava irritado por dentro. Não queria pensar nela em nenhum termo. Na verdade, queria que ela desaparecesse da sua frente. O que ela lhe causou no casamento de Henry e Anne não foi algo que ele desejasse repetir. Ele ficou em um estado atormentado e apaixonado. E ele não queria se envolver com uma dama virgem. Seu envolvimento sempre fora com mulheres experientes e desimpedidas. Algumas casadas, mas Robert era discreto com seus casos. Preferia uma amante fixa que pude sustentar e que não tivesse um marido para tentar mata-lo em um duelo. Apesar do que a sociedade dizia sobre ele, que Robert era um dândi e libertino que deflorava jovens virgens em jardins, tudo não passava de mentiras. Tudo devido à reputação do seu falecido pai. Porque dizem que uma fruta nunca cai longe do pé e ele não seria diferente do próprio pai. E ser acusado de tantas coisas sórdidas o enervava demais. Por isso, era tão arrogante e cínico, para que ninguém se aproximasse dele. Ele já tinha contato com as pessoas certas e que importavam dentro do seu circulo social e não precisava de bajuladores, ou de alguém especulando sobre sua vida, para a deixar estampada em manchetes de jornal.
- Milorde parece estressado – Henrietta quebrou o silêncio dentro da carruagem.
Ele desviou o olhar da janela. Estava absorto e m*l viu a paisagem mudar a sua frente. Ele fitou a jovem a sua frente e pode vê-la sem o xale e o chapéu sobre a cabeça. Ela era uma visão mística a sua frente. Parecia uma fada com seus cabelos flamejantes e o vestido de cor marfim. Com certeza ela seria uma das musas de pintores, ou de poetas. Não havia como negar que Henrietta era uma jovem de beleza exótica. Ele sentiu que seu sangue fervia nas veias apenas de pensar que ele mesmo poderia pinta-la a sua frente, mesmo não sendo um exímio pintor. Apertou o cabo da sua bengala com força, com a mão esquerda, tentando controlar a si mesmo.
- Eu estou bem – ele retrucou de forma ríspida.
Ela o fitou com os olhos magoados. Não era possível que ela tivesse ficado daquela maneira. Ela decidiu odiá-lo, depois que o flagrou no jardim com outra dama, que na verdade, era sua amante. Isso já fazia anos. E desde então, a amizade que tinham havia terminado. Ele decidiu que não iria se importar, afinal, não poderia ser amigo de uma dama. Não seria de bom tom ela estar envolvida com Robert. Todos diriam que ele ou estava a cortejando, ou que havia a desonrado. A primeira opção era terrível para ele e a segunda, era arruinar a reputação dela.
- Entendo – ela disse, parecendo querer preencher o silêncio. Só se podia ouvir o galope dos cavalos do lado de fora e as rodas trepidando no chão.
Ele observou os lábios rubros da jovem a sua frente e seu rosto oval e delicado. Ela estava muito mais bonita do que quando a conheceu há cinco anos. Naquele tempo, ela era uma jovem debutante que se escondia em jardins ou na biblioteca. Não tinha o menor traquejo social, nem ao menos sabia esconder seus próprios pensamentos. Ela não era frívola, nem era fútil e muito menos, não era uma cabeça de vento como as jovens debutantes. E isso fez com que Robert simpatizasse com ela. Contudo, não fora somente sua personalidade. Era sua aparência exótica. Isso realmente tirou seu folego. Ele havia prometido que não iria se envolver com debutantes, mas lá estava ele correndo como um cachorrinho atrás dela. Então, tudo terminou de forma que ela o odiasse. E era melhor que fosse assim, para o bem dos dois. Ele não desejava se casar. A única pessoa que realmente desejou fora Anne. Ele realmente iria desistir da sua solteirice para casar com ela. Contudo, infelizmente, ele já estava ficando muito velho.
Aos trinta seis anos de idade, precisava se casar para ter um herdeiro. Até mesmo pensou que o título poderia morrer com ele, pois aquele fardo era injusto para uma criança que nem nascera. Por que ele deveria colocar um filho no mundo para seguir adiante com aquilo? Ele não gostaria de ser como o pai, frio, distante, sem afeto para oferecer. Ele temia repetir os mesmos erros que os de seu pai. Ele sabia muito bem que não seria um depravado como seu pai fora, mas que infelizmente, ele não sabia expressar seus sentimentos aos outros. Simplesmente tratou Anne de forma rude, sem pensar na dor dela, depois que ela perdeu seu filho. Ele sabia que havia falhado em ter empatia por ela. E temia ser assim com sua própria esposa e filhos. Como ele fora criado em um lar frio, sem amor, talvez, ele fizesse o mesmo com sua família. Apesar de que sua mãe ter tentado lhe oferecer atenção, ela estava muito mais preocupada em reclamar do seu pai e fazer comparações entre eles, pelo aspecto físico e emocional. Robert às vezes era distante demais e cínico, como seu pai foi. E sua mãe fazia as comparações, irritada, muitas vezes, magoando Robert.
- Chegamos – Henrietta disse, tirando Robert dos seus pensamentos.
O lacaio abriu a porta e Henrietta desceu, dando um salto para fora da carruagem, sem esperar pela ajuda dele. Robert controlou a vontade de rir da cena. Ela não era uma dama, realmente. Uma dama iria segurar na mão do lacaio e desceria de forma elegante.
Erik desceu em seguida, segurando o xale sobre si. O menino parecia cômico com aquela peça de roupa de cor salmão, que contrastava com suas vestes em tons cinza e preto. Robert foi o último a descer, pois precisou pegar o colete e o casaco do garoto. Revirou os olhos e se apoiou na bengala.
A casa do seu primo Henry era de tijolos, em tom avermelhado, com um pequeno jardim na frente, rodeada por um portão preto, de altura baixa. Havia outras casas semelhantes naquela rua. Era um bairro de classe média, mas era seguro de se viver. Henry poderia ter uma casa em Mayfair, mas não era algo que ele desejasse. Ele assegurou que estava muito feliz ali com sua esposa.
Robert entrou pelo portão aberto, enquanto viu Anne abraçar Henrietta e olhar para Erik com um sorriso. Ele acreditou que seu coração iria saltar por ver a mulher que amava, mas não sentiu nada, apenas uma amizade. Afinal, ela o escutava falar sobre sua mãe, sempre que ele estava desesperado para retirar a agonia que estava em sua alma. Ele fingia que tudo estava perfeitamente bem, mas sentia em seu intimo que a situação em que sua mãe estava o afetava profundamente. Mas, quase nunca admitia isso.
Anne estava com os cabelos curtos e novamente loiros. Havia desistido de escurecê-los. Ela fizera isso para poder trabalhar como governanta e não chamar a atenção de ninguém. Queria parecer austera e severa, contudo, ela ficou muito bonita com os cabelos castanhos. Realçava seus olhos azuis vibrantes. Pareciam duas safiras. Fora um desses atributos que fez com que Robert a desejasse. Olhar para ela era como ver uma obra de arte.
- Então, me digam como vocês dois se encontraram em Hyde Park e fizeram meu filho ficar ensopado – ela exigiu saber, da porta de entrada, com os braços cruzados. Apesar do seu modo solene, era possível ver que estava escondendo um sorriso.
Estava trajando um vestido de musselina verde, com mangas curtas e o b***o aparecendo. Sua pele clara contrastava com o tecido.
- Eu...- Robert ficou sem palavras, pois sentia-se incompetente por deixar Erik cair no lago Serpentine.
- Erik se distraiu e caiu no lago – Henrietta respondeu por ele, o que o deixou irritado. Não queria ser defendido por ninguém – E eu estava passeando no parque quando avistei lorde Klyne e Erik.
- Ah, acreditei que iriam se tornar amigos – Anne disse, com um olhar sagaz. Nada passava despercebido por ela.
- Somos meros conhecidos – Robert disse, segurando a bengala com força. Não sabia o motivo para estar emocionalmente instável – Bom, eu devo ir, Anne. Peço seu perdão por ter deixado Erik cair no lago. Não era o que eu estava esperando que acontecesse.
- Acidentes acontecem – Anne disse com um sorriso afável – Mas, por que não fica e almoça conosco?
Ele a fitou com um olhar exasperado. Ela apenas sorriu. O que ela estava armando para ele?
- Henrietta vai ficar, não vai? – Anne perguntou.
- Eu...er...- ela balbuciou.
Por Henrietta estar de costas para ele, ele não conseguia ver suas expressões. Mas, o sorriso maldito de Anne explicava tudo. Ela estava armando para ele e Henrietta.
- Bom, se você insiste – Robert disse, sem acreditar que estava aceitando o convite. De fato, talvez, irritar Henrietta seria o ponto.
- Bom, eu devo ir – Henrietta disse.
Anne fez um beiço, demonstrando sua tristeza. Robert segurou-se para não rir disso. Ela era muito esperta.
- Por favor, fique – ela pediu – Henry vai voltar tarde e detesto almoçar sozinha.
Ela não estava sozinha, de fato. A senhorita Stone, a senhorita Fay, a Sra. Hackney e a Sra. Campbell estariam ali para ela. Mas, ele não iria contradizê-la. Estava gostando de como as coisas estavam acontecendo. Como sempre, ele não era de criar situações, mas de aproveita-las. E ele iria aproveitar para ver mais de perto Henrietta. É claro, jamais iria desmoraliza-la. Apenas, irrita-la. Não havia muito que fazer naquela tarde, tão pouco. Ele já havia ido a uma reunião no parlamento e mais tarde, iria ao White’s. Iria se reunir com Pembroke, para praticar esgrima.
- Eu não acho que deva – Henrietta disse, parecendo desconfortável.
Erik, que ainda estava ali, parecendo alheio a tudo, teve algo a dizer.
- Ela não gosto do tio Robert.
Robert se controlou para não rir. Sua expressão era solene e Anne fitou ele com os olhos arregalados.
- Ora, mas que ideia, Erik. Não diga essas coisas – Henrietta disse, tentando manter a calma – Eu respeito muito lorde Klyne.
- Respeitar não é o mesmo que gostar – ele disse, dando um passo mais a frente, para ficar mais perto dela.
As costas da jovem enrijeceram.
- Lorde Klyne – ela disse entredentes.
- Sim, senhorita?
- Se afaste – ela ordenou, dando um passo a frente, para ficar longe dele.
Anne o fitou em advertência. Robert deu de ombros.
- Acredito que a senhorita esta sendo covarde. Deveria me enfrentar – Robert disse, apenas para provoca-la.
- Robert! – Anne protestou.
Dessa vez, Henrietta se virou para ele e o encarou com raiva.
- Muito bem, eu vou ficar para almoçar – ela disse.
- Excelente – Robert disse, com um sorrisinho prepotente – Assim, poderemos ver o quanto a senhorita me respeita e estima.
- Você...- ela parecia engasgada de raiva.
- Robert, chega de veneno – Anne disse – Agora, vamos entrar. Se não se comportar, vou toca-lo para fora.
- Mas, que ultraje! – ele disse, com bom humor.
Henrietta o encarou com os olhos dardejantes, mais uma vez e deu as costas para ele. Aquele almoço seria interessante, de fato. E ele estava ansioso para ver como os eventos se desenrolariam.