David Quincy
Domingo às 07:49 no Sanatório Blackwood, Oxford (Inglaterra).
Meu adorado diário, mesmo depois de estarrecer neste recinto por um castigo criminoso, não poderia deixar de mencionar mais um acontecimento. Por dentro estou melancólico. Temo não ver mais às ruas movimentadas de Oxford ou rever meus apreciados companheiros.
Não consigo mais sentir a sensação de ser livre. As lembranças se tornam cada vez mais vagas e meu coração lapidado por variados fundamentos.
A dor está mais presente, perante os dias que parecem intermináveis, temo não aguentar por muito mais tempo. Quero deixar registrado essas palavras para que, após minha morte, alguém possa encontrar e entender tudo que ocorreu no meu íntimo.
Na madrugada da noite anterior, havia sido a mais cômica da minha vida, mesmo após a minha falha tentativa de escapar do sanatório. Os bramidos soltados por j**k durante toda a escuridão nas altas horas do ápice noturno, foram um canto para meus sentidos.
Suas súplicas implorando por liberdade foram ouvidas várias vezes. No silêncio mais escuro, onde eu estava apenas com minha caneta esboçando as letras que decifram meus pesares, sendo interrompido por ele inúmeras vezes, quase perdi minha paciência por sua inquietude e descontrole.
Após deixar de pedir socorro, sua única atração foi dialogar com seu inimigo, isso iria tranquilizá-lo. Seu andar de um lado para o outro é extremamente irritante. Sua mísera opção é juntar a mim. Sentou ao meu lado questionando minhas habilidades na escrita:
— Como consegue? — Exterminou o silêncio.
— O quê? — Continuei minhas anotações.
— Não se desesperar nesse silêncio, com esse quarto fechado. Escutando apenas sua voz ou nada, às vezes. — Se questionou.
Pausei meus registros por alguns instantes, talvez eu tenha que ensiná-lo a lidar com isso. Eu sei, j**k não merece nenhuma consideração que eu venha a ter, mas certas coisas são verdadeiras monstruosidades superando qualquer fúria.
— Esta não é a primeira vez que me colocaram aqui, tudo se tornou mais fácil depois do início. — Recordei dos instantes antes de continuar. — O meu primeiro dia foi macabro. Meu peito apertava enquanto faltava ar e antes que eu pudesse pedir ajuda. Claro que ninguém iria me salvar, estava sozinho naquela época.
— E por que você veio parar aqui antes?
— Achou que aquela noite foi a primeira vez que tentei fugir? Talvez tenha sido a última. Não sei se consigo ter vontade ou qualquer otimismo. Ninguém nunca saiu daqui, por que eu conseguiria? — Interrogo a mim mesmo.
— Não pense que viramos amigos. — Interpelou.
— Não achei que aconteceria. — Debochei do momento.
— Prometo que dá próxima vez que tentar fugir, não vou te impedir. — Se desculpou.
— Não vai ter próxima vez, me sinto esgotado. — Reconheci.
— Sinceramente, David, espero que consiga fugir, se alguém merece isso é você! — Nunca pensei que ele diria algo assim, talvez seja uma das reações ao ficar detido no cômodo.
Nossa conversa foi interrompida. Somos liberados após um longo período, sendo que agora é diferente, talvez depois de muito tempo, eu realmente tenha deixado de tentar, de relutar contra as arbitrariedades direcionadas a nós que porventura jamais terminem.
Jack partiu para seus aposentos depois de uma desejada liberdade. É início de manhã, os doentes ainda estão a se levantar dos seus leitos. O cantarolar das aves está se iniciando. Vou ao encontro de Ariel, provavelmente ela já está no jardim, sentada no banco enferrujado.
Enquanto caminho, recordo dos futuros acontecimentos do dia de hoje. As consultas com os psiquiatras sempre acontecem no final de semana, raramente entre os dias úteis.
Nunca serviu para nada, esses vermes de jaleco nem observam os rostos. Se comportam como se nossa vida não significasse nada. Pensando bem, é isso que somos, apenas meras cobaias.
Celebrei após vizualizar minha amiga, onde havia fantasiado. A vejo pensativa, como se conversasse com seus próprios pensamentos. Isso normalmente acontece, no fim, somos nossos próprios companheiros.
Assentei no banco, animado ao vê-la:
— Estava a sua espera! — Se animou ao me ver.
— Não pensei que eu sairia pela manhã. — Recordei as últimas emoções vividas.
— Não ficou sabendo? — Estimulou minha intromissão.
— Não! — Me inclinei focando nos seus belos olhos negros.
— Parece que chegou um novo psiquiatra no sanatório. — Ainda não compreendo.
— Mas isso é normal, não é?
— Talvez, mas estão dizendo que ele é o protegido do diretor e bastante novo, possivelmente não conhece às regras do sanatório.
— Ele vai ser apenas mais um a eletrocutar às pessoas. Lamentável esses médicos, apenas pioram a nossa situação. — Provavelmente deverá ser o insensato de todos.
Silenciei após esta curta conversa, retornei a lembrar dos avisos dados pelo diretor Albert. Ele disse que alguém irá me visitar. Minhas perguntas se respondem facilmente ao pensar em Renee, provavelmente veio procurar minha cova e comemorar sobre ela. Não ficará contente ao me ver assim, repleto de fúria.
— No que está pensando? — Ariel deduziu minha quietação.
— Acho que a responsável por me colocar aqui, está planejando fazer uma visitinha.
— Depois de todos esses anos? — Voltou a questionar.
— Talvez ela queira certificar se estou preso o suficiente. Em breve farei dezoito anos e isso deve tê-la deixado com medo de perder tudo que me pertence.
— Já sabe o que vai fazer?
— Queria evitá-la, mas sei que não devo fugir dos meus medos. — E também não há maneira.
Ariel sustentou minhas mãos, vasculhou meu olhar com sua esbelta face que, possui seus irresistíveis cabelos negros e seduzem até mesmo a forma mais pura encontrada.
Como ela consegue tirar forças para me consolar na mesma situação que encontro-me? Decerto, ainda não compreendo o quanto fazemos bem um ao outro.
— Estou aqui, sempre que precisar. — Tenta me animar.
Somos interrompidos pelos guardas, provavelmente chegou à hora da tão esperada consulta com o psiquiatra. Vou dispensá-lo o mais rápido possível e voltar para meus aposentos.
Sou escoltado até a sala, onde acontecerá a análise. Nas minhas últimas consultas as únicas palavras que escutei foi, "tentaremos na próxima" e seguiu durante os anos. Esse é o momento mais tedioso, dizer o que sente e não fazer nada a respeito.
De frente para a sala, invadi imediatamente sem anunciar a minha chegada. Sem ser aconselhado, sento no leito, onde ocorrerá todas as perguntas de praxe. O psiquiatra está de costas com um livrete nas mãos, ainda não posso ver suas características físicas.
Permaneço a espera do seu atendimento. Ele parece desajeitado ou inexperiente, provavelmente é o seu primeiro emprego, mas este não é o local mais adequado para alguém que não possui certa experiência de trabalho. Não acredito que ele seja capaz de continuar por muito tempo.
Por fim, se virou e paralisou enquanto me observa. Seu admirar é estranho. Sem medo, encaro seus olhos e naquele instante pausado no tempo, sinto algo diferente no seu agir. Precisei pensar em algo para sair do transe, quero apenas encerrar a sessão desnecessária.
— Está pronto para a consulta? — Sua voz foi gentil, desigual a todos os outros que já passaram por mim. Porém, ele não poderá ser diferente, não existem razões para tal infame.