David Quincy
Sábado às 10:23 no Sanatório Blackwood, Oxford (Inglaterra).
Hoje é o meu milésimo nonagésimo quinto dia, neste lugar que tira a sanidade mental das pessoas, mas eu estou aqui. Consegui suportar todos os tratamentos de eletrochoque, altas dosagens de fluoxetina e outras amostras.
Os dias se tornam longos, exaustivos e tediosos. Escrever em meu diário, se tornou algo consequente entre os anos aprisionado.
Busquei planejar vários modos de fugir, mas a segurança é fortemente redobrada ao pôr do sol. Antes de me colocarem aqui, percorremos quilômetros na estrada densa. As folhas caiam pela via a cada metro percorrido.
O sanatório fica ao redor de uma cordilheira. Todos burlam a lei. A taxa de pessoas recuperadas após residirem aqui, é praticamente zero, ninguém que entra sai.
Preciso de apenas uma oportunidade, um vacilo dos mastins para escapar. Dificilmente acontecerá e talvez meu túmulo seja entre essas paredes brancas e irritantemente suaves.
Alguém destrancou a porta externamente. Me recomponho. Aguardo o momento de sair deste quarto branco.
— Está livre! Se aprontar novamente, na próxima passará uma semana e sem comida. — Desdenha.
Partiu, deixando a porta escancarada. Me erguendo, voltando ficar de pé, após uma noite lenta e silenciosa. Depois de tudo, minha voz e a quietude constante dessas paredes, viraram meus cúmplices de desânimo.
No corredor que possui acesso para várias salas do sanatório. Pessoas caminham de um lado para o outro. Blackwood é o último lugar que alguém gostaria de estar. Observar os pacientes dialogando com o invisível ou brinquedos que encontram-se espalhados pelo pavimento enquanto caminham, é penoso.
Me cabisbaixo com alguns casos que esbarrei aqui. Pessoas que chegaram em plena consciência e acabaram ficando loucas, definitivamente. Mas ninguém reside neste recinto por coincidência, e sim, pura vingança.
Mesmo num santuário para loucos, regras claras residem nos aposentos. São três refeições por dia e alguns guardas revisam a fila ergométrica que normalmente é extensa. Todos recebem alguns conjuntos de peças de roupas uniformizadas com o emblema do instituto.
No final do corredor à esquerda, seguindo adiante, existe um lavanderia. Apenas alguns de nós utilizam. Em alguns casos o grau de loucura é levado ao extremo, sem saber ao menos se alimentar decentemente.
Os psiquiatras que chegam, normalmente dias depois, pedem demissão por não aguentarem à responsabilidade ou culpa das vidas perdidas estarem em suas mãos. O Sr. Albert gosta de manter todos os médicos em seu devido lugar, caso ele seja contrariado, é demitido e sem pensar duas vezes.
O diretor me cerca com seu insistente olhar, desvio minha atenção para o vazio da parede a minha frente. Não quero confusão, pelo menos por enquanto. Ainda posso sentir as dores de cabeça e física após a tortura elétrica.
— Fico feliz que está livre, David! — Disse sem veemência.
— Já estou pronto para outra. É muito confortável esse cantinho de tortura, não acha? — Estiquei meus braços, erguendo para o alto. Solucei, resultado do meu péssimo sono.
— Você sabe que regras residem e os rebeldes devem servir de exemplos, para outros que tentarem se levantar contra mim. — Avoluma sua voz.
— Acho que o mais louco é você. Já pensou em usar seu próprio tratamento de tortura? É excitante Sr. Albert!
— Acho bom começar a me respeitar David. As situações em Blackwood sempre podem piorar. Não quer entrar na lista das novas experimentações, como ser rato de laboratório, não é? — Silenciei. — Eu apenas vim informar que, sua mãe irá lhe visitar em breve e também mandou seu eterno abraço.
Durante todos esses anos, somatórios de mil dias, nunca recebi uma visita ou sinal de vida. Fui jogado como um rato neste lugar medonho, por uma maléfica mulher, que se diz dona de toda a fortuna Quincy. Apenas queria ter a oportunidade e o senso de justiça.
— Ela não é minha mãe. E se sua boca nojenta, pronunciar mais uma vez, vou degustar sua língua temperada com sal e pimenta! — Fico transtornado.
— É uma pena. — Respirou fundo. — Tenha um bom dia, David! — Retirou-se, retornando para seus aposentos a metros de distância.
De toda a porcaria que me enoja. O ser que mais tira meus dias de sonos, é o meu irmão Martin. Há anos que não tenho sequer uma notícia de alívio ou misericórdia para os dias agoniantes.
Encaminho-me para o refeitório, e vou de encontro a uma intensa fila. A minha frente, umas vinte pessoas com distúrbio fácil ou esquizofrenia. Além dos inocentes iguais a mim, porém não tão resistentes.
Faltam poucos dias para os exames semanais. Temos consultas com psiquiatras, uma vez por semana, e aqueles em que o caso é mais grave, a dose é aumentada duas vezes, dependendo da demanda casual.
Ainda no mesmo dia, apenas alguns minutos depois.
No salão do refeitório. Estou sentando na última mesa a minha direita. É estranho, mas aqui dentro, existem alguns grupos de pessoas, geridas por recentes valentões inclusos como hóspedes no Blackwood.
Me envolvi em algumas confusões nas últimas semanas com j**k Scooter. O louco mais alucinado de todo o sanatório.
Chegamos a nos agredir em pleno salão, mas parece que todos estão contra mim. Eles apenas enxergam o que o grande David rebelde faz, enquanto outros sofrem punições brandas por seus atos violentos, porém, aceitáveis aos olhos do Sr. Albert. Esse cara é um tremendo b****a.
A comida deste lugar é h******l. Pelas manhãs somos servidos, normalmente mingau, detesto. No almoço o cardápio varia de feijão a batata doce.
As carnes são sempre aves e cozidos. À noite segue a mesma linha de raciocínio. Mesmo acostumado com cada detalhe r**m, não deixa de ser desagradável.
Enquanto degusto dolorosamente a comida, j**k Scooter se levanta da sua cadeira, vindo de encontro a minha posição. No lance veloz, ele arremessou meu prato de comida ao chão. Apenas fiquei sem reação, parece que todos implicam comigo e não fujo de brigas.
— Eita, me desculpa, cara! Não queria fazer isso. — Ele é tão i****a quanto arrogante.
De cabelos lisos e tamanho médio, tatuagens em seus antebraços e um corpo em boa forma. Ele não me dá medo. Assumo meus riscos, porém, seus amigos sempre estão de guarda-costas, esperando qualquer imprudência.
— Pode vir, j**k i****a ou que se acha esperto, mas é um tremendo o****o. — Zombei a iniciar uma disputa.
— Cara, você tá ferrado! — Empurrou à mesa para o lado.
Todos os ouvintes estão presentes. Se levantam agitados pelo grande j**k quebrador de ossos, a conseguir sua próxima vítima, mas eu sei como me defender. Anonimamente faço exercícios de musculação e yoga no tempo livre, para manter o controle.
Ele se exercita, demonstrando seus punhos para a platéia e um certo grau de superioridade que, só existe na sua grande cabeça de vento, mas também possuo minha guarda-costas, a melhor de todas.
— E então, j**k, tá querendo apanhar hoje? — Ariel me defende.
Eu esqueci de contar essa parte a vocês, mas pode ficar para depois. Tenho uma confusão a solucionar.