Capítulo 6

2789 Words
Apesar de todos os desentendimentos que Anne teve com Robert, eles pareciam se entender perfeitamente. Não fora algo fácil para Robert aceitar que havia perdido a mulher que amou, ou acreditava assim amar. Apesar disso, ele agiu de forma fria e calma diante do casamento dela com seu primo. Ele jamais os perturbou novamente. De fato, Anne fora quem se aproximou dele com o tempo, devido a mãe doente de Robert. Ela se preocupava e muitas vezes, estava no hospital psiquiátrico, apenas para visita-la e fazer companhia a viscondessa viúva de Klyne. Robert no começo estava furisio com as intromissões de Anne, mas percebeu que ela não tinha nenhum desejo escuso de ali permanecer. Ela apenas queria ser útil e acabou auxiliando no trabalho de Henry. O hospital que fora construído por seu primo Henry tinha como objetivo a tratar pessoas com problemas mentais, mas também e a a tratar de doentes, acidentes, entre outros casos. Henry especificamente trabalhava na área de traumas e acidentes, mas sempre que podia, ia até a ala psiquiatriaca do hospital. Ele havia feito uma especialização na área, para tratar de doentes mentais, apenas para tratar de sua tia, o que Robert agradecia, não com palavras, mas o ajudando a investir no hospital e encontrando patrocinadores. Não era somente ele quem ajudava, mas Pembroke, seu primo Jasper Collins, ou mais conhecido como visconde de Bedford, entre outros cavalheiros abastados da sociedade londrina. Eles faziam mensalmente eventos de caridade para manter o hospital funcionando, devido ao fato de que Henry não era rico e não poderia bancar as despesas do local. E pela influência de Robert e seus amigos, eles conseguiram manter o hospital funcionando. Robert, não fazia tudo isso por ser caridoso, mas pelo fato de que queria o melhor tratamento para sua mãe. E ele não conseguiria lidar com ela dentro de casa. Ele tinha seus negócios a tratar e seus criados poderiam negligencia-la. Não poderia se dar ao luxo de confiar em ninguém ao tratar da sua mãe. Confiava apenas em Henry e no momento, em Anne, que estava sempre a visitando. No momento atual, eles se tratavam como velhos amigos e ele queria perguntar a Anne qual era o motivo para sempre tentar fazer com que ele encontrasse Henrietta. Anne disse a Robert várias vezes que ele deveria desistir da sua solteirice e se casar, pois estava velho. Era uma grave ofensa, que ele nem ao menos revidou, apenas lhe oferecendo um sorriso cínico. Ele não se importava com a opinião dela. Mas, ela parecia implacável. Assim como Janet, a esposa do seu primo Jasper. Sempre que ele ia a um baile, ela tentava apresenta-lo a várias damas elegíveis e, é claro, o fazia dançar com Henrietta sempre que ela estava por perto. Os dois, de fato, dançavam, mas evitavam a companhia um do outro. Ele, por motivos óbvios, que não desejava se envolver com ela ou se casar. E com certeza ela ainda deveria estar com raiva dele pelo beijo que ele roubou dela no jardim da mansão de Bedford, em Sussex. Mais especificamente depois do casamento de Anne e Henry. Infelizmente, ele sonhara com aquele beijo por dias a fio. Além do fato de que a presença dela era constante em sua vida. Ele começou a acreditar que ela estava o perseguindo também. Mas, suas suposições cairam por terra, pois ela não o olhava com desejo, apenas com desdém. E isso o irritava demais. Quem ela pensava que era, afinal? - Robert? – Anne o chamou, do outro lado da mesa. Ele estava distraído, com a mão no queixo, pensando no quanto a presença de Henrietta o deixava com os sentimentos a flor da pele. Não era nada parecido com que sentira por Anne, há quase um ano atrás. Ou melhor, três anos. Pois, ele a conheceu quando era amante de Thomas Dawson. E naquele momento ele se viu perdido pelos olhos azuis de Anne. Contudo, comparando ao que sentia por Henrietta, não sabia se odiava a jovem ou a desejava muito. Talvez, fosse seu desejo frustrado, pois há cinco anos, quase cometeu uma loucura com ela nos jardins dos bailes dos Melton. E que por acaso eram tios de Henrietta. - Sim? – ele respondeu, tentando fixar o olhar em Anne, do outro lado da mesa. Erik ao lado esquerdo dela brincava com a comida, com seu garfo. E, por mais estranho que fosse, o filho dela, Antony, estava em seu colo, comendo um purê de batatas com cenoura. Ao lado direito dela, a senhorita Fay estava a auxiliando. E ao lado de Robert, estava Henrietta, a causa da sua irritação de todos os dias. - Não gostou da comida? – Anne perguntou, com os olhos magoados. - Eu...er...eu acredito que esteja perfeita – ele mentiu, deliberadamente, pois m*l provara o assado, nem a sopa. - Então, por que não está comendo, lorde Klyne? – Henrietta perguntou, em tom de zombaria. Ele se virou e a fulminou com o olhar. E foi pego desprevenido pelos olhos verdes da dama. Ela estava o levando a loucura, realmente. Ele m*l conseguia respirar perto dela. Com certeza, era pelo seu gênio difícil. - Robert, não olhe assim para minha convidada – Anne ralhou, fingindo estar irritada – Parece que está prestes a ataca-la com o garfo. - É verdade – Henrietta disse, apontando com o dedo indicador, para a mão dele, que segurava com força o garfo que seria usado para destrinchar o assado em seu prato – Parece que está o segurando com força excessiva, milorde. Ele olhou para baixo e percebeu que estava realmente fazendo isso. E se seu apetite já estava pequeno, se tornou nulo. Precisava sair e fumar. - Eu peço o perdão das damas, mas preciso sair um pouco – ele disse, se levantando da cadeira. - Para onde vai, Robert? – Anne perguntou, enquanto colocava uma colher de purê na boca de Antony, que cuspiu em seguida no peito dela – Antony, não pode fazer isso. Já lhe pedi várias vezes. Seja um rapazinho comportado. - Deveria deixar o bebe aos cuidados da baba, Anne – Robert apontou – Se me derem licença. Ele saiu da sala, depois de apanhar sua bengala, para respirar. Estava com o ar preso em seus pulmões. Ele não sabia o motivo para tamanha irritação, mas estava em um estado estranho de animo, que m*l sabia discernir o que sentia. Seguiu para a entrada da casa e foi para a porta dos fundos, onde ficava o jardim privado da casa de Henry. Puxou de dentro do bolso interno do paletó sua caixa de charutos e os fósforos. Acendeu a ponta e guardou as caixas dentro do bolso. Tragou o charuto, soltando a fumaça no ar, sentindo que toda a tensão do seu corpo estava se esvaindo. Pensou nos motivos para tamanha irritação, mas somente conseguiu pensar no quanto Henrietta o provocou. Sua observação de como ele estava se portando a mesa o deixou desconfortável. Ele nunca fora de perder sua paciência ou ficar zangado. Ele era o único a fazer observações do tipo sobre as pessoas, para vê-las irritadas e fora de si mesmas. Era o seu deleite ver o quanto era controlado e frio. Mas, ao que parecia, Henrietta havia conseguido o feito de deixa-lo nervoso. Ele não podia dar tanto poder a uma mulher. E sabia muito bem que não deveria dar seu coração. Sabia o quanto homens que estavam apaixonados se tornavam cães fieis de suas esposas. E ele viu seus amigos no mesmo estado. Olhou para o céu encoberto de nuvens e pensou que jamais se entregaria a tal sentimento. Quase cairá nessa armadilha e deu graças a Deus por Henry ter se casado com Anne, antes dele. Ou seria seu fiel cordeiro, seguindo-a aonde fosse. E não iria deixar que isso acontecesse de novo. Então, pensou consigo mesmo que sua raiva por Henrietta era apenas o fato de ela ser uma adversária a altura. A jovem sabia fazer comentários inteligentes e sabia muito bem sobre o comportamento humano. Com toda certeza, se equiparava a ele. Era por isso, então, que estava irritado. Deu um sorriso desdenhoso e continuou a tragar seu charuto. * - Anne, por que você convidou a nós dois para esse almoço? – Henrietta perguntou, assim que Robert estava fora da sala de jantar. - Ora, porque eu queria meus dois amigos comigo – Anne respondeu, sem desviar o olhar do filho, que parecia irritado em comer o purê. Anne estava desistindo de alimenta-lo – Nancy poderia levar Antony? Esta difícil de fazê-lo comer hoje. A senhorita Fay assentiu e tirou Antony dos braços de Anne. E saiu da sala com o menino. Anne pegou o guardanapo de pano sobre a mesa e limpou seu b***o sujo de purê de batata. Henrietta segurou o riso. Sempre que compartilhava refeições com Anne, alguém era alvo do rapazinho na mesa. Ele atirava comida para todos os lados, ou cuspia. As paredes eram testemunhas desse comportamento tão pouco apropriado. É claro que limpeza era feita, mas ainda ficavam resquícios de mancha no papel de parede florido do cômodo. Anne havia prometido que iria redecorar o ambiente e não trazer mais Antony a mesa, mas ela não conseguia fazer isso. Não havia tempo para ela, que se dedicava a Erik, a Antony e ao hospital do seu marido. E mesmo com o auxílio de uma babá, ela ainda parecia receosa de confiar seus filhos a estranhos. - Amigos? – Henrietta perguntou, em tom irônico – Desde quando lorde Klyne é seu amigo? Ela não conseguia entender que depois de seis meses de casamento entre Anne e Henry, Lorde Klyne conseguiu mais uma vez a amizade dos Collins. Não era possível isso, depois de tudo que ele fizera no passado. Apesar de ter ajudado no resgate de Erik, ele não era confiável. Ainda mais pelo fato de ter chantageado Anne, antes do casamento dela com Henry. Ele estava a perseguindo de forma implacável e até mesmo usou um bilhete que ela enviara para ele, para fazer com que Henry desconfiasse dela. Então, não, Henrietta jamais iria confiar em lorde Klyne. Não era somente pelo que aconteceu entre os dois a cinco anos, nem o que aconteceu com eles nos jardins da mansão Bedford, era pelo fato de ele ser ardiloso e ter brincado com os sentimentos do primo e de sua melhor amiga, Anne. - Ora, Henrietta, não precisa ser tão rancorosa – Anne disse, no momento devidamente limpa e voltou a comer o assado de seu prato, levando o garfo a boca com o pedaço da carne, saboreando – Hum, realmente, a senhora Campbell se superou. Esse assado está maravilhoso. Henrietta provou do assado, que m*l havia tocado. Tinha um leve gosto de laranja e realmente estava perfeito. Contudo, ela não tinha apetite. Estava nervosa e queria distância de Robert. Já estava cansada de ser empurrada para ele em eventos sociais e ter que aguentar seus comentários mordazes. Ele a provocava sempre que podia e ela revidava constantemente. Quando publicasse a continuação do Barão Enlouquecido, iria expor todos os segredos sujos dele. E iria se vingar do que aconteceu há cinco anos. - O assado está excelente, de fato – Henrietta disse, depois de provar a carne. - Henrietta – Anne a fitou com os olhos argutos – Está acontecendo alguma coisa entre você e Robert? Henrietta engasgou com o vinho que estava bebericando. Ela tossiu e respirou fundo, sentindo os olhos lacrimejarem. Anne apenas assentiu como se tivesse comprovando alguma teoria em sua mente. - Não há nada...nada – Henrietta respondeu, com a voz rouca devido à tosse. Sua garganta estava ardendo. - Tio Robert gosta da tia Henrietta – Erik comentou. - Erik – Henrietta ralhou com o garoto, que apenas sorriu para ela. - Ora, mas meu filho está dizendo só a verdade, Henry – Anne provocou. E fez questão de enfatizar o apelido da amiga, com um sorriso doce, que irritou profundamente Henrietta – Ele parece gostar de você, pois está sempre a provocando. E você faz o mesmo. - Eu? Eu não faço nada. Eu apenas revido. Ele é um... Ela continuaria a despejar adjetivos a Robert, nada lisonjeiros, se ele não tivesse entrado na sala de jantar, recendendo a charuto. Ele lhe ofereceu um sorriso zombeteiro e sentou ao lado dela. - Eu sou o que, senhorita? – ele a instigou. Ela segurou a respiração, ao vê-lo olha-la com um ar cínico – Sou um cavalheiro maravilhoso? - Milorde é prepotente e sarcástico – ela respondeu, com um sorriso de escarnio e voltou a olhar o próprio prato, que estava quase intocado. Pode captar do canto do olho que Anne estava boquiaberta. - Ora, mas isso eu sou. Me diga algo que eu não saiba, senhorita – ele continuou a provocação. - Não quero falar mais sobre isso – Henrietta se recusou a continuar a conversa e pegou a taça de vinho dela sobre a mesa, bebericando, sem olhar para ele. - Mas, eu insisto! – Ele tinha um tom agressivo. - Robert! – Anne ralhou – Chega de provocações. - Ora, mas a dama em questão está ferindo minha honra – Robert disse em um tom lento, propositalmente e se recostou no estofado da cadeira, com se estivesse a vontade e nem um pouco incomodado com os comentários de Henrietta – Eu pude ouvir a conversa das duas e percebi que a senhorita Harrison me odeia sem motivos. E nada mais justo que eu continue com essa conversa. Mereço uma reparação. Ela deve ser comedida ao falar sobre a minha pessoa. - Robert, tenho certeza que você está a provocando deliberadamente – Anne argumentou. Henrietta segurou a haste da taça com força, mirando Robert nos olhos. Os olhos negros dele demonstravam desdém. E isso a deixou com sua ira inflamada. - Milorde esta sempre me provocando e deseja que eu seja mais comedida? – ela perguntou, em tom irônico. Ele assentiu, levemente, fitando-a profundamente – Pois, pode saber que jamais o tratarei bem. Milorde merece apenas meu desprezo. Ela bateu a taça na mesa, com força. O líquido de tom bordo espirrou para os lados. - Tenha cuidado em como fala comigo, senhorita. Não ira me querer com seu inimigo – ele advertiu, com ar sombrio. - E milorde também não vai desejar isso de mim – ela rebatou e se levantou da cadeira – Anne, sinto muito, mas preciso ir. - Henry...- Anne disse, com a voz fraca e parecia abatida, mas isso não comoveu Henrietta, que somente tinha a atenção voltada a lorde Klyne – Robert, por favor. Peça desculpas a Henrietta. - Mas, isso é ultrajante! – ele cuspiu. Henrietta não ficou na sala de jantar para ouvir as desculpas falsas dele. Apenas saiu apressadamente. Esqueceu até o xale que deixou com Erik. Apenas saiu porta a fora, respirando fundo e chegando a portão de entrada da casa. Foi quando escutou os passos apressados e uma bengala batendo com força sobre o piso de pedra. - Espere, senhorita – ele pediu, ficando ao lado dela, com a respiração acelerada, como se tivesse corrido até ela – Eu a levarei. - Ah, mas não mesmo – Ela se recusava a ficar presa com ele em uma carruagem. - Eu insisto, para me desculpar – ele puxou o cotovelo dela – Por favor – ele a fitou com exasperação. Ela olhou por cima do ombro e pode vir Anne na porta e Erik. - Está fazendo isso por Anne? – ela se virou para Robert e o encarou com escárnio – Continua tentando rouba-la do seu primo? A expressão dele mudou para raiva. Ele apertou o braço dela, puxando-a em direção à saída. O lacaio vendo que eles estavam de saída abriu o portão e o cocheiro deixou a porta da carruagem dele aberta, que estava parada ao lado da casa dos Collins. - A senhorita não deve me provocar – ele disse, em tom baixo em perigoso. Ele a puxou para que entrassem na carruagem e a empurrou pela base da coluna dela, para fazê-la entrar no veículo. Ela entrou, fingindo estar colaborando com ele. Robert fechou a porta com um estrépito e entrou do outro lado, sentando a frente dela e fechando. Socou o teto e a carruagem começou a andar. Ela respirava profusamente, assim como ele. O rosto de Robert estava avermelhado pela raiva. - Milorde está me raptando? – ela provocou. - Talvez – Robert respondeu. Ela deu uma risada sarcástica, que logo morreu ao ver ele se sentar ao lado dela, com a carruagem em movimento. E o que ele fez em seguida a calou. Ele simplesmente puxou sua nuca e a beijou.
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