Ver Robert no corredor da mansão Derby não era o que Henrietta esperava. De fato, queria passar despercebida por ele. E não havia como fugir, pois ele já tinha a avistado. E aquela parte da casa era silenciosa e vazia.
- Senhorita Henrietta – ele disse – Por que veio para essa parte da mansão?
- Acredito que esse assunto não lhe diga respeito – Henrietta retrucou e tentou passar por ele, mas Robert a segurou pelo antebraço nu, pois seu vestido era mangas curtas. Apenas um xale cobria seus ombros – Robert, o que pensa que está fazendo?
Ele a fitou com petulância.
- Eu acredito que a senhorita está sendo muito escorregadia. E esconde segredos que eu desejo saber. E se não disser, seremos protagonistas de um escândalo em alguns instantes e não será por minha culpa – Seus olhos negros a fitavam com argucia.
- Ah, como é odioso! – ela soltou um muxoxo – Se está tão interessado e se veio até aqui sabe que apenas trouxe minha amiga para descansar na sala de música.
Ele assentiu, mas não soltou o braço dela.
- Será que pode me deixar ir agora? – ela pediu, tentando soltar seu braço.
Ele sorriu, malicioso.
- Quero saber apenas se sua amiga está encontrando algum cavalheiro ou está apenas com dor de cabeça – ele zombou.
- Está desgostosa de homens como o senhor, que parecem tratar as mulheres como se fossem meros objetos do seu prazer.
- Oh – ele abriu a boca, fingindo estar escandalizado – Não acredito que seja o objeto do meu prazer. Mas, que juntos temos o nosso próprio prazer, Henrietta – ele disse, aproximando seus rostos deliberadamente – E estou desejoso de você, minha querida. Estou cansado que me rechace.
Ela suspirou exasperada, tentando se desvencilhar dele, mas Robert apanhou sua cintura e a beijou. Contudo, ela virou o rosto do momento certo e ele beijou sua bochecha. Apesar disso, isso não o fez desistir. Ele parecia lutar com afinco para ter a atenção dela e ergueu seu queixo.
- Vai ser minha ainda – ele disse, com um sorriso malicioso – E vai me desejar como nunca.
Henrietta estava tremendo. Não sabia o motivo para ele ser tão implacável em seu cortejo. Mas, sabia que ele estava tentando tê-la apenas como seu troféu.
- Não serei sua, milorde. Me solte ou ira sofrer as consequências.
- Não tenho medo das suas ameaças. E se gritar, sua reputação será arruinada – ele disse, bem perto dos lábios dela dessa vez. Seus olhos pareciam famintos, analisando cada traço dela – E seria interessante tê-la como esposa. Cada instante com a senhorita seria muito intenso. Gosto disso.
Ele acariciou o queixo dela e Henrietta teve medo de estar cedendo aos seus caprichos. Ele era muito convincente e estava a envolvendo em seu feitiço. Até que escutou a voz de um cavalheiro ao longe. E Robert a soltou.
- O que está fazendo? – era John Miller, com um olhar mortal para Robert – Encurralando uma dama? É típico da família Klyne.
Robert endureceu o queixo, com um olhar escuro para John. Henrietta tinha medo que os dois se enfrentassem ali. Talvez, entrassem em uma briga. Se fosse assim, sua reputação estaria acabada.
- Veja como fala comigo, Miller. Eu sei muito bem do seu passado. Não me teste – Robert ameaçou – E isso não lhe diz respeito. A senhorita Harrison é minha noiva.
Henrietta engoliu a seco. Não estava acreditando no que ouvira. John riu, com escarnio.
- Como ela pode ser sua noiva, se o pai dela disse que a senhorita Harrison não aceitou a proposta de nenhum cavalheiro?
Robert o fitou com desgosto.
- Está interessado nela, Miller? Pois, ela está muito acima de você – ela escarneceu.
John retesou o queixo e o fitou com um olhar frio.
- Sou tão rico agora, que não preciso que aristocratas como você me digam o que eu posso ou não – ele o fitou com desdém. Depois dirigiu o olhar a Henrietta. Era indiferente e isso deixou-a temerosa. Quem era aquele homem? – A senhorita deveria voltar e se manter longe de Klyne. Ele é da pior espécie. E se diz um cavalheiro.
John deu as costas aos dois e Henrietta aproveitou para voltar a sala de música e buscar Lucinda, para que fossem embora. Depois, conversaria com seu pai. Não iria suportar mais duas horas de baile. Contudo, Robert a seguiu.
- Aonde vai? – ele perguntou, andando ao lado dela, batendo a bengala no chão com um estrepito, a cada passo.
- Eu vou buscar Lucinda. Pode me deixar em paz? – ela exigiu, sem olha-lo.
Robert bufou.
- Não – ele se negou.
Parecia ser porque não gostava de obedecer as ordens dos outros.
- Quer me arruinar? – ela perguntou, parando de andar.
Seria pior se Lucinda estivesse junto? Ela não sabia.
- Talvez – ele respondeu, com um ar malicioso – Quero outras coisas da senhorita.
- Milorde não passa de um oportunista. E é da pior espécie. O senhor Miller tem razão – ela retalhou.
Ele a fitou com os olhos escurecidos pela raiva. Se aproximou dela, parecendo maior, como se fosse feri-la. Mas, a única coisa que fez foi dizer:
- Apenas aproveito as oportunidades que me são dadas, realmente. Mas, não sou o que Miller diz. E se quer confiar em um cavalheiro como ele, sinto em lhe dizer que estará perdida de verdade.
Ele deu as costas para ela, pisando duro. Henrietta revirou os olhos. Robert não passava de uma criança mimada. De repente, ele a queria e ela se negava. Com certeza, se ela cedesse, ele a usaria e se cansaria dela. Ela nunca deixaria que isso acontecesse.
Henrietta voltou a caminhar para a sala de música e bateu na porta de madeira na cor laca.
- Lucy, sou eu – ela chamou.
A porta se destrancou por dentro. Lucinda estava com o rosto pálido e os olhos vermelhos.
- Oh Lucy, o que houve? – Henrietta perguntou, preocupada.
- Odeio o senhor Longford – ela respondeu, chorosa – Não quero mais vê-lo. O que ele me disse foi...foi...ultrajante.
- O que ele disse? – Henrietta perguntou, puxando Lucinda para dentro da sala e fechando a porta atrás de si.
A sala estava escura, mas isso pouco importava. Não era possível distinguir Lucinda na penumbra, mas Henrietta segurava a mão da amiga, aparando-a.
- Ele me disse...- a respiração dela era entrecortada – Ele me disse que eu seria ótima em sua cama. Que tenho os olhos mais lindos que já viu. Que eu daria uma boa esposa. E que desejava me ver...hum...suspirar...
Henrietta sabia muito bem o que significava aquela frase. Robert insinuou quase o mesmo que o cavalheiro em questão. Contudo, havia diferenças, no caso de Henrietta se sentir atraída pelo maldito visconde.
- Vamos embora, Lucy. Eu irei leva-la em minha carruagem – ela sugeriu.
- Não, eu não posso. Minha mãe iria ficar brava comigo – ela se recusou.
- Não, Lucy. Eu irei falar com sua mãe – Henrietta prometeu.
- Tudo bem. Espero que ela não fique irritada. Ela deseja que eu apanhe o irmão de Amy. Mas, Henry, eu não o desejo – Lucy disse, com a voz chorosa – E estou reclamando tanto, mas vejo que você também sofre. Ouvi sua conversa com lorde Klyne. Ele é um homem odioso. Eu iria sair da sala, mas outro cavalheiro apareceu.
- Oh, isso? Não se preocupe comigo. Sei lidar com Klyne. Já faço isso há anos – Henrietta garantiu.
*
Robert estava no final do corredor, esperando ver Henrietta sair da sala de música e pode vê-la caminhando com a senhorita Lucinda. A jovem bela de olhos violetas. Ninguém se aproximava dela, pois financeiramente sua família estava na falência. Mas, havia cavalheiros que queriam se aproximar apenas para tirar vantagens da jovem. Robert caminhou de volta ao salão e observou que Henrietta estava bem, com suas amigas, perto da mesa de refrescos. Ao menos, ela estaria longe de Miller. Precisava mantê-la longe dele. Por mais que não fosse melhor do que nenhum cavalheiro, Robert nunca a machucaria. E não faria nada que ela não quisesse. Não poderia dizer a mesma coisa de Miller. Afinal, ele era tão parecido com seu pai e nos negócios, era implacável. E as mulheres com quem se envolveu era prostitutas, que sofreram em suas mãos, igualmente. Robert jamais levantou a mão para uma mulher em sua vida, nem mesmo fez o que seus amigos acreditavam que fazia em um quarto com uma mulher. Que era castiga-la, para obter prazer. Mas, sabia que Miller usava desses métodos. E não queria que Henrietta passasse por isso. Temia por ela.
Passou a noite no salão, conversando com conhecidos e com Pembroke. Que não parava de provoca-lo.
- Parece que vai devorar a jovem – ele provocou.
- Pembroke, você é insuportável – Robert disse, com irritação – Está vendo como ela dança com Miller? Ele está tentando engana-la.
- Ele é apenas um dono de casa de jogos. O que mais ele pode dar a ela? O pai da senhorita Harrison não vai quere-lo com genro – Colin Harris disse, fumando um charuto, na sacada.
Robert estava perto da sacada, para não perder nenhum movimento de Henrietta. Não sabia o motivo para estar tão apreensivo com ela, apenas que temia que Miller colocasse suas mãos imundas nela.
- Colin, o pai da senhorita Henrietta não está preocupado com títulos, tenho certeza disso – Robert garantiu – Já conversei com aquele homem. Ele quer casar sua filha por todos os meios.
- Realmente, cinco temporadas – Jonathan Harris disse, irmão de Colin – Ela recusou vários pretendentes, até o Colin ali.
Colin riu.
- Eu acredito que teria sofrido se tivesse me casado com ela. Mas, já fui fisgado pela minha esposa, então, estou feliz com ela.
De fato, Colin se casou muito cedo e já tinha filhos. Contudo, sua esposa estava indisposta para participar do baile aquela noite. Por ser filho da família Derby, Colin precisou comparecer, mas se ausentava para ver sua esposa. Ele realmente a amava, mesmo que não parecesse, pois era um libertino notório, assim como seu irmão Jonathan.
- Por que não se casa com ela? – Pembroke sugeriu – Parece fascinado.
- Casar? – Robert engasgou.
- É, exatamente isso. Amarre-se a ela e morra em pouco tempo – Jonathan zombou – Colin já parou com sua vida libertina e é insuportavelmente enfadonho.
- Sou o que todo marido deve ser. Comprometido – Colin disse, envaidecido.
O único problema dele, e que estava claro para Robert, era a bebida. Colin bebia demais, enquanto jogava. E arranjava desculpas para isso, é claro. Mas, ele não apontaria esse defeito para o amigo.
- Não quero saber de casamento – Robert disse, dando de ombros – A senhorita Henrietta é minha conhecida e amiga de Henry e Anne. Não posso deixa-la desamparada.
- Ora, mas quem disse que você deveria ser o guardião dela? – Pembroke provocou.
Robert lhe deu um olhar malicioso.
- Eu mesmo – ele disse, sem se importar com a opinião dos amigos.
- Ai está um homem apaixonado – Jonathan zombou.
- Boa sorte com ela, então – Pembroke disse – Ela está saindo com Miller agora mesmo.
De fato, Henrietta estava indo embora com ele e Lucinda a reboque.
- Mas, o que...mas que diabos! – Robert praguejou – Eu vou atrás dela.
Ele nem ao menos se importou com o papel que estava fazendo. Apenas iria atrás de Henrietta. Em cinco anos que a conhecera, nunca esteve tão preocupado quanto aquela noite.